Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Bozo já mostrou quem é. Agora cabe a nós descobrir quem somos

Bozo já mostrou quem é. Agora cabe a nós descobrir quem somos

Por Ivan Martins

Não adianta ouvir Mozart no carro.

Não adianta ler “O mal-estar na civilização” com a gata no colo.

Não adianta receber os amigos, tomar vinho e ficar feliz na companhia deles.

Não adianta conversar com os filhos, jantar com os filhos, beijar os filhos.

Não adianta dormir com a mulher que a gente ama, dizer que a ama, ouvir que ela também nos ama.

Nem o Corinthians escalando a tabela do Brasileiro adianta.

De manhã, ao ligar o celular, você ficará sabendo que a polícia de São Paulo compareceu a uma reunião de mulheres do PSOL, exigindo saber quem havia organizado aquele encontro partidário.

Depois, saberá que Bolsonaro demitiu um cientista, o respeitado presidente do Inpe, que teve coragem de denunciar suas mentiras sobre o desmatamento na Amazônia.

Lerá, mais tarde, que a tropa de elite da polícia militar do Pará canta, diante do governador do Estado, uma música que fala em “arrancar cabeças” e praticar “pena de morte à brasileira”.

Ficará sabendo, profundamente envergonhado, que o ministro das Relações Exteriores do Brasil garantiu que o aquecimento global não existe porque ele esteve em Roma e lá fazia frio.

 

Com a passagem do tempo, não mais que 24 horas, ficará claro que não é possível habitar uma bolha de normalidade no interior de um país que é governado por malucos, cínicos e sádicos.

Enquanto a gente se esforça para manter a sanidade, evitando a toxidade das redes sociais, eles se empenham diariamente em transformar o Brasil numa ditadura religiosa que não reconhece a verdade, a ciência ou os direitos humanos.

Num único dia, Bolsonaro mente sobre todos os assuntos possíveis, da maior gravidade – desmatamento na Amazônia, fome no Brasil, assassinatos no regime militar – e, 24 horas depois, tudo segue normalmente, inclusive a demissão das pessoas que, dentro do governo, rebatem suas mentiras.

No Brasil da família Bolsonaro, só existe uma medida de realidade, a dele. O presidente-ditador-rei diz o que quer e manda punir quem o desdiz.

Qual é o nome desse tipo de regime? Tirania.

Ah, Ivan, que exagero. As leis estão funcionando. O Supremo Tribunal Federal tomou nos últimos dias várias decisões que contrariaram o presidente e nada aconteceu.

Sério?

A gente vai medir a nossa segurança como cidadãos e a qualidade da nossa democracia pela maneira como o presidente trata a Suprema Corte, a instância mais poderosa do sistema judiciário brasileiro?

Vamos esperar o filho filé mignon encostar “um jipe e um cabo” na porta do Supremo para perceber que a família está tentando encerrar na marra o período de maior liberdade, prosperidade e inclusão social da história do Brasil?

O presidente da República, quando fala, aponta uma direção para o país, e Bolsonaro está apontando uma direção muito clara, que oscila entre o terrorismo de Estado e a ditadura cultural: ele sugere que decapitar presidiários sob a tutela do Estado, como aconteceu no Pará, é perfeitamente aceitável; ele diz que vai fechar a Agência Nacional de Cinema porque ela produz filmes dos quais ele e seus apoiadores evangélicos não gostam, ele incentiva garimpeiros a invadir reservas indígenas, ele apoia madeireiros clandestinos a seguir derrubando a floresta que fornece ar aos nossos pulmões.

Toda vez que abre a boca, Bolsonaro aponta para o rompimento da lei e o esmagamento das liberdades civis, e, de forma bem clara, apoia a violação dos direitos econômicos, sociais e humanos dos brasileiros mais vulneráveis. E isso tem efeitos práticos, instantâneos, que se manifestam todos os dias. Funciona como um “liberou geral”.

O que mais é preciso para colocar a sociedade em pé, aos berros, exigindo nas ruas o fim desses abusos?

Tenho dito, faz um tempo, que parte da população brasileira vive uma espécie de sequestro mental. Milhões se abastecem de fake news distribuídas pelas redes sociais. Estão trancafiados num cativeiro ideológico que impede perceber a realidade e agir de acordo com ela. Vai ser preciso que o mundo real destoe diametralmente da parábola bolsonarista para que eles percebam que estão sendo enganados.

[smartslider3 slider=25]

 

Do lado de fora desse cercado ideológico as coisas tampouco são simples. A maior parte da imprensa profissional ainda insiste em tratar Bolsonaro com normalidade, como se ele fosse um presidente como outros, apenas com discurso e comportamento “polêmicos”. Uma atitude condescendente como essa sinaliza para a sociedade que está tudo bem, que a ordem está mantida, que vivemos numa democracia funcional.

Mas isso, factualmente, não é mais verdade.

Numa democracia a polícia não vai a reuniões políticas para intimidar e fichar participantes. Numa democracia o presidente não ameaça jornalistas com prisão. Numa democracia o filho sem qualidades do presidente não ganha de presente a embaixada dos Estados Unidos. Numa democracia o presidente não corta as verbas de Estados porque seus governadores repelem insultos racistas. Numa democracia o presidente não demite servidores porque se recusam a endossar suas mentiras. Numa democracia, pelo amor de Deus, o presidente não age como se fosse o dono do Estado, explicando suas arbitrariedades com uma única frase: “O país está sob nova direção“. A democracia tem regras.

Desde a posse de Bolsonaro – essa é a verdade – não vivemos mais em plena democracia ou mesmo num país normal. Vivemos, isto sim, um estado de exceção que vai ser normalizando, uma armadilha que se fecha sobre nós em câmera lenta, e cuja direção vai sendo dada pelos discursos cada vez mais agressivos do presidente. Quando ele fala, testa e ao mesmo tempo estabelece os novos limites do tolerável, o novo normal, e assim avança, um pouco mais a cada dia, em direção a uma ditadura familiar na qual teremos mais e mais Bolsonaros na folha de pagamento do Estado.

E nós, vamos esperar que o ar acabe ou vamos nos manifestar enquanto ainda existe oxigênio? Bolsonaro já mostrou quem é. Agora cabe a nós descobrir quem somos.

Ivan Martins é jornalista, psicanalista e autor dos livros “Alguém especial” e “Um amor depois do outro”.

Fonte: IVANMARTINS.net.

Nota: Xauara, para o povo Yanomami é uma pessoa que tem o pensamento doente. Nossa equipe de redação optou por não usar o nome do capitão da capa de nossas matérias, nem suas fotos. Optamos então por seguir nosso povo originário no uso do xauara.

[smartslider3 slider=42]

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão marcados como *

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

REVISTA

CONTATO

logo xapuri

posts relacionados