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A pandemia das (de) “lives”

A pandemia das (de) “lives”

Por Juarez Silva Jr.

Não é o primeiro surto pandêmico desde que as transmissões ao vivo pela internet existem, mas decididamente é a primeira vez que podemos observar uma “epidemia” de transmissões do tipo, as chamadas “lives”. Ocorrendo não por acaso, na esteira da pandemia de Covid-19 e suas contramedidas como a quarentena com distanciamento social.

Há alguns detalhes a observar quando falamos de “lives”. O primeiro e óbvio é a sincronia, ou seja, diferente de vídeos gravados e disponibilizados para acesso assíncrono, isto é, no tempo individual e conveniente de cada telespectador. A “live”, como sugere o nome, é “ao vivo”, se não junta as pessoas no espaço, junta no tempo.

Essa prática não é novidade para muitos estudantes e educadores em EaD – Educação a Distância, especialmente aqui no Amazonas, onde a interiorização do ensino superior e mesmo básico, há tempos se beneficia desse recurso. A  Universidade do Estado do Amazonas (UEA), é um exemplo. Muito embora por algum motivo talvez “ideológico”, talvez de “imagem”, ou mesmo de legitima reflexão conceitual, a UEA resista em utilizar o termo EaD, definida basicamente pela distância física entre professor e aluno, ou seja, professor e aluno em ambientes distintos, preferindo utilizar o termo “presencial conectado”.

É justamente aí, na ideia de “presencial conectado”, que repousa o sucesso das “lives” nestes tempos de distanciamento social. Uma das questões levantadas por contrários a EaD é “falta de sociabilidade”, do dito “olho no olho”, do “estar junto”. Nas aulas em “presencial conectado”, apesar de o professor estar remoto, os estudantes estão todos “aglomerados” no mesmo ambiente, graças à sincronicidade exigida e coletivização dos recursos necessários.

A “aglomeração” é que faz a diferença. O povo gosta…, apesar de, em uma “live pandêmica”, diferente de em uma aula ”presencial conectada”, os espectadores estarem dispersos no espaço, estão igualmente conectados no tempo, ou seja, na “vibe” do momento, no “clima”, na “energia no ar”, de forma sincronizada. Uma compensação psicológica pela distância física.

As “lives” não são “tudo a mesma coisa”, há basicamente 4 tipos com subtipos:

  • As “lives show”, que se subdividem em grandes, normalmente musicais e de artistas famosos, com vínculo filantrópico, as solidárias, performadas por artistas locais ou de nicho, onde os telespectadores colaboram com um “couvert” a fim de ajudar os artistas que basicamente vivem de sua arte; e as socioculturais, apresentações com fomento público, ou pessoais/grupais com a finalidade de oferecer entretenimento alternativo aos quarentenados, são de público reduzido, pode ser poesia, “stand-ups” ou outras manifestações artísticas/culturais, inclusive música.
  • As “acadêmicas/intelectuais”, voltadas ao meio universitário e científico, cujo objetivo é substituir aulas, ou eventos públicos como palestras, defesas de dissertação/tese, mesas redondas, apresentação de notas de pesquisa.
  • As “lives de trabalho” ou “meetings”, que visam com diz o nome, substituir os encontros presenciais de equipes de trabalho, grupos de discussão, órgãos colegiados, consultorias, orientações, tutorias e entrevistas. Podemos encaixar também nesse tipo outras interações escolares gerais. Dependendo, são restritas a um grupo limitado, ou públicas, como as reuniões que normalmente já o são, a exemplo das de tribunais, parlamentos, equipes de programas de rádio e TV, etc… .
  • As “lives pessoais”, que já era eram bastante usadas antes da pandemia, ou seja, as chamadas de vídeo pessoa a pessoa, que com o distanciamento social passaram a ser ainda mais utilizadas.

Lembrando que tanto as “lives show”, quanto as “acadêmicas/ intelectuais” e os meetings públicos, tem em comum o fato de apesar de permitir alguma interação do grande público via comentários, a presença e interação de áudio e vídeo é só dos protagonistas ou entre os convidados limitados.

Não faço ideia de o quanto esse apelo das “lives” permanecerá no pós-pandemia. As “lives show” tendem a reduzir muito ou mesmo “desaparecerem do mapa”, mas é certo que os demais tipos não voltarão aos níveis anteriores. De certa forma a “live” é democratizante, permite coisas como a famosa ativista e acadêmica Angela Davis participar de mesa redonda na UEA, e muita gente que nem caberia em um auditório ter acesso em tempo real e até com sorte fazer uma pergunta.

Muita gente “pegou gosto”, velhos professores e outros profissionais com resistência ao vídeo ao vivo, se equiparam, dominaram as técnicas necessárias e agora se sentem bem mais à vontade. O teletrabalho com vídeo ao vivo, ainda causa umas cenas hilárias ou angustiantes, mas aos poucos vai se normalizando. A pandemia vai embora, mas as “lives” parece que ficarão em alta por um bom tempo

Juarez Silva Jr. é um ativista, escrevinhador digital e apaixonado pela Amazônia, radicado em Manaus desde 1991. Tem graduação em Processamento de Dados pela Universidade de Taubaté, em São Paulo. Trabalhou e lecionou diretamente na área de tecnologia da informação por duas décadas, migrando para a área de Educação a Distância na qual é especialista pela Universidade Católica de Brasília. Também é Mestre em História pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Atua nos movimentos de negritude e é estudioso da temática e história das relações raciais e cultura afrobrasileira e africana, movimentos sociais e Direitos Humanos. Foi conselheiro estadual de Direitos Humanos e é servidor público de carreira. Escreve sobre tecnologia, história, relações raciais, atualidades, sociedade e cultura.

Fonte: Amazônia Real 13043460 1063823553682740 510334649613372171 n 1

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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