A fé nas benzedeiras
A solidão do interior, mediante os ínfimos recursos na área da saúde, fizera das benzedeiras, por um longo tempo, estrelas que fascinavam por suas rezas misteriosas e pela sabedoria de manusear inúmeras plantas do Cerrado com o objetivo de curar pessoas e animais.
Por Jucelina de Moura Lôbo e Marco Aurélio Bernardes
Ricos e pobres se encontravam quase sempre ali, numa minúscula sala de chão batido, diante de uma pequena mesa, forrada com tecido branco, cheia de imagens, garrafadas e ramos, esperando a reza para curar suas enfermidades.
Benzia-se contra cobreiro, sarampo, coqueluche, quebranto, malária, tosse ruim, mau olhado, brotoeja, alergia, espinhela caída, dentre outros males. Poucos dias de nascida, a criança era levada até a benzedeira para ser benzida contra quebranto ou sapinho. Havia reza até para achar um bom marido.
A fé na oração de tais benzedeiras trazia a Formosa pessoas de todos os lugares, para receberem bençãos e comprarem garrafadas. Uma das benzedeiras mais importantes da cidade, segundo relatos, foi Marcelina Vaz da Costa, conhecida por Marcilina Benzedeira.
Residia numa pequena casa que ficava na rua Santos Dumont, local onde recebia os clientes. Na velhice, atendia sua clientela apenas alguns dias da semana. Nos dias de atendimento, uma longa fila se estendia rua afora.
Marcilina Benzedeira venceu mais de meio século de rezas, ajudando pessoas sem nunca pedir nada em troca. Vendia apenas as garrafadas por um preço irrisório. Das pessoas da roça, aceitava mantimentos em troca de garrafadas, porque não era comum essas pessoas possuírem dinheiro.
Até da década de setenta, andou em pé de igualdade com os médicos da cidade. Segundo relatos, Dona Marcilina era bastante popular entre as classes mais humildes, assim como Dr. Naby tinha uma importância sem precedentes entre os mais favorecidos.
Mas mesmo as pessoas que podiam pagar tratamento médico e dentário, não deixaram de contar com benefícios das rezas da curandeira. Dona Marcilina era a senhora das rezas e dos ramos, durante um bom período do século XX, em Formosa. Um pouco antes do pôr-do-sol, costumava distribuir suas generosas bênçãos a todos que a procuravam.
Jucelina de Moura Lôbo – Escritora, em Formosa em Retinas Idosas, 2006.
Marco Aurélio Bernardes – Escritor, em Formosa em Retinas Idosas, 2006.