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Barão de Cocais: A angústia de uma comunidade mineira, onde outra barragem da Vale pode romper a qualquer momento

Barão de Cocais: A angústia de uma comunidade mineira, onde outra barragem da Vale pode romper a qualquer momento

A angústia dos moradores de Barão de Cocais, onde outra barragem da Vale pode romper

Da BBC News em Barão de Cocais (MG)

E apenas quatro meses depois de ele ter acontecido, outra comunidade no Estado de Minas Gerais, no Sudeste do país, corre o risco de ser varrida do mapa por uma torrente de resíduos de mineração.

Os monitores na base de operações da Defesa Civil, montada às pressas em Barão de Cocais, cidade onde nasceu a Vale e que vive cercada por um volume de rejeitos 33 vezes maior do que Brumadinho, exibem imagens em tempo real da mina atingida, a Gongo Soco, e da barragem vinculada, a Sul Superior, a cerca de 1,5 km dela.

Todos os olhos da sala estão apreensivamente fixados na mina, à medida que ela se aproxima do desastre. A mineradora Vale, dona do complexo, alertou na semana passada que a barragem poderá entrar em colapso a qualquer momento.

“O muro da mina de Gongo Soco pode se romper a qualquer instante”, diz José Ocimar, da Defesa Civil. “Isso poderia criar um impacto e uma vibração capazes de gerar o colapso da barragem abaixo.”

Comunidades sob tensão

A avaliação é preocupante para as comunidades que vivem nas proximidades, embora centenas de pessoas na área de impacto imediato já tenham sido evacuadas.

“Não podemos ter certeza absoluta do que vai acontecer, mas estamos tomando as precauções necessárias para evitar a perda de vidas humanas”, ressalta Ocimar.

A pequena cidade mineira de Barão de Cocais, com cerca de 30 mil habitantes, encontra-se no caminho do potencial deslizamento de lama. Detalhes mostrando que há algo de errado por ali estão espalhados pela tranquila praça central da cidade.

As calçadas das ruas dentro da zona de inundação foram pintadas de laranja. Algumas lojas, bancos e até mesmo os Correios estão com as portas fechadas há dias, e uma rota de evacuação foi sinalizada.

Isso é inquietante, diz Talita, uma aprendiz de 21 anos. “Todo mundo está tenso. Todo mundo está com medo. Não sabemos como reagir”, diz ela, apontando para um grupo de colegas de trabalho sentados nos bancos do parque.

“É triste ver pessoas desesperadas e com tanta incerteza sobre o que pode acontecer, sem saber quando ela vai entrar em colapso ou se vão ter uma casa para onde voltar.”

Cocais laranja

Image captiAs calçadas das ruas dentro da zona sob risco de inundação foram pintadas de laranja

Na pior das hipóteses, Barão de Cocais teria cerca de uma hora e 15 minutos para evacuar. Em uma simulação recente, a cidade foi esvaziada em aproximadamente 50 minutos.

Mas há quem tema que esse exercício não tenha sido um reflexo realista do pânico que aconteceria se o alarme os pegasse desprevenidos. Ou pior ainda, enquanto estivessem dormindo.

Tanto a mina de Córrego do Feijão, onde Brumadinho ficava a cerca de 60 km da cidade, como a Gongo Soco são de propriedade da Vale, a maior mineradora do Brasil. Ela foi procurada pela BBC News, mas não quis dar entrevista.

A empresa tem tradicionalmente sido uma fonte de empregos em Barão de Cocais, mas as pessoas estão com raiva do que veem como sua busca incessante por lucro.

“Acho que não tenho uma boa impressão da Vale”, diz o mecânico de carros Gilmar dos Santos. “Parece que a empresa coloca seus lucros acima de tudo. A vida das pessoas simplesmente não é uma prioridade.”

Santos teme que a família tenha dificuldades de fugir às pressas, em caso de necessidade. Os pais dele são idosos e especialmente vulneráveis.

Cocais lojas

Image captionAlgumas lojas e até os correios estão fechados há dias na cidade

Caminhamos até uma casa próxima para visitar a mãe dele, Cilta Maria, enquanto ela rega as orquídeas no jardim. Do alto de seus 80 anos, a mulher confessa que seria uma verdadeira dificuldade ter que abandonar às pressas a casa onde vive há 48 anos.

“Estou tentando manter a calma. Mas nós ficamos apreensivos e preocupados. Então toda noite um dos meus filhos vem dormir aqui. Se acontecer alguma coisa, eles já estarão aqui. Mas é difícil.”

Cocais Cilta

Image captionCilta Maria diz que sair de casa às pressas, em casa de necessidade, seria difícil para ela e o marido

A precaução é ainda mais importante porque seu marido, Raimundo, tem estágio avançado de Alzheimer.

Ele senta sorrindo, tranquilo, à meia distância, sem imaginar o desastre iminente que ameaça a cidade.

Cilta Maria lamenta ter que passar por uma situação assim a essa altura da vida.

“Nunca pensamos que isso aconteceria aqui em Barão. Eles nos disseram que a mina era desenvolvimento, progresso. E agora acho que estamos sofrendo as consequências.”

Uma nova angústia

Enquanto isso, para os familiares das vítimas de Brumadinho, ver a crise se desenrolar em Gongo Soco tem causado uma nova angústia. Para eles, a situação é prova de que nada foi aprendido com a morte de seus entes queridos há apenas algumas semanas.

A filha do engenheiro civil Rimarque Cangussu, Marcelle Porto, trabalhava como médica em Brumadinho e foi a primeira vítima a ser oficialmente identificada. “Foi um golpe terrível, enorme, uma perda da qual nunca vou me recuperar”, diz Cangussu, acrescentando que há um padrão de negligência visível na área.

Ele aponta, nesse sentido, desde o colapso em uma barragem de mineração da Vale em Mariana, em 2015 – o pior desastre ambiental do Brasil – passando pelo que chama de questionáveis práticas de mineração e baixos padrões de segurança em Brumadinho, até garantias dadas pela Vale e pelos governos estadual e federal de que seriam realizadas mudanças para evitar que a história se repetisse.

Nada disso, diz ele, fez a menor diferença.

“Não me surpreenderia se houvesse uma tragédia semelhante em Barão de Cocais. É uma sensação de impotência, indignação e desalento ver que as coisas não funcionam como deveriam.”

Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48394382. As fotos acompanham a matéria.
Cocais angústia

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

3 respostas

  1. Cade a lei pra obrigar a esvazia, assim fez com a barragem da represa e água da fazenda do cantor Gustavo Lima, por que dá Vale não tem lei pra obrigar fazer o certo???????

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