As mulheres e a violência (real e simbólica) dos homens

As mulheres e a violência (real e simbólica) dos homens

Por Fabianna Freire Pepeu

Uma hora dessas aí tive um pesadelo. Eu caminhava sozinha, já noite, como se estivesse indo até um lugar, possivelmente comercial, já conhecido, que ficava no fim de uma rua larga, mas sem saída. Faltando poucos metros pra chegar ao local, eu percebi que o imóvel não tinha mais nenhuma placa, havia perdido o muro, estava pintado de branco de modo bem precário e tinha uma aparência meio suja. Uns poucos passos mais adiante e eu percebo uns dois ou três rapazes às minhas costas. À frente, na casa abandonada, percebo com mais clareza, há outros homens. Pareciam ter ocupado o imóvel pra usar como abrigo. Todos os rapazes têm a aparência das pessoas que perderam a alma para o crack. Eu constato, com imenso horror, que não existe a menor possibilidade de escapar da iminente tragédia. Digo, haveria uma saída, mas apenas se eu pudesse voar!

[ Em meus sonhos, já voei muitas vezes e longamente.]
É disso que me lembro nesse momento do pesadelo, mas também lembro que, em tais sonhos, os meus voos não ocorrem, assim, de um modo imediato, como se eu desse partida num foguete.
Também constato no pesadelo que os voos ocorrem nos sonhos, mas que eu não poderia voar mesmo porque o meu pesadelo é (vida) real, no qual estou em uma situação-limite de pane e medo.
Acordo assustada e ligeiramente suada.
Desde então, tenho tido um medo bem evidente de andar sozinha e estou meio sobressaltada. Agorinha, por exemplo, fiquei paralisada, conversando baixinho comigo mesma, avaliando se teria coragem de ir a pé resolver duas coisinhas bem perto, pois já faz tempo que escureceu e as ruas aqui são desertas de gente e muito mal iluminadas. Possivelmente, acabarei pegando o carro e queimarei gasolina e continuarei acumulando gordurinhas.
Todo mundo vai entender esse texto porque, afinal, ele não tem nenhum mistério (tem?). Mas as mulheres, que sabem o que significa mudar de calçada numa noite vazia, vão me entender muito mais.
Fonte: Facebook

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora