COP 30: O QUE FICOU DEFINIDO NO PACOTE DE BELÉM

Balanço da COP 30 – Documento final do evento foi marcado por avanços nas medidas de adaptação e lacuna sobre abandono dos combustíveis fósseis 

Por Revista Focus Brasil 

Após duas semanas de receptividade da população paraense, foi encerrada, no último sábado (22), a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Com o Brasil na permanência da presidência até a realização da próxima edição em Istambul, na Turquia, ainda há muitos desafios a partir da ambição de frear os efeitos das mudanças climáticas, porém o saldo foi considerado positivo em diferentes frentes de negociação na COP do Brasil. 

O multilateralismo saiu como vitorioso na avaliação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Se alguém imaginou que poderia enfraquecer o multilateralismo, esses eventos, tanto da COP quanto do G20, demonstram que o multilateralismo está mais do que vivo”, comentou o líder brasileiro durante cúpula na África do Sul.

O secretário da ONU para Mudanças Climáticas, Simon Stiell, pontuou os desafios diplomáticos. “Sabíamos que esta COP ocorreria em águas políticas tempestuosas. A negação, a divisão e a geopolítica desferiram duros golpes na cooperação internacional este ano, mas a COP30 mostrou que a cooperação climática está viva e forte, mantendo a humanidade na luta por um planeta habitável, com a firme determinação de manter o 1,5ºC ao seu alcance”.

Durante a última plenária, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi aplaudida de pé e ovacionada em seu discurso final em que defendeu o fim do desmatamento e novas possibilidades para que ocorra a transição energética. 

Vozes da floresta: Espaço Chico Mendes em Belém (PA) tem programação até 21 de novembro

Ministra Marina no Espaço Chico Mendes – Foto: Acervo Comitê Chico Mendes

Pacote de Belém

A síntese final, chamada de Pacote de Belém, consolidou 29 documentos por consenso dos 195 países envolvidos. Dentre os principais avanços, a frente relacionada à adaptação ganhou bastante destaque, com o recebimento de 59 indicadores de monitoramento do progresso para alcançar a Meta Global de Adaptação, estabelecida no Acordo de Paris.

Os indicadores estão relacionados à água, alimentação, saúde, ecossistemas, infraestrutura, meios de subsistência, entre outros. Um aporte de U$ 120 bilhões até 2035 foi anunciado neste quesito. O valor foi comemorado, porém houve críticas ao prazo de execução. 

Além das questões de ordem prática como o financiamento das medidas pelos países e o cumprimento de metas previamente estabelecidas, houve a inclusão inédita do termo “afrodescendentes” em quatro documentos e o reforço no protagonismo das mulheres nos debates temáticos de gênero. 

O Mapa do Caminho, proposta para a substituição progressiva do uso de combustíveis fósseis, não teve consenso e ficou de fora. Em nota, o governo brasileiro afirmou que sabia que o tema se trata de um assunto polêmico, mas que mesmo assim é considerado possível. Como a ideia foi apoiada por pelo menos 80 países, ela não foi descartada e segue como um ponto para as próximas negociações. 

Chico Mendes bandeira comite juliana pesqueira amazonia real

Comitê Chico Mendes na COP 30 – Foto: Acervo Comitê Chico Mendes

Mutirão

O primeiro bloco da síntese da conferência está organizado em um texto único, que ficou conhecido como “decisão de mutirão”, em perspectiva à união dos países para conter os avanços dos efeitos das mudanças climáticas. Além do caráter técnico, o documento tem um viés mais político porque trata de forma ampla das medidas relacionadas ao financiamento das ações, transparência e os papéis que cada país deve desempenhar a partir das metas estabelecidas. 

As chamadas NDCS, que são as Contribuições Nacionalmente Determinadas, foram apresentadas por 122 países (segundo o Acordo de Paris, a cada cinco anos as nações precisam renovar suas metas para a redução de emissões de gases poluentes). 

O Mutirão também aborda medidas comerciais unilaterais motivadas por questões climáticas, como, por exemplo, a cobrança de taxas extras para a importação de itens cuja produção emite gases de efeito estufa. 

Fundo para florestas

Com a ideia lançada pelo governo brasileiro antes da conferência, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, chamado de TFFF, foi acertado.

A ideia é promover as florestas enquanto uma fonte de desenvolvimento social e econômico, já que o dinheiro aplicado não se trata de apenas uma doação. Pelo menos 63 países endossaram o plano do fundo de investimento global e já foi mobilizado cerca de U$ 6,7 bilhões, de acordo com a organização.

Balanço da COP30: o que ficou definido no Pacote de Belém
Foto: Ricardo Stuckert

 

Deixe seu comentário

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

CONTATO

logo xapuri

REVISTA