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Bichos de cabelo: os "da mata" e os "de casa"

Bichos de cabelo: os “da mata” e os “de casa”

Bichos de cabelo: os “da mata” e os “de casa”

Os bichos de cabelo, que correspondem aproximadamente aos mamíferos, subdividem-se em “famílias” de animais agrupados a partir dos critérios mencionados na morfologia, nos hábitos e ambientes. 

Por Manuela Carneiro da Cunha e Mauro Almeida

Assim, dentro do grupo dos bichos de cabelo, há os grupos dos gatos, dos cachorros, dos ratos, dos porcos (todos com membros, “da mata” e “de casa”); dos macacos, dos tamanduás, das mucuras (sem equivalentes “de casa”); há tipos isolados (o cuandu) e os grandes animais – antas e veados – que, embora haja análogos “de casa”, não têm nome em comum com eles.

No interior desses amplos grupos de animais aparentados, existem categorias que apontam para tipos (macaco-de-cheiro, soim-branco, paca-concha ou paca-china); e finalmente há “qualidades”. O grupo dos macacos compreende os macacos propriamente ditos (distinguindo-se os macacos dos macacos-soins) e também animais eventualmente classificados como macacos por suas características morfológicas, de hábito e ambiente – por exemplo preguiças, quati, bule-bule (ou quincaju). 

Analogamente, o grupo dos ratos compreende os ratos legítimos (os ratos da mata e os de casa); ao raciocinar e refletir sobre as categorias de animais, o grupo dos ratos é ampliado para incluir bichos que “são ratos” por sua morfologia e hábitos: “Todos os bichos que roem são um tipo de rato: a paca, a cutia, o quatipuru… Todo bicho que rói só tem dois dentes, dois em cima e dois embaixo; eles só têm amolagem (dentes incisivos)”, diz Seu Lico seringueiro. Os morcegos são às vezes assimilados aos ratos (porque são gerados “de rato”).

Os grupos dos porcos, gatos, cachorros e ratos compreendem claramente os grupos silvestres e domésticos. Pelo contexto, sabe-se quando o seringueiro se refere aos bichos da mata ao falar “porco”, “gato” ou “rato”, é mais comum qualificar dizendo “porco de casa” ou “gato de casa” do que acrescentar “porco da mata” ou “gato da mata”.

O grupo que reúne a anta, o veado e os porcos (caititu e queixada) não têm um nome único baseado no critério de morfologia e hábito, embora os seringueiros reconheçam que são “bichos de unha”; nesse caso, o termo “caça” coincide com esse grupo morfológico.

Os bichos de cabelo caracterizam-se por terem quatro pés – ficam assim excluídos os botos – e serem animais que dão à luz e mamam.

Manuela Carneiro da Cunha – Antropóloga, em Enciclopédia da Floresta – O Alto Juruá: Práticas e Conhecimento das Populações – Organizadora. Editora Companhia das Letras, 2002.

Mauro Almeida – Antropólogo, em Enciclopédia da Floresta – O Alto Juruá: Práticas e Conhecimento das Populações Organizador. Editora Companhia das Letras, 2002.

https://xapuri.info/elizabeth-teixeira-resistente-da-luta-camponesa/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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