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A tradição tem o ranço venenoso

A tradição tem o ranço venenoso

A tradição tem o ranço venenoso. É pesada para se carregar e importante demais para ser abandonada. Vem envolta no egoísmo exuberante, maquiado com vaidade punitiva, delineando traços e traços de intolerância, busca saciar sua sede no poder pelo poder, mero poder, alivia-se do tédio matutando, ruminando, maquinando a ação. A tradição se envaidece com suas obras, mede status, nomes, beldades, sobrenomes, é mestre e doutora em superficialidade. A tradição vista pelo sensível olhar da escritora nos põe de frente com as fraquejas e vilezas da tradição.

 

A tradição! Ah, a tradição!

Por Nádia Aparecida Pires

A tradição tem o ranço venenoso de hábitos e hábitos inveterados. Envolta no egoísmo exuberante, maquiado com vaidade punitiva, delineando traços e traços de intolerância, segue contornando sombras de toda ordem. A tradição busca saciar sua sede no poder pelo poder, mero poder, alivia-se do tédio matutando, ruminando, maquinando a ação, deseja o poder de incrustar a possessão, a repressão, a dominação que ora marginaliza, ora escraviza, no engenho da manipulação que sufoca, desvirtua e anula. A tradição, busca disfarçar a moléstia crônica que referenda sua existência percorrendo espaços, lugares, territórios e expondo um discurso paladino da ética, da moral e da justiça. Nociva como praga, sua meta compulsiva é a massificação da alienação.

A tradição! Ah, a tradição! A tradição tem passos sorrateiros, exala violência, mediocridade e violação nos estalos dos açoites chibateiros, em meio aos segredinhos inconfessáveis, além dos atos infracionários carniceiros. A tradição! Ah, a tradição! A  tradição repudia o amor, rejeita a ternura, detesta a compaixão. A tradição aprecia as artimanhas, os disfarces velados, a conspiração abominável, cultiva a vingança, o desafeto, o descaso, investe na concorrência forjada e desleal, desdenha do que se tornou concreto, prefere a arbitrariedade convencional.

A tradição! Ah, a tradição! Enxerga tudo que se move como objeto, subestima a vida do poeta, do intelectual. A tradição se esbalda em frouxos de risos ao perceber a meninice de quem a confunde com costumes, folclore, ação cultural. A tradição se julga muito astuta, despreza a inteligência, a sabedoria dos que lhe parecem simples e natural, fala em humildade, resignação, mas tem gosto apurado pelo artificial. A tradição exibe o formato intocável, prefere a cordialidade à uma amizade leal, nunca permitiu-se amar de verdade, sua estrutura é resumida, o princípio é o capital.

A tradição! Ah, a tradição! Sua existência é limitada e irônica, seu olhar calculista, a palavra ensaiada, ignora os próprios tropeços e gafeadas, dissimulada, camufla erros, frustrações, age como robô, livre de choro e emoções. A tradição é certeira, nunca erra, acredita ser a mais sábia! Sabida demais! Encobrir suas falhas é sua maior tônica. Oculta suas fraquezas e remorsos, precisa sempre parecer fortalecida, abraça este ato como incumbência ou missão, pois seu universo vincula-se ao coibido, onde falhar, chorar, arrepender, render, ser espontânea, remete a proibição! A tradição comporta-se genuinamente com espírito provinciano. Em suas escribas há a omissão dos grotões dos burgos putrificados e da sua intimidade com a arrogância, usurpação.

A tradição conspira e não tece consideração, faz tudo sob medida, é estupradora, narcisista, intolerante, orgulhosa e consequentemente, invejosa, maldosa, frente as “amizades” e histórias de amor. A tradição sabe falar, criar situações engenhosas, premeditadas, constrangedoras, mas detesta ouvir, ver, escutar, compreender. A tradição se envaidece com suas obras, mede status, nomes, beldades, sobrenomes, é mestre e doutora em superficialidade. Enrugar, envelhecer, desprender, como assim? A tradição é especialista em manobras, ludibria a si mesma ofuscando o tempo, com isso o tempo e o vento se deixam levar. Enfim, são convictos parceiros da efemeridade, conhecem a morte e seus diversos codinomes. A tradição ignora o original, a sensatez, a transparência. Corruptível, corrupta, corrompida, posa de justa, sensata, honesta, pontual, mas causa revolta, indignação, desconfortabilidade, pois  para a tradição o abusivo é normal! A tradição devasta, controle é seu prazer, pouco se importa com o que você sente, ela quer impor o que você faz ou deixa de fazer. A tradição constitui-se de conservadorismo positivista, sua pregação fantasiosa mais cedo ou mais tarde surpreende a todos apresentando-se decrepitamente incoerente.

A tradição! Ah, a tradição! A tradição corroi, assassina, devora cérebros, corpos, fígados, corações, até mesmo o andar de forma vampiresca e tenaz, sem se dar conta da sua covardia, sem lutar pela própria anistia. Acredita ser muito sábia! Sabida demais! Sede ao deleite e vangloria-se pela autoria de suas malfeitorias e seu dom estripador. A tradição irreparável nem se dá conta do quanto é invasiva, inconsequente, pensa que engana a todos, taticamente, mas é incomparavelmente despudorada, e hipocritamente a mais leviana, soberba, adúltera, sem coração, sem amor ou paixão ou compaixão, é a mais tirana de todas as transmissões. A tradição! Ah, a tradição!

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Nadia Pires

Nádia Aparecida Pires – Vilaboense. Natural da Cidade de Goiás/Go, reside em Goiânia. Graduada em Educação Física com especialização lato sensu em Saúde Pública; Educação; Psicopedagogia. Oficineira e Autora de Livros e de Artes Visuais , Musicista. Colaboradora da Alaneg/RIDE e da Xapuri.

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Sempre foi nossa paixão contar histórias, repassar informação de qualidade e, sobretudo, construir espaços de comunicação que sejam úteis para as populações indígenas e tradicionais do Brasil.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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