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Chico Mendes, lá atrás, em 1980: “Querem a qualquer custo acabar com nossa floresta”

Carta de Chico Mendes para João Rocha em 16/06/1980

O texto que se segue foi publicado nas redes sociais por Ângela Mendes, filha de Chico Mendes, e corresponde a uma carta enviada por Chico ao seu parceiro de lutas, João Rocha, em16 de junho de 1980, portanto oito anos antes de seu assassinato no quintal de sua casa, em Xapuri, no Acre, pelas balas assassinas do mesmo latifúndio que hoje faz arder em chamas essa mesma Amazônia pela qual Chico Mendes lutou e morreu. Estonteante a atualidade dos fatos, quase 40 anos depois. Veja a carta do Chico:

Companheiro João,

Cheguei no Acre no dia 09 do corrente fazendo boa viagem. Ao chegar aqui entrei logo em ação pois a situação está muito séria. Os seringueiros resolveram dar um basta a tantas ameaças dos grandes fazendeiros, que querem a qualquer custo acabar com nossa floresta. Neste momento os trabalhadores, organizados em seus sindicatos, resolveram defender a qualquer custo a terra que eles ocupam há dezenas de anos. Os vários conflitos estarão ocorrendo nestes dias dias em vários lugares por aqui. O movimento dos trabalhadores está avançando. Enquanto isso os fazendeiros, segundo informações, estão comprando metralhadoras, para dar combate contra os posseiros. Por outro lado, os posseiros afirmam que a morte de qualquer companheiro resultará em grande conflito. Eu neste momento estou me preparando para visitar as áreas mais perigosas. Fui aconselhado por alguns companheiros para não entrar na área, mas me sinto na obrigação de estar ao lado daqueles companheiros, que lutam por liberdade, embora lhes custe a vida, e preciso ajudá-los em alguma coisa. João, espero que o trabalho de vocês esteja indo em frente. Um forte abraço. 

Do compaheiro, Chico Mendes

Foto de capa: Lívia Mendes, bisneta do Chico Mendes, manifestação em defesa da Amazônia, Goiânia, agosto 2019, em clique de Angélica Mendes Mamede, neto do Chico.

Chico Mendes 1980

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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