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Baden Powel em Brasília e no Feitiço Mineiro

Baden Powel em Brasília e no Feitiço Mineiro

Por Robson Silva

Lá pelo início dos anos 2000, recorrendo à memória, lembrei-me que o amigo Caio Tibúrcio comentou algo sobre a possibilidade de Baden Powel tocar em Brasília.
Na época eu era programador cultural do Restaurante Feitiço Mineiro, e fiquei empolgado com a ideia de fomentar este evento. Comecei a trilhar os caminhos entrando em contato com os produtores artísticos que conhecia no Rio de Janeiro.
Conversei com o Alexandre Produção, na época, muito influente das agendas Cariocas.
Nesse meio tempo, tomando umas com o Jorjão, Jorge Ferreira, dono do Feitiço Mineiro, comentei sobre esta maravilhosa ideia, de que estava tentando trazer o Baden Powel.
Vi que seus olhos brilharam, sua emoção transbordou na mesa! Ficou muito empolgado.
Porém, como era mineiro de Cruzilha, Sul de Minas, me olhou e apostou de brincadeira.
Passados alguns dias, liguei novamente para o Alexandre para lembrá-lo e fustiguei o Caio se haviam conseguido alguma coisa sobre o Baden???
Num belo entardecer de Brasília, daqueles que a poesia naturalmente habita o coração, e, indo buscar meu filho Frederico na escola, meu bolachão (celular analógico) toca! Vejo o 021 do Rio. Penso logo ser alguma atração dos contatos rotineiros que fazia.
Rapidamente parei o carro num local seguro e atendi o telefone.
Meio atrapalhado escuto um “alô, alô” bem suave de uma voz quase sumida falar “é o Robson”. Respondi, sim. “É o Baden, Baden Powel aqui do Rio”!!!
Não lembro se foi o Alexandre ou o Tibúrcio quem passou meu número para ele, mas meu coração quase saiu pela boca.
O Baden continuou; “soube que você quer que eu faça um show aí em Brasília?”
Já estava mesmo estremecido da cabeça aos pés, gaguejei!  “oooiiii, Badeeen, ééé um prazer imenso falar com você mestre”.
E de pronto já disse:  “claro, queremos ver à possibilidade de você vir à Brasília”.
Quando você pode vir? “Estou à sua disposição”…
Tentei explicar que o Feitiço era um espaço pequeno, só cabem umas cem pessoas, no máximo.
Ao mesmo tempo pensava comigo: “caramba agora estou enrolado, fui mexer em vespeiro, não vai querer, ainda mais para quem já tocou nos luxuosos palcos do mundo???”
Ledo engano. Com a mesma vozinha disse; “não filho, não importa, eu quero é tocar, vai ser legal!!!”
Meio engasgado disse: “mas o couvert que conseguiríamos arrecadar não pagaria sua genialidade?”
Ele voltou a repetir que queria era tocar, complementando que “essas coisas a gente acerta, vai dar tudo certo”.
Então falei que iria ver o que conseguiria e ligaria para ele no outro dia.
Conversamos ainda um pouco mais. Eu expliquei sobre a mídia que faríamos. Sobre a estrutura de som. Deixou adiantado que viria com a sua companheira, o que seria melhor para ele.
Bom. No outro dia, expliquei tudo ao Jorge Ferreira, que me autorizou e disse que não mediríamos esforços para ter Baden no palco do Feitiço.
Empolguei mais ainda. E assim, a grande atração foi recebida em Brasília como uma super estrela da música brasileira, que é.
E carinhosamente foi recebido pelo Jorge e a Denise (esposa e sócia do Jorge), com direito a cesta com produtos naturais e dietéticos oferecidos pelo casal Feitiço Mineiro.
Com a Casa lotadíssima, como previsto, eu e Baden esperamos o horário do show sentados no camarim, que era a Pizzaria Gordeixo’s, por ser bem próximo da entrada de emergência do Feitiço, o que dá para as atrações não precisar passar no meio do público e poder se posicionar no palco sem alvoroços.
Eu, novamente com os olhos marejados, do balcão do bar do Feitiço, orgulhoso, assisti o primeiro e maravilhoso show de Baden Powel da minha vida e no Feitiço Mineiro…
Naquela temporada Baden se apresentou no sábado e fez sessão extra no domingo.
O que vale lembrar, confortavelmente sentado no banco de piano (único pedido) da Christiane, minha companheira.
Vale registrar que não podíamos deixar a emoção nos tomar – e também beber todas, ao mesmo tempo que assistíamos Baden dedilhar e cantar suavemente com aquela voz miúda, ficávamos atentos com a saúde dele e suas condições físicas, pois Baden era diabético e nas suas crises inesperadas precisava de medicação injetável.
Por isso ele preferia a presença da sua companheira e que ao mesmo tempo era sua enfermeira.
Fizemos, em outras temporadas, mais dois outros shows no Feitiço com Baden Powel e foram o mesmo sucesso! Casa lotadíssima!!!
Na última vez que Baden Powel veio ao Feitiço Mineiro, durante sua apresentação necessitou parar o show, por um princípio de mal estar.
Dessa vez ele não estava com a sua companheira/enfermeira, porém, estava com o seu produtor.
Quando percebemos que ele parou de tocar e, de mansinho, nos chamou ao palco, percebemos sua crise de abstinência à medicação e disse que havia deixado no hotel.
Foi uma correria do produtor à farmácia, enquanto eu o retirei do palco e o levei ao camarim no Gordeixo’s, aguardando a medicação.
Minutos depois, já mais corado, nos olhou e disse:” vamos voltar para o palco temos um show para terminar…”
Meses depois, Baden me ligou e disse que iria tocar no Clube do Choro e se eu não me incomodava?
Meus olhos marejaram, como agora, e balbuciando disse: “claro, aqui em Brasília é o seu palco maior.”
Completei afirmando que estaria na primeira mesa colada ao palco. Infelizmente o show não aconteceu…

Robson Silva é jornalista e programador cultural.

Fonte: Brasil Popular

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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