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As línguas faladas no Acampamento Terra Livre 2018

As línguas faladas no Acampamento Terra Livre

Por José Ribamar Bessa Freire, no TaQuiPraTi http://www.taquiprati.com.br/

Cerca de 3.000 índios acamparam de 23 a 27 de abril, em Brasília, na 15ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Realizaram reuniões, rodas de conversas, plenárias e exposições no Memorial dos Povos Indígenas. Peregrinaram pelo Judiciário, Legislativo e Executivo e marcharam pela Esplanada dos Ministérios que tingiram de vermelho para simbolizar o sangue derramado no ininterrupto genocídio. Cantaram, dançaram, rezaram. Clamaram e reclamaram. No encerramento, projetaram a laser no Congresso Nacional, a principal reivindicação: “Demarcação Já” e “Terra Livre”.

As línguas faladas no Acampamento Terra Livre

No entanto, quem viu os noticiários da TV não tomou conhecimento da maior mobilização anual organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) com apoio de órgãos indigenistas e socioambientais. A mídia, que minimizou ou ignorou olimpicamente o fato, estava concentrada no filho de Kate e William, nascido em Londres com 3,8 kg, às 11h01 como nos informou o deslumbrado correspondente da TV Globo, Pedro Vedova, com a precisão milimétrica do minuto. A expressão de fascínio do outro William, o Bonner, no Jornal Nacional, era melosamente patética. Ele aparentava uma surpreendente intimidade com a coroa britânica.

ATL%20quem%20matou%20marielle(1)Durante toda a semana, os jornais televisivos narcotizaram o telespectador brasileiro, discutindo com inusitada euforia os prováveis nomes do recém-nascido indicados nas casas de aposta de Londres, mas não informaram sobre os índios que acamparam na capital do país e que além da demarcação exigiam punição para os assassinos de Marielle. Havia ali representantes de mais de 150 povos, falantes de dezenas de línguas. Quase todos bilíngues, usaram o português como língua interétnica, mas em alguns casos cada grupo dialogava internamente em sua própria língua, algumas com pouco falantes, em perigo de extinção. Outras já decepadas, vítimas do glotocídio.

No batel de Cabral

A cobertura do ATL, que não foi feita, podia ser um gancho para a mídia defender a rica diversidade linguística do país, constituída não apenas pelas diferentes línguas ameríndias presentes nos rituais, nas danças, nas rezas, nos cantos e nas cerimônias celebrados quase sempre à noite, mas também pela variedade indígena do português de contato usado nas plenárias, uma das quais – o português xinguano falado por diferentes grupos étnico-linguísticos do Alto Xingu – teve seu perfil sociolinguístico traçado pela pesquisadora Charlotte Emmerich.

Nada disso foi mostrado. A língua parece Deus, está em todo lugar, mas ninguém vê, nem mesmo aqueles que têm fé. Os telejornais, focados no neto do príncipe Charles, ignoram o plurilinguismo do Brasil observado pelas caravelas que aqui aportaram naquele longínquo abril de 1500, segundo Pero Vaz de Caminha em sua célebre carta.

O escrivão da frota relata que o almirante Pedro Alvares Cabral, ao avistar gente na praia, enviou na frente uma pequena embarcação com batedores para estabelecerem contatos iniciais. A escolha de quem devia ir no batel se baseou em critérios de competência linguística: Nicolau Coelho, que havia vivido na Índia e falava o hindi; Gaspar da Gama, que dominava o árabe e outros idiomas; um marujo da Guiné que conhecia bem algumas línguas africanas e um escravo da Angola, competente em quimbundo.

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Os portugueses poliglotas saltam na praia, falam as línguas que sabem, os índios respondem nas suas e ninguém entende bulhufas. Através de gestos, convidam alguns homens e mulheres a irem com eles até a nau capitânia. Lá, os índios reparam um crucifixo de ouro no peito do Cabral e alguns adornos de prata e apontam para a terra firme. Foi o suficiente para todos acharem que eles estavam indicando a existência de muito metal precioso naquela região. Mas Caminha, cauteloso, adverte que eles podiam estar apenas manifestando desejo de levar com eles aqueles adornos.

Sem rei nem lei

A falta de comunicação prevaleceu no território que é hoje o Brasil, onde eram faladas no séc. XVI cerca de 1.300 línguas, mais de 1.100 delas silenciadas em quinhentos anos, vítimas do preconceito do colonizador, como pode ser observado no discurso de Pero Magalhães Gandavo, que confunde língua com escrita, ao afirmar que “a língua tupinambá não tem as letras f, l r, cousas dignas de espanto porque assí não tem fé, nem lei, nem rei e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente”.  

Outra, no entanto, foi a impressão de Frei Vicente do Salvador em sua História do Brasil: 1500-1627. Para ele, as línguas indígenas eram “mui compendiosas”, possuidoras de “alguns vocábulos mais abundantes do que o nosso português”, porque “nós a todos os irmãos chamamos com um único nome e ao tio também”, enquanto eles, ao irmão mais velho chamam de uma maneira, aos outros de outra. O tio paterno tem um nome e o tio materno outro e “alguns vocábulos só usam as fêmeas e outros só os machos”.

Tal consideração coincide com a fala da guarani Sandra Benites, mestre em antropologia, que participou na UERJ da mesa de encerramento do curso “Educação Descolonizadora”. Existem duas palavras em guarani para designar irmão: uma para o irmão maior e outra para o menor. Mas o homem designa suas irmãs mulheres com uma terceira palavra – (t)xereindy –  que significa algo assim como “luz de minha vida”:

– Sem irmã, o homem não existe, vive perdido na escuridão – disse Sandra, acrescentando que o termo usado pela irmã para chamar seu irmão maior é xe kywy, que numa tradução livre e poética significa “aquele que está sempre ao meu lado”. De acordo com o modelo defendido por Gandavo, os falantes de português não seriam, então, capazes de estabelecer relações fraternas como os guarani.

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Na Terra Livre

De Cabral ao Jornal Nacional, durante mais de cinco séculos, o Brasil continua incapaz de valorizar sua diversidade linguística. Dessa forma, a mídia não nos permitiu ouvir as vozes de dezenas de mulheres que se revezaram ao microfone na plenária realizada na tenda principal do Acampamento Terra Livre, nem tampouco os discursos dos caciques e dos jovens indígenas que tiveram um espaço próprio para se expressar. Preferiu reproduzir os berros de um fajuto arauto inglês anunciando o nascimento em Londres do bisneto da rainha.

O documento final aprovado pelos índios no ATL lança um clamor contra a invasão das terras que milenarmente sempre souberam proteger e cuidar e contra o genocídio que continua. Condena “a falência da política indigenista” no atual cenário que é “o mais agressivo contra os direitos indígenas desde a redemocratização do país”. Denuncia a paralisação das demarcações das terras indígenas” assim como “a anulação dos nossos direitos territoriais”. Acusa ainda “o governo ilegítimo de Michel Temer” por haver negociado os direitos indígenas com a bancada ruralista incentivando a violência.

Entre as reivindicações mais urgentes, o documento lista a demarcação e proteção de todas as terras indígenas, a imediata retirada dos invasores das terras já demarcadas, “o arquivamento de todas as iniciativas legislativas que atentam contra os nossos povos e territórios”, o atendimento básico à saúde, o reconhecimento da “natureza pluriétnica do Estado Brasileiro consagrado pela Constituição Federal de 1988” e o cumprimento “dos tratados internacionais assinado pelo Brasil, de modo especial a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Embora o documento não traga nenhuma referência explícita ao direito de uso de suas próprias línguas, a questão fica contemplada na reivindicação sobre o cumprimento “da política de educação escolar indígena diferenciada e com qualidade, tal como foi formulada nas propostas da II Conferência Nacional de Educação Indígena que contemplam os territórios etnoeducacionais”.

A cobertura da mídia tem mais a ver com o complexo de vira-lata do que com critérios do que é ou deixa de ser notícia.

educP.S. – No dia da abertura do ATL, em Brasília, e do nascimento de Louis Arthur Charles, em Londres, se encerrava no Rio às 21h27 o curso “Por uma Educação Descolonizadora” coordenado pela doutora Danielle Bastos Lopes, professora do CAp-UERJ, com mesa formada por Sandra Benites, Renato Nogueira e este locutor que vos fala, cuja exposição foi aqui resumida.

Fotos: Mobilização Nacional Indígena, Lucas Sobral/Terra Sense/MNI, Tuane Fernandes/MNI e Christian Braga/MNI

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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