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A multiplicidade de interpretação de um texto

A multiplicidade de interpretação de um texto
 
 
Um texto fala para cada época. O mesmo é compreendido de forma muitíssimo diversa por diferentes intérpretes, ou seja, leitores. O verdadeiro texto é aquele que está no intelecto do autor e não na interpretação daquele o qual analisa-o. Quem o interpreta quer saber o que está na mente do autor ou quer compreender o que está escrito? Isto dá uma fusão de horizontes; quem é o autor e o que se quer compreender do texto. Deste passa a ser uma coisa e isto faz com que ele seja entregue às interpretações ao longo da história. Nesta, o texto continua sendo ele mesmo, contudo, a interpretação dele torna-se diversa.
 
A fusão de interpretação _ entre o que o autor escreveu e o que o leitor pretende captar do texto _ é necessária para fazer uma interpretação sólida da própria obra. O escrito, então, fala por si e pelo leitor. Fala mais ainda por si mesmo. Dizia Lévinas que o dito não se esvai no dizer. O sujeito não escreve só para si, mas para a compreensão de quem vai analisar o que foi proposto.
 
O autor de uma obra não é a obra. O autor produz o objeto depois que este já esteja no seu intelecto. Primeiramente, a obra está na mente do autor, na sequência é posto na realidade, de forma escrita. É, pois, a formulação do texto.
 
Na formulação de um escrito se capta duas realidades: uma obra da mente do autor e a mesma transposto da mente do autor para o texto escrito.
 
Em síntese, o texto não está preso ao autor. Depois de escrito, formulado, ele tem vida plena na história. Desta forma, ao analisar um escrito, o seu contexto deve ser levado em conta. Com efeito, é sempre um choque quando a obra fala algo diferente daquela o qual o leitor captou. Isto porém, não implica um esquecimento daquilo que o escrito diz. Assim, o texto é escrito pelo seu autor. A interpretação deste texto é do intérprete; é daquele que vai deter o escrito ao compreender o que o mesmo escrito descreve. Porque nenhuma obra fica presa àquele que a escreveu.
 
Padre Joacir S. d’Abadia, Especialista em Docência do Ensino Superior e filósofo autor de 12 livros – joacirsoares@hotmail.com/ WhatsApp 61 9 9931-5433
 
Fonte: Arquivo Pessoal
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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