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As mãos de minha mãe tecendo(…) É o que basta: uma oferenda à porta aberta.

As mãos de minha mãe tecendo(…) É o que basta: uma oferenda à porta aberta.

Rejane Araújo

As mãos de minha mãe tecendoArquivo Pessoal

debruçadas sobre o ponto cruz.

As linhas coloridas formando diagramas, evocando ancestrais.

As antepassadas, sem cerimônias, deitam-se na cama antiga que foi da minha avó.

A colcha de retalhos cinge os corpos etéreos e começa o conversê.

Agora mesmo – o segredo mais bem guardado – é repartido como pão recém-tirado do forno.

O cheiro espalha-se na memória. Deleite!

Apuro os meus ouvidos e olho pela fresta de mansinho.

Vejo mulheres vistosas, faces queimadas de sol.

Portam sombrinhas e vestidos de chita com florzinhas miúdas.

As alpercatas protegem os pés da seiva agreste que rebenta do solo esturricado.

Meus olhos contemplam a beleza da raiz, força que emana.

A terra se encharca com as risadas escancaradas das avós.

Depois, tudo é silêncio.

Minha mãe estende o paninho bordado e coloca-o sobre o aparador.

É o que basta: uma oferenda à porta aberta.

O perfume de alfazema enche o ambiente e, com ele, a promessa de guia nas agruras da vida!


 

Quem é Rejane Araujo? Professora do Governo do Distrito Federal que assim se define:
Hoje fiz um parto às avessas pari uma mulher muito velha que se aninhou dentro de mim…
Estudou na instituição de ensino Faculdade de Artes Dulcina de Moraes
Estudou na instituição de ensino UnB
Frequentou Centrão
Mora em Brasília Fonte: Facebook


 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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