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Chico Mendes: Para sempre presente

Chico Mendes: Para sempre presente 

Binho Marques

Todo mês de dezembro eu faço uma parada para um reencontro com meu amigo Chico Mendes. Nesta época do ano, mentalmente eu tomo o rumo de Xapuri e viajo no tempo. Passados esses 28 anos, continuo sentindo muita saudade dele, uma saudade imensa e doída da pessoa, do amigo, do ser humano.

Por Binho Marques

Conhecer o Chico Mendes foi um dos melhores presentes que ganhei na minha vida. Fomos apresentados logo depois do assassinato do seringueiro e líder sindicalista Wilson Pinheiro, em Brasileia, em 1980. O Chico estava começando a se tornar a principal liderança do movimento de seringueiros, a partir de Xapuri.

Eu era estudante de História e com duas colegas fui entrevistá-lo para uma pesquisa que andava fazendo sobre a ocupação de terras no Acre. Desde aquele momento, nos tornamos companheiros e amigos para sempre. Sim, porque para mim o Chico foi uma liderança, um mentor, mas sobretudo um grande e fascinante amigo.

Lembro-me do nosso primeiro contato, maravilhoso e estranho. Em vez de tentar nos influenciar com as coisas da política ou da luta dos seringueiros, o Chico falou de caçadas, contou causos, naquele processo de encantamento que ele sempre era capaz de criar e com o qual surpreendeu a mim e a todas as pessoas que tiveram o privilégio de conhecê-lo durante toda a sua vida.

Um dos causos que ele contou naquele dia foi o de uma caçada. Ele na espera. Apareceu um veado e quando o Chico mirou para acertá-lo, o veado foi crescendo, crescendo, e ficou do tamanho da árvore onde ele estava, olhando direto nos olhos dele, até ele dar o fora dali, correndo. Eu nunca tinha visto um adulto sério, liderança sindical, contando uma história daquela com total convicção de que era verdade.

Nossa convivência ficou mais forte a partir de 1983, quando entrei para o Partido Revolucionário Comunista (PRC), onde o Chico já militava. Depois da minha formatura, em 1984, fui designado pelo PRC para organizar os camaradas em Xapuri. No começo foi difícil. Eu era novo, careta, quadrado, militante dogmático. Achava que sabia muito, que podia ensinar alguém. Mas felizmente foi com o Chico, em Xapuri, que comecei a aprender muitas coisas sobre a floresta e sobre a vida.

Em 1985, o PT lançou o Chico candidato a deputado, e eu fiquei com ele direto, ajudando na campanha. Foi quando pude conhecê-lo melhor e pude entender a maneira dele se relacionar, de mobilizar as pessoas, e de ser realmente uma liderança completamente diferente das lideranças tradicionais. Uma liderança que não tinha um discurso empolgante, uma oratória forte e que, na nossa linguagem, não fazia nem fita nem firula. O Chico era complexo, mas não era complicado. Ele conseguia fazer o mais difícil: ser simples.

Naquele tempo trabalhamos muito, rimos muito e conversamos muito. Todos os dias. Ficávamos pra cima e pra baixo num jipe velho, com os pneus carecas e a bateria amarrada com uma corda. Nós gostávamos muito daquele carro velho. Lembro-me bem daquele jipe. Ele era realmente um charme. Tinha um tom verde, tão verde, que nós o chamávamos de Hulk.

Era muito legal ver o Chico dormindo no Hulk enquanto o Valdecir Nicácio pilotava na buraqueira. Morro de saudade daquela cena. No final da campanha, para honrar dívidas do PT, o Hulk foi entregue para o dono de uma gráfica. Ele nunca soube o valor que aquele carro tinha. Acho que um pedaço da minha alma foi junto. Já o Chico, eu não sei se sofreu o mesmo tanto.

O Chico era simples e humilde, completamente desapegado de bens, de riqueza, de tudo. Ele era um socialista, totalmente ligado à sua causa. O Chico acreditava em um mundo novo, em um mundo justo. Esse foi o princípio que norteou a sua vida, inteiramente dedicada à militância.

O PT, o movimento ecológico, o meio ambiente, isso foi natural, foi resultado da vivência dele como seringueiro, do conhecimento que ele tinha da natureza e da vida na floresta, uma prática de vida compartilhada com os índios e com os seringueiros.

Depois o Chico descobriu que aquilo que já estava dentro dele era uma bandeira, uma causa internacional. E ele então soube muito bem fazer uma interessante relação da causa ambiental com os princípios que praticava. Ele juntou sua vivência de seringueiro com sua opção de vida, que era a causa dos mais fracos.

Naquela época, não se falava em ecologia no Acre, a militância do PT era completamente vermelha, não tinha nada de verde. Era uma militância tradicional, defendendo a floresta sem compreender as coisas da floresta. Foi o Chico quem trouxe o verde para as nossas vidas.

Mesmo sendo um grande político, no começo o Chico teve muita dificuldade para colocar seus ideais dentro da CUT e do PT. A sua causa não era a causa operária, não era a causa dos trabalhadores organizados segundo o modelo sindical brasileiro. Lembro-me quando ele, pela primeira vez na história, conseguiu emplacar uma tese na CUT, defendendo uma Reforma Agrária específica e diferenciada para a Amazônia.

Essa foi uma grande conquista do Chico, um grande começo, o início das mudanças. Antes de qualquer um de nós, ele tinha percebido que a nossa luta precisava que as bandeiras de nossas militâncias combinassem com o nosso jeito de ser, com o nosso modo de vida.

E assim foi nascendo, gradativamente, o movimento socioambiental que ganhou o mundo e que até hoje baliza o nosso jeito de trabalhar, de viver, de seguir lutando por aquele outro mundo que o Chico, teimosamente, acreditava ser possível.

Acho que isso aconteceu porque o Chico tinha uma rara inteligência, uma capacidade superior à de todos, para escutar. Antes de entabular conversa com uma pessoa desconhecida, ele primeiro arrancava a essência daquela pessoa. Ele tinha um jeito moleque de introduzir a conversa, de puxar o novelo até saber com quem estava conversando.

Fotos momentos Chico Mendes

Porque a conversa com o Chico era sempre um diálogo. Ele nunca falava sem saber o que outra pessoa tinha interesse em ouvir e nunca perdia a oportunidade de aprender numa conversa. Por isso o Chico não era só inteligente, ele era o intelectual do movimento.
Muita gente não acredita nisso. Muitas pessoas acham que endeusamos o Chico por uma necessidade de militância, que transformamos o Chico em um herói para fortalecer a nossa luta. Nós seguimos dizendo que o Chico era diferente, que o Chico não era desse mundo.

A liderança dele vinha da capacidade que ele tinha de estar sempre ao lado das pessoas, nunca acima de ninguém, sempre junto. Por inspiração do Chico, a gente vem tentando construir no Acre uma sociedade mais inclusiva, mais cidadã, uma comunidade da florestania, feita “de todo coração”, como tudo o que o Chico costumava fazer.

Nessa caminhada, ora acertamos, ora tropeçamos. O tempo vai passando, e de um jeito ou de outro os princípios do Chico vão sendo repassados para as novas gerações, as feridas daquela morte absurda naquele dia 22 de dezembro de 1988 vão cicatrizando. Persiste, no Acre e no Brasil, a memória viva de Chico Mendes.

Mas ainda dói, e muito, aquele dia-noite do clarão, do susto do telefone, quando o Guma, advogado-amigo meu e do Chico, me ligou chorando. Antes mesmo de ouvir a voz do Guma do outro lado da linha, eu já sabia o que tinha acontecido. Eu só não sabia o que fazer. Acho que até hoje eu ainda não sei.

Fotos: Acervo Comitê Chico Mendes

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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