Feitos à mão, colares, cestos, pochetes, bolsas, caixas pintadas em grafismos indígenas são artesanato que por vezes sai das aldeias para mostrar um pouco do talento indígena. Mas desta vez, mostra da cultura dos povos originários teve até apresentação de Coral, com o Hino de Mato Grosso do Sul em guarani. Nas calçada do Centro Cultural José Octávio Guizzo, em Campo Grande, o Coletivo Terra Vermelha fez mais um evento para colocar os povos indígenas como protagonistas.
No rosto, Benilda Vergílio apresentou símbolos de nobreza que relembram a guerra do Paraguai. “É uma grafia nobre, de kadiwéus que não tiveram nenhuma mistura com outros povos. Eu tenho mistura, então eu coloco também grafias que representam os cativos, que na guerra do Paraguai foram capturados em batalha e obrigados a viver aquela cultura. Quanto mais pontinhos, maior a nobreza e a identificação, que para nós tem grande valor”.
O simbolo semelhante a um carro de boi pertence à família de Benilda e a etnia Kadiwéu (Foto: Paulo Francis).
Verde, vermelho e amarelo são cores da terra, muito utilizadas pelos Kadiwéu e presente no trabalho de Benilda (Foto: Paulo Francis).
As caixas em MDF pintadas com grafismos que utilizam as cores da terra, como o marrom, o azul, verde e vermelho pertencem à ela. Em tinta preta, na tampa um símbolo que chama a atenção, semelhante a um carro de boi, ela explica que é um símbolo de família colocado ali propositalmente como assinatura para ressaltar a importância dos direitos autorais dos povos indígenas.
“O foco disso é tentar mostrar para as mulheres indígenas da minha etnia que a organização é necessária para lutar pelos direitos autorais. Cada grafismo desses pertence às famílias e muitos não-indígenas se apropriam da nossa arte e da nossa cultura. Esse é o foco, levar o design junto com os direitos autorais e explicar para as pessoas e para o mundo que existem mulheres que são donas dessa arte e que não querem mais que ela seja copiada. Só queremos o que nós é de direito”, explica.
A mochila feita com fibras de aguapé é vestida em tecido e toda feita à mão (Foto: Paulo Francis)
Vaso feito por Catarina Guató (Foto: Paulo Francis).
Carteiras e bolsas de mão também fazem parte dos itens feitos por Catarina (Foto: Paulo Francis)
Artesã, Catarina Guató, representa as mulheres da comunidade da Ilha Ínsua a a 211 km de Corumbá. Usando as mãos e os pés, ela entrelaça as fibras secas de aguapé, planta típica do pantanal, para formar cestas, chapéus, bolsas, carteiras, porta-copos e o que mais vier à mente. Novidade no estande dela na feirinha foi a mochila, revestida em tecido e com acabamento da alça feito em couro, para durar mais.
Descende Terena, o artista Jorge de Barros está sempre presente nas ações do coletivo. Trabalhando com materiais da terra, aproveitando retalhos de couro e sementes como “olho de boi” no fecho de pochetes, colares, pulseiras e até tornozeleiras com grafismos indígenas em uma mistura Terena, Kadiwéu, Guarani e Guarani-Kaiowá.
“Quando pequeno tive muito incentivo para trabalhos artísticos. Eu tive poliomielite, paralisia infantil, então quando criança estudei em uma escola de reabilitação física em São Paulo, onde tive muito acesso à arte e aos trabalhos manuais”, conta Jorge, que depois de adulto passou a inserir os conhecimentos dos povos originários nos itens que produz.
Responsável pelo evento, o coletivo Terra Vermelha também organizou a exposição de trabalhos de indígenas que não puderam participar da feira. Em uma bancada com itens diversos colares, chocalhos e miniaturas de arco e flecha estavam à disposição do público junto a camisetas e produtos de doações, que terão a venda revertida para a causa.
Coral Guarani, formado por alunos do curso de línguas do consulado Paraguaio em Mato Grosso do Sul (Foto: Paulo Francis)
A paraguaia Idalina Maciel, é professora da Língua Guarani no curso oferecido pelo consulado do Paraguai, ela relata que o sucesso do projeto fez com que o Cônsul Ministro Angel Adrián Gill Lesme em parceria com o Instituto Cultural Chamamé MS, lançasse um desafio: Traduzir o Hino de Mato Grosso do Sul para o Guarani em sala de aula. Mais tarde o resultado do esforço dos alunos foi aprimorado, enquanto Idalina ficou responsável por corrigir a gramática e adaptar a letra, o Maestro Juninho Fonseca cuidou do arranjo musical.
“Foi um grande desafio das letras, principalmente manter o sentido das palavras, mas como sou professora e amo a língua, eu consegui traduzir para que eles cantassem. Foi recompensador porque vejo que nem todos que estão cantando são descendentes, não é uma língua fácil, principalmente para quem não aprendeu no berço, mesmo assim eles conseguiram cantar com maestria, por se dedicar muito”.
Mariley Ferreira Lopes é aluna do curso de Guarani desde 2015, da turma inaugural, onde conheceu a ideia do coral e participou da tradução do hino, “feita palavra por palavra, frase por frase” até a tradução oficial feita por Idalina. Com a letra em mãos, o grupo passou a se dedicar ao Coral, para dar ritmo e harmonia ao trabalho realizado durante meses.
Vestidos com camisetas brancas bordadas com as cores da bandeira do Paraguai e do Brasil, a apresentação durou cerca de 20 minutos e encheu o auditório do Centro Cultural José Octávio Guizzo com ritmos típicos da fronteira tocados no violão do Maestro Juninho Fonseca e embalados pelas vozes do grupo de 12 pessoas.
Para quem assistiu, as músicas cantadas em Guaraní foram um espetáculo original e ao mesmo tempo, capaz de remeter às raízes do Estado. Aos 78 anos, Shirley de Araújo mostrou toda a disposição de quem adora música e foi assistir ao ex-genro, que é parte do coral.
Quadros feitos por artistas locais sobre a temática indígena também estão em exposição por tempo indeterminado no Centro Cultural José Octávio Guizzo.
Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.
Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.
Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.
Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.
Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.
Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.
Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.
Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.
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