BETINHO VIROU SEMENTE

Betinho virou semente

“Meu Brasil/que sonha com a volta do irmão do Henfil/de tanta gente que partiu…” João Bosco – Aldir Blanc

Por Zezé Weiss

Foi em 9 de agosto de 1997 que o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, criador e líder da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, que acabou ficando conhecida como Ação da Cidadania, virou pó de estrela nos mistérios do infinito.

Com Betinho, o irmão do Henfil que, citado nos antológicos versos de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizados por Elis Regina na música “O Bêbado e a Equilibrista”, para não morrer sob tortura precisou sair do Brasil, exilado, nos tempos bicudos da ditadura militar (1964-1985), o Brasil descobriu o valoroso poder da solidariedade humana no enfrentamento da pobreza e no combate à desigualdade social.

Para o exílio, o militante da Ação Católica e um dos fundadores da Ação Popular (AP), grupo católico pró-socialismo, enquanto era estudante de sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais, partiu em 1971. O engajamento na luta pelas reformas de base do governo João Goulart nos anos 1960 o colocaram na mira do golpe militar de 1964. Enquanto exilado, morou no Chile, no Canadá e no México.

Uma intensa campanha pela anistia no final dos anos 1970 trouxe de volta ao Brasil Betinho, em 1979, e “tanta gente que partiu” nos anos seguintes.

Dois anos depois, Betinho cria o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), junto com os companheiros de exílio Carlos Afonso e Marcos Arruda. Em 1990, sob a liderança de Betinho, o Ibase organizou o encontro “Terra e Democracia”, que contou com a presença de 200 mil pessoas no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.

Diagnosticado como portador do vírus HIV, Betinho ajudou a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (Abia), em 1986.  Em 1992, fez parte do Movimento pela Ética na Política, que culminou com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. O movimento serviria de base para a mobilização da campanha contra a fome.

BETINHO VIROU SEMENTE

Em 4 de dezembro de 2012, o legado de Betinho foi reconhecido pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como parte relevante da memória mundial. O arquivo de Betinho está disponível para consulta no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio.

Ao reconhecimento internacional, soma-se a ação cidadã e solidária de milhares de pessoas voluntárias espalhadas Brasil afora, fazendo germinar as sementes deixadas por Betinho.

Entra ano, sai ano, não há lugar do Brasil onde não se saiba de um cuidado, uma atenção, uma cesta básica enviada pela Ação da Cidadania, em gigantesco movimento que move a solidariedade na rota do esperançar. Há 28 anos consecutivos, por conta das sementes que Betinho plantou, a sociedade brasileira se mobiliza por um “Natal Sem Fome”.

QUEM TEM FOME TEM PRESSA

Essa pauta do Betinho quem nos sugeriu foi o Jacy Afonso, conselheiro da Revista Xapuri. Faço, eu lhe disse, mas quero alguém que possa me explicar como funciona o trabalho voluntário da Ação da Cidadania, de preferência aqui na nossa região de Brasília. “Fácil, só falar com o Zé Ivan”, respondeu Jacy.

José Ivan Mayer de Aquino, Especialista em Políticas Públicas e Gestão no Ministério da Cidadania, lotado na Coordenação Geral de Economia Solidária, Associativismo e Cooperativismo e professor de Educação Física aposentado do GDF é, desde 1993, coordenador voluntário da Ação da Cidadania no Distrito Federal e Entorno.

Pergunto ao Zé Ivan como se envolveu e como funciona a agenda da Ação da Cidadania. Descubro um calendário estruturado:

Comecei, em 1993, por um chamado do Betinho. E desde que, em 1997, Betinho virou beija-flor, aqui na nossa região, tenho organizado a seguinte sequência de eventos e atividades solidárias: 14/07 – Liberdade, Igualdade, Fraternidade e Equidade, com ações solidárias de distribuição de alimentos e eventos de visibilidade na Esplanada dos Ministérios; 09/08 – Betinho Virou Semente; 23/09 – Betinho Virou Flor; 16/10 – Betinho Virou Fruto (desde 1993), dando início à campanha Natal Sem Fome, por ser o Dia Mundial da Alimentação; 20/11 – Betinho Virou Cidadão do Mundo.”

Neste ano de 2020, além da coordenação do calendário regular, Zé Ivan está especialmente envolvido na Campanha Ação Contra o Corona, em resposta à crise gerada pela pandemia da Covid-19.

Desde março, já ajudei a coordenar a logística da entrega de 330 toneladas de alimentos e itens de higiene e limpeza para comunidades vulneráveis do Distrito Federal e região, Goiás, Acre, Rondônia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, onde contribuímos com mil cestas básicas para a Campanha SOS Xavante,” conta.

Pergunto, também, ao Zé Ivan o que faz com que um cidadão aposentado de Brasília assuma, por toda uma vida, o compromisso de seguir, como um beija-flor, plantando as sementes de Betinho. “O que me move, a mim e às centenas de voluntários e voluntárias que, junto comigo, organizam e distribuem os alimentos doados por empresas e indivíduos, é a lição aprendida de Betinho: ‘QUEM TEM FOME TEM PRESSA’”.

Jacy tinha razão, o Zé Ivan era quem eu deveria procurar. O problema em achar a pessoa certa para a matéria justa é que, pra nós da Xapuri, o assunto tende a não se encerrar com a publicação da matéria. Dito e feito: essa semana, no meio da produção da edição 70, paramos tudo para ajudar o Zé Ivan a distribuir mil cestas básicas e mil kits de higiene para famílias do nosso nordeste goiano.

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Zezé Weiss – Jornalista

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Josué de Castro e a descoberta da fome

Como poucas vezes em nossa história, a fome grassa aos milhões em nosso país, no contexto da intrusão do coronavírus. Josué de Castro foi o mestre que inaugurou em âmbito nacional e internacional o tema-tabu da fome.

Por Ana Maria de Castro, com introdução de Leonardo Boff

Como poucas vezes em nossa história, a fome grassa aos milhões em nosso país, no contexto da intrusão do coronavírus. Josué de Castro foi o mestre que inaugurou em âmbito nacional e internacional o tema-tabu da fome.

Sua filha Ana Maria de Castro resume a trajetória e as ideias de seu pai sobre a fome, que não é natural, nem querida por Deus, mas é fruto de políticas de exclusão a que um Estado, ocupado pela classe dominante, submete grande parte da população.

Seu clássico “A Geografia da Fome” mostrou seu caráter humano e social. Não se trata da geografia física, mas da geografia humana e política, como exemplarmente o mostrou um de seus seguidores, mundialmente conhecido, Milton Santos.

Hoje a fome do Brasil é pecaminosa, injusta e cruel. Somos como país um dos maiores produtores de alimentos e de proteínas. Mas esta produção não se destina a matar a fome da nossa população.

A maior parte dela vai para a exportação, até para, como é o caso da soja, servir de alimento para os bovinos na China. Neste contexto da fome generalizada neste país, vale resgatar as reflexões críticas e inspiradoras de Josué de Castro (ele também cassado pela insensibilidde dos militares de 1964).

Elas são um anúncio de suas origens políticas, da vontade humana excludente e acumuladora de riqueza e uma denúncia destes mesmos mecanismos atualmente ainda vigentes e aprofundados.

O MST, o maior produtor de arroz orgânico do Brasil e da América Latina e um dos maiores doadores de alimentação agroecológica para as periferias famélicas de nossas cidades, recolheu e divulgou o presente texto.

Leonardo Boff

No contexto em que a fome e a miséria persistem como resultado de uma cruel concentração de renda, de poder e da propriedade, a obra e as propostas de Josué de Castro devem continuar a ser lidas e estudadas.

Josué de Castro foi uma destas figuras marcantes de cientista que teve uma profunda influência na vida nacional e grande projeção internacional nos anos que decorreram entre 1930 e 1973, data de seu falecimento em Paris. Ele dedicou o melhor de seu tempo e de seu talento para chamar a atenção para o problema da fome e da miséria que assolavam e que, infelizmente, ainda assolam o mundo.

Nascido no Recife, cidade do Nordeste brasileiro, lá, ainda nos primeiros anos de vida, teve contato com o objeto de seus trabalhos de cientista e de escritor – o problema da fome. Seus livros mais importantes sempre mantiveram o rigor científico e a verve do romancista, desejo guardado em seu íntimo. Josué de Castro sempre admirou os escritores capazes de contar dos homens e das coisas dos homens com uma linguagem universal, melhor do que os cientistas.

 Assim é que, ao escrever seu principal livro, a Geografia da Fome, dedicou-o a dois escritores, Rachel de Queiroz e José Américo de Almeida, romancistas da fome no Brasil. A obra também é dedicada à memória de Euclides da Cunha e Rodolfo Teófilo, sociólogos da fome no Brasil.

Anos antes, junto com Cecilia Meirelles, havia escrito A Festa das Letras, uma cartilha de alimentação. Tentou desenvolver seu gosto pela literatura ao editar, em 1935, a obra Documentário do Nordeste. Entre os contos então publicados, encontra-se o “Ciclo do Caranguejos”, que só mais tarde desenvolveu como uma novela sob o nome de Homens e Caranguejos.

Nestes escritos descreve a fome como fenômeno social: “o tema deste livro é a história da descoberta da fome nos meus anos de infância, nos alagados da cidade do Recife. Procuro mostrar neste livro de ficção que não foi na Sorbonne nem em qualquer outra universidade sábia que travei conhecimento com o problema da fome. Esta se revelou espontaneamente a meus olhos nos mangues do Capibaribe, nos bairros miseráveis da cidade do Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejos, pensando e sentindo como caranguejos”.

Estas imagens de infância e o exercício da medicina foram fundamentais na trajetória científica de Josué de Castro. Nos idos de 1935, ao coordenar o inquérito sobre as condições de vida da população do Recife, já era evidente que as velhas e insustentáveis teorias, falsas interpretações, deploráveis preconceitos raciais e climáticos, bem como o Malthusianismo praticado em detrimento das populações subdesenvolvidas, precisavam ser substituídos. A fome não podia continuar a ser tratada como um tabu, matéria proibida da qual ninguém se atrevia a falar, senão com circunlóquios que desfiguravam a realidade.

Ao escrever a Geografia da Fome, afirmava que a fome não era um problema natural, isto é, não dependia nem era resultado dos fatos da natureza – ao contrário, era fruto de ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que davam a seus países.

Antes deste inquérito pioneiro, cuja conclusão indicava que o grande mal dos operários da fábrica que servira de modelo para o trabalho não era doença, mas a fome, Josué já produzira expressivos trabalhos como Problemas da alimentação no BrasilAlimentação e RaçaA Alimentação à Luz da Geografia Humana e a Geografia da Fome, que recebeu, em 1946, o Prêmio José Veríssimo da Academia Brasileira de Letras.

Mesmo em pleno pós-guerra – imaginemos o Brasil com suas bibliotecas desatualizadas, sem computador, sem internet, portanto, não dispondo de todo o instrumental de que dispõem hoje os estudiosos – Josué não se omitiu: a realidade da fome era tão forte e o mal que causava era de tamanha magnitude que ele não podia deixar de se empenhar para enfrentar os preconceitos que encobriam tal calamidade. A partir daí, procurou com os meios de que dispunha estudar este, ainda hoje, fenômeno universal.

Ao escrever a Geografia da Fome, afirmava que a fome não era um problema natural, isto é, não dependia nem era resultado dos fatos da natureza – ao contrário, era fruto de ações dos homens, de suas opções, da condução econômica que davam a seus países. Incompreendida à época, esta afirmação foi ganhando força ao longo do tempo e tem sido objeto de importantes abordagens por pensadores brasileiros e estrangeiros.

Frei Betto, um dos idealizadores do Programa Fome Zero, em entrevista concedida ao jornalista pernambucano Vandek Santiago, autor do livro Josué de Castro o gênio silenciado, afirmou: “as obras de Josué tiveram o mérito de quebrar o tabu em torno do tema da fome. Provaram que ela não é uma consequência do clima do Nordeste e desmistificaram que a fome é castigo de Deus. Ele, Josué, foi o primeiro a mostrar a fome como questão política”.

No mesmo livro, João Pedro Stédile, líder nacional do MST, pontua sobre a obra de Josué : “a fome é parceira e consequência da pobreza e da falta de distribuição de renda. Não é por falta de produção de alimentos; esse tema não é tabu, é um problema de poder político. De dominação de classe”.

Mais adiante, na mesma entrevista, esclarece sobre o autor da Geografia da Fome: “ele foi um dos maiores pensadores brasileiros do século 20. Por sua formação científica ampla, de médico, biólogo e geógrafo, conseguiu nos dar uma leitura correta das causas e das raízes dos problemas brasileiros relacionados com a pobreza e fome”.

O médico pernambucano Jamesson Ferreira Lima, amigo e contemporâneo de Josué, em texto integrante de livro que coordenei sobre os últimos textos de meu pai Fome, um Tema Proibido abordou de maneira esclarecedora o pensamento de Josué, acrescentando novo viés: “a origem de seu trabalho acarretou mudança de perspectiva. Inicialmente, pensava-se que a fome era um problema natural, irremediável, ligado à seleção e competição vitais, um dos caracteres da condição humana.

Foi a cidade do Recife em que nasceu, localizada no Nordeste brasileiro, com um terço da população vivendo miseravelmente, em subemprego e/ou desemprego, atingida pela economia, a monocultura da cana de açúcar – um fenômeno artificial – e de secas periódicas, que lhe propiciou a consciência da fome e do subdesenvolvimento.”

A publicação deste importante livro assinalou o ponto de maior amadurecimento de suas reflexões sobre a fome. Enfrentando o problema sem subterfúgios, não temeu em afirmar “uma das características dos países subdesenvolvidos é que a maioria padece de fome” e procurou demonstrar que o problema é fruto de distorções econômicas. Ou seja, a fome é um fenômeno artificial criado pelo homem, ou mais precisamente por certo tipo de homem.

Manifestava ainda toda sua indignação ao declarar que: “o maior absurdo de nossa sociedade é termos deixado morrer centenas de milhões de indivíduos de fome num mundo com capacidade quase infinita de aumento de sua produção e que dispõe de recursos técnicos adequados à realização deste aumento”.

Enfatizava dramaticamente em sua obra, lembrando escritores que apreciava: “não é somente agindo sobre o corpo dos flagelados, roendo-lhes as vísceras e abrindo chagas e buracos em sua pele, que a fome aniquila a vida do sertanejo, mas também atuando sobre sua estrutura mental, sobre sua conduta social.

Nenhuma calamidade é capaz de desagregar tão profundamente e num sentido tão nocivo a personalidade humana como a fome quando alcança os limites da verdadeira inanição. Fustigados pela fome, fustigados pela imperiosa necessidade de se alimentar, os instintos primários exaltam-se e o homem como qualquer outro animal esfomeado apresenta uma conduta que pode parecer a mais desconcertante”.

Josué foi um cientista de múltiplos saberes. Médico, na origem de sua formação, como consequência de suas pesquisas logo compreendeu que necessitava estender seus conhecimentos a outros ramos científicos, assim a geografia, a sociologia, o estudo do meio ambiente, foram ganhando espaço em sua biblioteca e em sua mente. Por conta destes estudos é que entendeu, quando escreveu a Geografia da Fome, que o melhor método para analisar este fenômeno presente em nossa sociedade liberal capitalista seria o contido na geografia humana.

“Resolvemos encarar o problema de uma nova perspectiva de um plano mais distante, de uma visão de conjunto, destacando de maneira mais compreensiva as ligações, as influências e as conexões dos múltiplos fatores. O uso do método geográfico, único método que, a nosso ver, permite estudar o problema na sua realidade total, não o uso do método descritivo da antiga geografia, mas o método interpretativo que se corporificou dentro dos pensamentos fecundos de Ritter, Humboldt, Jean Brunhes, Vidal de La Blanche, Criffith Taylor e tantos outros.”

E, mais adiante, afirma “neste ensaio de natureza ecológica, tentamos, portanto, analisar os hábitos alimentares dos diferentes grupos humanos ligados a determinadas áreas geográficas, procurando, de um lado, descobrir as causas naturais e as causas sociais que determinaram o seu tipo de alimentação, com suas falhas e defeitos característicos e, de outro lado, procuramos verificar até onde esses defeitos influenciam a estrutura econômico social”.

A decisão de escolher o método geográfico para a estrutura da obra foi, sem dúvida, parte importante para seu êxito ao longo dos anos. Além da originalidade, influenciou novas pesquisas e até ajudou a formar outros importantes cientistas brasileiros, como, por exemplo, o consagrado Milton Santos, geógrafo brasileiro de projeção internacional, autor de expressivas obras científicas que, em longa entrevista concedida a Marina Amaral, entre outros intelectuais, a propósito de sua formação esclarecida, diante de uma indagação: “o que levou o senhor à geografia era mais conhecimento físico ou sociológico?”, respondeu: “Sociológico.

Desde menino, a noção de movimento me impressionava, ver as pessoas se movendo. Também um fato muito importante no Ginásio, o livro de texto era a Geografia Humana, de Josué de Castro, era uma espécie de história contada através do uso do planeta pelo homem, aquilo me impressionou”. Mais adiante, na mesma entrevista: “o livro Geografia da Fome também o influenciou?”, indaga o entrevistador. “Muito”, responde Milton.

“Esse, vamos dizer assim, aprendizado da generosidade que aparece em Josué de Castro, e essa vontade de oferecer uma interpretação não conformista, isso cala no espírito do menino, do jovem, essa vontade de buscar outra coisa. Acho que teve sobre mim uma influência extremamente grande.”

Josué de Castro teve a ousadia de sonhar com um mundo onde não houvesse fome de alimentos, de conhecimento, de liberdade, onde não se ocultasse a verdade e onde todos os problemas pudessem ser discutidos. Pagou um alto tributo pela ousadia.

Em 1964, aos 56 anos Josué de Castro, embaixador do Brasil junto aos Órgãos Das Nações Unidas, em Genebra, teve seus direitos políticos cassados. Interrompia-se, pelo arbítrio, a profícua atividade intelectual do humilde médico brasileiro que aos 21 anos iniciara sua carreira no Recife e chegara a ser representante de seu país.

Lamentavelmente, a fome continua a ser um problema mundial e também no Brasil. Entre nós, a fome e a miséria persistem como resultado de uma cruel concentração de renda, de poder e da propriedade que provoca um imenso abismo entre ricos e pobres.

É certo que, ao longo do tempo, nos anos compreendidos entre 2003 e 2015, o Brasil soube construir sólidas políticas de inclusão social que foram responsáveis por nossa saída do mapa da fome mundial. Entretanto, a não continuidade destas medidas e até o abandono de muitas delas nos fizeram retornar à infamante situação de integrante do rol de países que têm parte importante de sua população passando fome.

Não hesito em afirmar: Josué de Castro deve continuar a ser lido e suas propostas estudadas.

Anna Maria de Castro é professora titular da UFRJ (aposentada) e livre-docente em sociologia aplicada. Algumas de suas obras: Introdução ao pensamento sociológico; Nutrição e desenvolvimento – análise de uma política e Fome, um tema proibido. É pesquisadora convidada da Cátedra J. Castro/USP (Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis).

Leonardo Boff é teólogo e filósofo. Matéria publicada originalmente no site www.leonardoboff.com.br.

A DOR DA FOME

No Brasil de 2021, 116,8 milhões de pessoas sofrem com algum grau de insegurança alimentar; 43,3 milhões não têm acesso suficiente a alimentos; e 19,1 milhões, literalmente, passam fome, conforme levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Rede Penssan, no ano de 2020.

O aumento da fome no Brasil foi impactado pela pandemia, como em outros países, mas não é só efeito da Covid-19. A insegurança alimentar brasileira já vinha se agravando desde o golpe de 2016, bem antes do coronavírus.

O alastramento da miséria no Brasil é consequência do desmonte ou do fim dos programas sociais de inclusão social e da defasagem na cobertura e nos valores do programa Bolsa Família. Essa ação deliberada de descaso e omissão viola o direito social à alimentação, garantido pela Constituição de 1988.

Os dois governos pós-golpe de 2016 fizeram o dever de casa para trazer a fome de volta: desidrataram o Programa de Aquisição de Alimentos; extinguiram o Programa de Cisternas; acabaram com os estoques estratégicos de grãos; paralisaram a Reforma Agrária; descontinuaram os programas de redistribuição e garantia de renda básica, conforme pesquisa de Maurício Falavigna.

DESIGUALDADE

A dificuldade para colocar comida na mesa é maior entre as famílias chefiadas por mulheres e por pesssoas pretas ou pardas.

Existe fome em 11,1% dos domicílios chefiados por mulheres, e outros 15,9% enfrentam insegurança alimentar. Pessoas pretas ou pardas  passam fome em 10,7% dos domicílios. Nos dois cenários, a fome se agudiza entre as pessoas desalentadas, desempregadas ou com renda per capita abaixo de um salário mínimo.

O desemprego ficou em 14,1% no segundo trimestre de 2021, atingindo 14,4 milhões de pessoas. O subemprego chegou a 22%, e o trabalho informal a 49,30%, totalizando 86% da força de trabalho.

Essa massa de gente desempregada abriga 41% da nossa população abaixo da linha de pobreza, sem acesso regular à alimentação básica.  Dos 41%, apenas 12,6% são  identificadas pelo IBGE como pessoas brancas. As outras 28,4% são pessoas pretas ou pardas. 

Os dados da desigualdade, coletados pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Rede Penssan, não deixam dúvidas: é no estômago do povo preto que a fome bate mais forte.

FOME ZERO

O Programa Fome Zero, criado em 2003, no primeiro ano do mandato do presidente Lula,  é considerado até hoje pela ONU um dos programas de combate à fome mais bem-sucedidos no mundo todo.

Combinado com as políticas de valorização do salário mínimo e de distribuição de renda, como o Bolsa Família, o Fome Zero fincou as raízes da política de Estado que retirou o Brasil do Mapa da Fome em 2014.

Conforme dados do Instituto de  Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Bolsa Família, também implantado por Lula, em uma década e meia reduziu a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25%. 

Segundo o Ipea, o programa conseguiu controlar os casos mais graves de insegurança alimentar e, pela primeira vez na  história do Brasil, a fome deixou de ser uma tragédia nacional.

Os textos em itálicoforam organizados por Zezé Weiss para o podcast “Seguir Esperneando”, da Lucélia Santos, em parceria com a Revista Xapuri,www.xapuri.info/podcasts.  veiculado em 05/10/2021. 

 

 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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