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Bacurau: Um filme com a cara do Brasil

Bacurau: Um filme com a cara do Brasil

Por Aydano André Motta 

Em cartaz no Brasil após viagem de aclamação e prêmios no exterior, “Bacurau” se passa num futuro distópico, mas desfila incômodas semelhanças com a vida real do Brasil – no presente. Aqui, uma lista – COM SPOILERS – da mistura perturbadora.

  1. A falta de acesso a água potável e saneamento.O caminhão-pipa serpenteando por estradas em escombros é um personagem da trama. Ao ser perfurado por tiros, os moradores correm para tentar salvar um pouco da água que escorre pela terra. Na vida real, metade dos brasileiros não tem acesso a esses serviços.
  2. O isolamento internacional.Bacurau some do mapa, referência precisa do Brasil que briga com os vizinhos da América do Sul e parceiros estratégicos mundo afora, como França e China.
  3. O povo desvalorizado e subjugado.Os visitantes vêm participar de uma competição macabra: o extermínio de pessoas esquecidas, que vivem no “fim do mundo”, onde só têm valor como mercadoria – a população, aliás, foi vendida aos estrangeiros para servir de alvo.
  4. A elite patética.Dois habitantes do Sul, “a região rica”, contratados pela trupe gringa, se enxergam brancos como os visitantes. Mas descobrem, do jeito mais sangrento, que são, isso sim, latinos, compatriotas dos pobres nordestinos. Como os migrantes que sonham ser “nativos” em Miami ou Portugal, mas continuam brasileiros.
  5. A violência tatuada na nossa sociedade.Os oprimidos têm, como grande orgulho de sua cidade, o museu onde se destacam fotos de cangaceiros portando armas. E eles reagem à brutalidade com ainda mais força, utilizando armas antigas e explosivas. Como os opositores, saboreiam a própria violência. Além disso, caixões são transportados o tempo inteiro na cidade. Faz sentido, no país que, em 2018, matou 67 mil pessoas.
  6. A sedução pelo extermínio.O filme se passa “daqui a alguns anos”. Num dado momento, a TV transmite evento ao vivo, a tarja informa: “Execuções públicas no Vale do Anhangabaú”. Combina com o discurso vitorioso de extermínio do povo pobre e preto.
  7. A milícia.Para reagir aos invasores, os habitantes de Bacurau pedem socorro ao ex-matador que voltou à cidade. Ele se une a outros criminosos, que vivem nas cercanias. Exatamente como a milícia age nas grandes cidades, vendendo segurança num primeiro momento, para depois controlar a vida toda nas comunidades distantes.
  8. As drogas.“Nós estamos sob efeito de forte psicotrópico, e você vai morrer”, avisa morador de Bacurau a um dos visitantes. Todos os habitantes ingerem um comprimido, antes da batalha. Um território onde parece se estar delirando, fora do juízo, como o Brasil de hoje.
  9. A tragédia dos políticos.Diante do povoado deserto, o prefeito em campanha pela reeleição traz comidas e remédios vencidos. Quando vai embora, leva uma jovem prostituta. Qualquer semelhança com políticos da vida real não será mera coincidência.
  10. O abandono das crianças.“Ele parecia ter 16 anos”, despreza um dos estrangeiros, após balear menino bem mais jovem. Encaixa na discussão sobre a redução da maioridade penal, pautada pela intolerância.
  11. Sobre enxugar gelo.Domingas, a médica interpretada (magistralmente, mais uma vez) por Sônia Braga vive sob forte pressão, que só consegue aliviar com a muleta da bebida alcoólica.
  12. A falta de individualidade.As identidades dos moradores são apagadas e vigora o conceito de tribo, onde todos exercem o mesmo papel. Da jovem que chegou de volta à sua terra natal ao idoso com postura de sábio, a população aperta unida o gatilho contra os visitantes.
  13. O monstro adormecido.Líder dos estrangeiros exterminadores, Michael (Udo Kier) não é assassinado, mas preso num buraco, como se dali pudesse emergir um dia.

Bônus 1: Num enterro coletivo, são citadas vítimas como “Mariza Letícia” e “Marielle”. Nem precisa explicar, né?

Bônus 2: Repare na placa da foto lá do alto, a distância que falta até Bacurau. De novo, nem precisa explicar, né?

Aydano André Mota – Jornalista/Projeto Colabora.

E-mail: aydanoandre@gmail.com.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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