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Avenida Sanguessuga

A Avenida Sanguessuga

Avenida Sanguessuga retrata um lugar imaginário, que bem poderia ser verdadeiro, haja vista sua semelhança com alguns espaços esparramados neste nosso Brasil. O instigativo texto traz várias intertextualidades: “é bem conhecida por sua via de mão única e sempre muita úmida para um possível escorregão (…)”. Poderá você, leitor, andar, rotineiramente, tranquilamente e em paz de consciência, por essa avenida?

Por Akila Black

A Avenida Sanguessuga não tem data de nascimento definida, a certidão foi perdida na conveniente burocracia local, apenas se sabe que ela possui estrutura colonial, com realces da realeza e alguns herdeiros de conduta duvidosa.

O asfalto anda esburacado com ventosas camufladas por todo o percurso.
Elas recolhem os impostos abstratos, próprios e compostos gerados para a contenção da ânsia subjetiva da libertação e esta, por sua vez, vem sendo há anos procurada, com você recompensa anualmente ajustada, por seus crimes de transgressão. “(…) não haverá em suas vidas, paz ou liberdade para expressar suas opiniões tão odiosas, suas vontades coletivas sem sentidos, suas manias indecentes de achar que todos podem ter acesso a tudo.

A Avenida Sanguessuga é bem conhecida por sua via de mão única e sempre muita úmida para um possível escorregão: quem escorrega pelas ventosas é sugado, sendo obrigado a atualizar os impostos em atrasos, a justificar tal infração que, se for causada por desatenção, pode ser paga com trabalho voluntário no engrossamento de manifestações coloridas, com duas cores apenas, ou outras formas conduzidas de fazer parte do grupo que controla o tráfego na Avenida.

Por outro lado, se cair na ventosa for proposital, buscando acessar outra via, as penas são desconfortáveis, tais como extradição do mundo cibernético, isolamento dos grupos de amantes incondicionais da nação, mudança de nome – todos, independentes de seus nomes ou sobrenomes – serão chamados de morangos assassinos e, se não houver arrependimento, não haverá em suas vidas, paz ou liberdade para expressar suas opiniões tão odiosas, suas vontades coletivas sem sentidos, suas manias indecentes de achar que todos podem ter acesso a tudo, ou seja, qualquer pensamento que desabone a nobreza tão pincelada, com cal, no semblante da Avenida…

Pobres transgressores, mesmo sendo maioria, descobriram, em debates às escuras, que havia um chip instalado em alguns simpatizantes, chip elaborado com muitos detalhes e malícias, identificando toda ação e pensamento transgressor ou que se
assemelhasse aos níveis distorcidos de leituras sociais dos donos da Avenida.

Tais simpatizantes, delatores fieis, resultado das contra indicações do chip, possibilitaram, também às escuras, um golpe virtual, tratando informações preciosas com o veneno que antes podia ser chamado de saliva: distorcendo os horrores, provocando erosões no solo da história, construindo abismos nos processos de humanização enfim, construindo uma realidade fictícia e atuando como se delas fossem protagonistas.

Ainda não encontraram o criador do chip, que vendeu sua patente e espalhou na Avenida seu produto tão popular, responsável por deteriorar neurônios rebeldes diagnosticados como euforia democrática crônica, um chip que não permite a transgressão virar epidemia na Avenida, onde a meta é fazer o trânsito andar.
Por ela, diariamente, transitam seres conduzidos por gps’s autoritários, enquanto nas residências são transmitidos programas televisivos desbotados, notícias estupradas e falácias da verdade absoluta.

Aquele que não se deixa conduzir pelo tráfego ou pela mídia tão submissamente aliada ao controlador do tráfego, corre um grande risco de ser julgado subversivo, comunista, leitor assíduo de realidades absurdas e condenado a exclusão de qualquer episódio histórico nacional, tendo reservado um cômodo sem direito a ouvir MPB, em Cuba ou até mesmo, uma passagem sem volta, sem paradeiro, sem rastros.

A rotina dos pedestres, motoristas e outros seres que se utilizam da Avenida é simples de absorver: ao nascer do dia as pálpebras mecanizadas abrem e fecham para lubrificar o visor embaçado, o banho rápido, com águas relaxantes regadas a sais que entorpecem os sentidos – afinal, para quê tê-los?
A realidade já é cruel demais! – o vestuário “Rotulado” que é a grife preferida, se constitui na grande marca, cabendo ou não em seus destinos, na verdade, os corpos guiados por chip’s desenvolvem a característica da flexibilidade, tornam-se anatômicos; e um café irônico, com grãos pré-selecionados, colhidos num campo próximo à residência do controlador do tráfego, é preparado para despertar o chip localizador distribuído, gratuitamente, nos centros de controle de epidemia, garantindo nenhum obstáculo ao cumprimento da rotina.

O dia passa e nos locais em que os seres se aprisionam por livre arbítrio é reforçada a ideia de que existe uma prestação de serviço e de que um serviço é executado e de que quem não foi atendido hoje, pode sempre pegar a senha para o dia de amanhã “sempre” e “amanhã”.
Nestes locais, o debate é secundário, sendo exigido apenas o respeito ao regimento interno.

A avenida infla na hora do almoço, num trânsito lento, regulado para alimentar o estresse de quem quer a todo custo cair nas ventosas.
Quem cai nas ventosas não é estressado, lembra?
O estressado é apenas mais um elemento transgressor que deve ser punido por seus atos, por suas escolhas que não são de via única, por seus pensamentos que não correspondem às orientações do chip, por sua necessidade de sair da Avenida Sanguessuga que não tem ruas opcionais, mas aquelas que levam às residências, ao
trabalho ou à praças de reuniões com pautas previamente estudadas, encaminhamentos soturnamente planejados e considerações cuidadosamente registradas com linhas em branco para registrar a assinatura dos cientes presentes e dos presentes cientes da ata.

Nela não há atalho para o teatro, para o sarau, para a música, arte e vozes em movimentos crescente na periferia, ou para salões que propõem reuniões para se lembrar dos ancestrais humanos que não quiseram participar da construção da avenida e dos que, em seguida, tentaram impedir a produção e instalação do chip.

A avenida tem um destino, mesmo parecendo inacreditável, mas tem sim. Aos fins de semana, aqueles que passaram por ela, podem se divertir com o que vão encontrar em seu fim: há um parque de diversões com entretenimento programado, música ambiente com playlist minuciosamente organizada, comidas especialmente estruturadas em cardápios pseudo saudáveis, enfim, nada com o que se preocupar, pois sabe-se que o lazer, independentemente de seu planejamento, é um direito de todos.

Neste ambiente, o chip realiza a sua melhor função: a de manter o indivíduo calmo e alheio aos fatos ocorridos na semana, apenas descansando e convivendo com seus iguais num caos harmonioso, num diálogo sem sentido, numa convivência pacífica, quase
uníssono o discurso: “ele” sabe o que faz, é melhor do que todos os outros que por aqui passaram, tenhamos fé em Deus, pois agora tudo irá mudar, esqueçamos o passado – infere-se excluir ancestralidades, marcas, as memórias e as memórias das memórias

E assim continua a vida simples, feliz e compreensiva na avenida: alguns feminicídios justificados por mulheres que não controlam seus ímpetos; por agressões físicas e verbais aos humanos que não seguem a ordem ideológica da avenida, insistindo em ter um gene diferenciado, uma cor diferenciada, um desejo diferenciado; por escolas sucateadas e enriquecidas do novo modelo de educação – é importante considerar que o modelo é baseado na ordem, no padrão e na linearidade, o que é perfeito ao controlador
do tráfego, que não precisa adaptar o chip às singularidades dos sujeitos.

Dias e dias se passam na Avenida Sanguessuga e, absurdamente, os olhos dos controlados pelos chip’s sofrem de uma catarata social crônica, os pensamentos divagam na idealização de um futuro absurdo, regado de histórias reinventadas, manipuladas e mofadas, o cérebro cai numa doença cíclica, e, a cada ciclo, fica mais endurecida, fechando, lentamente, brechas que possam curar os danos ou conformismos que nascem desse controle, os princípios que fortalecem o convívio para a diversidade, são tragados para dentro do chip e, aos poucos, deletados permanentemente, para que nada abale a harmonia tão caótica da avenida.

Há ainda mais relatos sobre esta avenida, que vem celebrando seu aniversário de existência e governança mas nesse momento, é necessário procurar outro lugar para relatar, pois este canal de comunicação pode estar no raio de alcance do controlador do tráfego da avenida.

Apenas cuidado! Quem está controlado pelo chip foi tomado por uma sede incrível de manipular diálogos, agredir quem não ouve e, até mesmo, por “amor à pátria” ser tomado de uma cólera fatal, podendo assaltar a alma, a vida e, ainda ter, por parte do controlador da Avenida, total respaldo no curso, percurso, discurso desse assassinato por um bem maior, afinal, todo mundo morre um dia, lamentam muito, mas a vida é assim.
Por hora, fiquemos por aqui, resistentes, alertas, buscando ventosas e fugindo do chip…

 

Selma

Akila Black é o pseudônimo da escritora Selma de Sousa. Educadora há 23 anos em Planaltina DF. Formada em Letras. Mãe. Escreve sobre tudo o que toca a alma e o coração. Akila Black é colaboradora da Xapuri/Alaneg.

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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