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A Mãe e a Enxada

A Mãe e a Enxada

A Mãe e a Enxada

Entre tantas cenas angustiantes e assombrosas da tragédia que assola o município de Petrópolis, destaco a imagem da mãe que com uma enxada escava corajosa e desesperadamente os escombros a procura da filha soterrada…

Por Padre Gegê Natalino

Creio que essa terrível e inesquecível cena traduz, no poder arquivelho da imagem, o terror de uma população inteira, o terror humano em grau extremo.
Entre a mãe e a filha soterrada, uma enxada desesperada se faz confissão de uma terrível busca, símbolo do vínculo ancestral mãe-filha, sacramento do desesperado amor que desce a mansão dos mortos… É reedição da cena arquetípica de Maria aos pés da cruz, de Deméter a procura de Perséfone, de Iemanjá ante as chagas abertas de Omolu/Obaluaê.
É cena em face da qual as humanas palavras emudecem; é desespero e horror a produzir, a céu aberto, terror e tremor.
A enxada tocou no coração do mundo. É ferida aberta, cratera no corpo-mulher-continente; é buraco do tamanho de Deus no ventre.
E, “de repente não mais que de repente”, a desesperada enxada fez-se confissão materna de aflição e dor
Choram as Yabás…
Salve Regina, Mater misericordiae
Saluba Nanã!
Silêncio, silêncio… Atotô!”

“Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu”

(Chico Buarque de Holanda)

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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