“Antigamente, a gente andava com a lua e com as estrelas”
Por Ikumã Metyktire
Antigamente, meu povo não conhecia espingarda e nem faca.
A gente andava no mato, não tinha carro, casa e nem médico.
O remédio era extraído da mata.
Antigamente não tinha lanterna, a gente usava fogo.
Quando era muito antigamente, a gente andava com a lua e com as estrelas
Depois caiu a chuva, e nós fomos pegar o fogo.
Depois fomos cortar folha de palha para fazer casa.
Quando meu povo andava, levava fogo para fazer comida no mato,
milho, para socar no pilão
Depois as mulheres iam no rio pegar água com folha de bananeira,
porque antigamente não tinha paneiro, bacia e nem colher.
A gente fazia colher de pau.
Antigamente, meu povo não usava havaiana, bota e nem calça.
A pessoa que a gente chama hoje de cacique, chamava “Kremoro”,
ele era muito bom para o pessoal.
E todos nós já morávamos aqui no Xingu.
Foto de Capa: Instituto Socioambiental
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Foto: Beto Ricardo/Acervo Instituto Socioambiental
Ropni Metyktire, o grande líder conhecido como Cacique Raoni, nasceu provavelmente no início da década de 1930, em uma antiga aldeia Mebêngôkre (Kayapó) denominada Kraimopry-yaka, no nordeste do Estado de Mato Grosso. Durante o período de sua juventude, os Mẽbêngôkre viviam em aldeias seminômades, sem contato pacífico com a sociedade envolvente.
Em 1954, quando o povo Mẽbêngôkre estabeleceu contato definitivo com os brancos, Cacique Raoni tinha aproximadamente 24 anos e teve um papel fundamental no processo de pacificação de diversas aldeias.
Nesta época, conheceu os irmãos Villas Boas, com quem aprendeu a falar a língua portuguesa e a tomar consciência do mundo não-indígena. A partir de então, Raoni passou a ser o principal interlocutor entre os Mẽbêngôkre e a sociedade nacional.
Da esq. para dir.: Cláudio Villas Boas, Cacique Raoni Metyktire e Jesco Von Puttkamer Rei Leopoldo III/Acervo Instituto Socioambiental
Ao longo de sua trajetória, Cacique Raoni foi protagonista em diversas lutas em favor dos povos indígenas e da Amazônia, passando a ser reconhecido internacionalmente como liderança legítima e porta voz da preservação do meio ambiente.
Em 1978, foi tema de um documentário indicado ao Oscar e em 1987, após seu encontro com Sting, alcançou notoriedade internacional. Nas décadas 80 e 90 teve papel fundamental na demarcação dos territórios Mẽbêngôkre, um dos maiores blocos contínuos de floresta tropical do mundo e que ainda hoje constitui a maior barreira contra o desmatamento na porção leste da Amazônia, além de participar do processo de demarcação de territórios de diversos outros povos.
Teve forte atuação na Assembleia Constituinte em 1987 e 1988 junto ao movimento indígena, a qual resultou na inclusão dos direitos fundamentais dos povos indígenas na Constituição Federal de 1988. Em 1989, conseguiu mobilizar a imprensa mundial para a cobertura do “Primeiro Encontro dos Povos Indígenas do Xingu”, em Altamira (PA), contra a construção do Complexo Hidrelétrico do Xingu (que incluía a usina Kararaô, que retornaria anos depois como Usina Hidrelétrica de Belo Monte), resultando no abandono do projeto.
Na década de 90 e a partir do ano 2000, Cacique Raoni realizou inúmeras viagens pelo mundo e conquistou o apoio de importantes lideranças e personalidades internacionais, que resultaram no levantamento de fundos internacionais para a demarcação de terras indígenas brasileiras, bem como na tomada de consciência do público em geral sobre a necessidade de proteger a floresta amazônica e suas populações nativas.
Foto: Todd Southgate/Acervo Instituto Raoni
A partir de 2018, diante de um cenário político nacional dramático para os povos indígenas e para o meio ambiente, Raoni assumiu mais uma vez a linha de frente na luta pelos direitos dos povos indígenas e pela defesa da Amazônia.
Uma nova campanha foi realizada em 2019, na qual Cacique Raoni advertiu ao mundo sobre o desmatamento na Amazônia e as ameaças vindas do agronegócio, garimpeiros e madeireiros que exploram a floresta, buscando apoio para garantir a condições para a proteção territorial e o fortalecimento sociocultural de seus povos.
Em janeiro de 2020, Raoni convocou um encontro histórico de lideranças de povos da floresta, no qual reiterou a importância de sua união contra os ataques e retrocessos aos direitos e políticas indígenas e ambientais.





