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EDSON LUIZ: ‘BALA MATA FOME?’

Edson Luiz: ‘Bala mata fome?’

Cinquenta e seis anos de violência contra o estudante Edson Luiz, um crime horrendo da Ditadura Militar.

Por Arthur Wentz e Silva/Revista Xapuri

Sem sombra de dúvidas, a Ditadura Militar brasileira foi uma das experiências mais terríveis de nossa história. O autoritarismo, a barbárie e a truculência aniquilaram de modo significativo mentes brilhantes de nossa história. O caso de Edson Luís não deve jamais ser esquecido. Nossa história deve lembrar-se daqueles que lutaram pela tão sonhada democracia, tão frágil e retraída, mas que sobrevive com a força ancestral destes importantes camaradas.

EDSON LUÍS: UM LEVANTE PARAENSE NO RIO DE JANEIRO

Edson Luiz / Foto: reprodução

De família pobre, Edson Luiz Lima Souto nasceu em 1950, na capital paraense (Belém). Teve uma infância rodeada de dificuldades, que nunca impediram o sonho de estudar e melhorar suas condições de vida. Mudou-se para o Rio de Janeiro com o objetivo de concluir os estudos secundários. Recém-chegado à metrópole fluminense, encontrou abrigo temporário em praças públicas. Trabalhou como faxineiro em cooperativa e logo matriculou-se no Instituto Cooperativo de Ensino, onde conheceu o Restaurante Calabouço.

Jovem trabalhador, colaborava ativamente com as construções e reivindicações do movimento estudantil. No Calabouço, lutou avidamente por melhores condições de assistência e pela melhoria de instalações na escola e no próprio restaurante. Luís era, de fato, um levante paraense no Rio de Janeiro. Em muitas de suas jornadas, contribuiu fortemente na confecção de jornais e murais de resistência – estratégia fundamental não só para a resistência, mas para a documentação do regime.

No ano de 1967, o Calabouço foi demolido para a construção de um trevo rodoviário no aterro do Flamengo. Desde então, iniciou-se a reconstrução do restaurante em outro local. No entanto, ao ser reaberto, o que havia era uma mazela. A construção tinha chão de “terra batida” e os usuários estavam sendo selecionados para entrar, não permitindo, assim, a entrada dos considerados “elementos estranhos”.

RESISTÊNCIA: UM CALABOUÇO MAIS HUMANO

Em busca de melhorias sanitárias no restaurante, aceleração no término da obra, entrada igualitária e garantia de qualidade na alimentação, os estudantes mobilizaram-se e ocuparam o Calabouço em 28 de março de 1968. Neste ato de resistência, uma variedade de indivíduos do movimento estudantil, unidos por uma causa comum, convergiram para enfrentar as condições precárias e injustas que haviam se estabelecido. O engajamento coletivo visava não apenas transformar as condições do restaurante, mas também promover uma mudança significativa nos padrões de tratamento e inclusão dentro da instituição.

Manifestação contra assassinato de Edson, mostrando sua camisa ensanguentada. Foto: Arquivo Nacional

“A NOITE DOS GENERAIS”

A multidão de cerca de 300 estudantes teve uma ligeira resposta. Cerca de 25 policiais militares ocuparam o lugar, portando armas de fogo. Diferentes disparos foram dados contra os estudantes que ali manifestavam. Edson foi atingido pelos militares com um tiro no peito e a morte ocorreu imediatamente. Não apenas ele: Benedito Frazão Dutra também ficou ferido. Levado ao hospital, não resistiu.

O cenário do Rio de Janeiro mudou para uma visão de enterro. No dia seguinte, os cinemas da Cinelândia colocaram em cartaz três filmes: “A noite dos Generais”, “À queima roupa” e “Coração de luto”, como forma de protesto ao ocorrido na noite anterior e à violência estatal que ali teria sido realizada.

“OS VELHOS NO PODER, OS JOVENS NO CAIXÃO”

Foto: Reprodução

Morto, Edson Luiz não teve seu corpo levado ao IML (Instituto Médico-Legal) por própria decisão dos manifestantes, que não permitiram sua remoção. Em ato simbólico, levaram-no para a Santa Casa de Misericórdia, localizada aos arredores do restaurante. Confirmada a morte, seu corpo foi levado em uma gigante passeata até a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O corpo foi velado por toda a noite e o local foi tomado por estudantes, intelectuais, artistas e trabalhadores que testemunhavam tal brutalidade. No mesmo dia, algumas pessoas foram feridas na Marechal Floriano pela própria PM.

 

No dia seguinte, 29 de março, cerca de 50 mil pessoas acompanharam o funeral de Edson Luiz. A comoção era parte do clima carioca e a cidade refletia os horrores da Ditadura. Ele foi sepultado ao som do hino nacional, com as lágrimas da multidão e os gritos de frases que ficaram marcadas para a história da resistência e, consequentemente, do Brasil: “Bala mata fome?”, “Os velhos no poder, os jovens no caixão”, “Mataram um estudante. E se fosse seu filho?” e “PM = Pode Matar”.

O Jornal do Brasil, em 30 de março de 1968, noticiou que a morte gerou manifestação de diferentes deputados cariocas contra a ação da Polícia Militar (PM). Diferentes pronunciamentos lembraram o evento e cobraram justiça pelo legado do estudante. Tamanha crueldade resultou em diversas passeatas, comícios e manifestações de pressão popular contra o regime e desestabilizou a Ditadura, que agiu por prender e perseguir diversos envolvidos com o caso. As prisões foram relatadas segundo o jornal O Cruzeiro, em 13 de abril de 1968.

Os restos mortais de Edson Luiz Lima Souto foram sepultados no cemitério São João Batista, localizado no Rio de Janeiro (RJ).

O enterro / Foto: Domínio Público

SETES DIAS DE DOR E REVOLTA

A missa de sétimo dia de Edson Luiz foi marcada por extenso protesto, na igreja da Candelária (RJ). Em diferentes cantos do Brasil, estudantes cobravam justiça e ecoavam gritos de busca por democracia. Uma série de prisões e mortes ocorreram nos mais diferentes estados brasileiros.

O dia foi acompanhada pelos militares que, segundo Zuenir Ventura, os agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) tinham o objetivo pleno de dispersar, atemorizar e prender pessoas que chegavam na igreja. No final da cerimônia, 15 padres saíram à frente da multidão e foram guiando a multidão em cortejo que “caminhava lentamente em direção a um muro de cavalos indóceis e cavalarianos irascíveis”.

INVESTIGAÇÃO DO CASO E TESTEMUNHAS

Peritos confirmaram, em divulgação do Jornal do Brasil, que não foram dados tiros ao alto apenas e que alguns destes visavam atingir os próprios estudantes. Constatou-se que primeiro a polícia teria invadido a sala de refeições, atirando para o ar e logo após nas próprias pessoas que estiveram ali.

Em reportagem à Folha de São Paulo, o cartunista Ziraldo, que assistia ao terror da janela de seu trabalho enfatizou: “Quando os soldados voltaram, começou o tiroteio, vindo da galeria do edifício Legião Brasileira de Assistência”, mencionou ainda que: “Os estudantes fugiram em polvorosa das proximidades e, neste momento, eu vi um policial, em posição característica de tiro, saindo da galeria, e alguém caindo.”

O corpo de Edson Luiz, mais tarde, foi examinado cuidadosamente. Os médicos legistas apontaram para uma perspectiva perturbadora: a trajetória do tiro indicava que ele foi atingido de maneira brutal e premeditada. O projétil tinha vindo da esquerda para a direita, descendo de cima para baixo. Esses detalhes sombrios revelavam a intenção clara e assustadora por trás do ato violento: tirar a vida de Edson Luiz de forma deliberada.

Conforme relatado pelo jornal da UNE (União Nacional dos Estudantes), em 1968, a repressão policial era uma realidade implacável diante de qualquer manifestação estudantil, independentemente de sua causa específica. O periódico destacava que o governo estava ciente do aspecto político das manifestações estudantis, reconhecendo sua relevância na mobilização e organização dos estudantes.

Elinor Mendes Brito, em testemunho dado à CEMDP (Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos), afirmou que havia uma desigualdade entre estudantes armados de talheres, canetas e livros com a Polícia. O ex-presidente da FUEC (Fundação Unida dos Estudantes do Calabouço) mencionou que a operação ocorria com a PM “dando ordem de prisão às lideranças, espalhando o terror e o medo, quando mais de 300 estudantes jantavam (…), quando entra a tropa de choque atirando (…). Foi uma verdadeira operação de guerra”.

Em 1968, o deputado Márcio Moreira Alves, afirmou que Negrão de Lima, na época governador do RJ, mandou abrir inquérito, com solicitação de um indicado da Ordem dos Advogados para dar acompanhamento. Foi anunciado também que o General Oswaldo Niemeyer, que ocupava o cargo de Secretário de Segurança, seria afastado de suas funções. Ele teve a audácia e a coragem de afirmar, diante de um falecido e dos representantes do povo, que os disparos da tropa foram justificados porque eles estavam sendo alvejados por pedras e estavam em desvantagem de armamento. O tenente Alcindo Costa, que era o comandante do destacamento responsável pelos disparos que resultaram na morte de Edson de Lima Souto, está sob custódia, e uma investigação foi iniciada para esclarecer os acontecimentos. 

REPERCURSÃO E A COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE

Enterro do estudante Edson Luis, assassinado em protesto estudantil em março de 1968 Arquivo Nacional, Correio da Manhã / Foto: Arquivo Nacional

Em 1997, ao pleitear a justiça para as vítimas das passeatas sob a Lei nº 9.140/1995, o advogado Ricardo Antônio Dias Baptista fez uma observação contundente: os estudantes não representavam uma ameaça iminente. O Estado tinha a opção de detê-los, porém, escolheu o caminho da violência extrema. Atirar, disparar rajadas de metralhadora e usar força letal contra manifestantes desarmados, em vez de buscar meios pacíficos de resolução, foi uma escolha barbaramente desumana.

Instituída pela Lei nº 12.528/2011, a CNV (Comissão Nacional da Verdade) constituiu-se de um importante instrumento de apuração e resgate da história dos perseguidos pela Ditadura Militar no Brasil. A Comissão produziu um relatório fundamental para a consolidação da memória da democracia nacional.

Na busca por respostas que condicionassem o caso Edson Luiz, a CNV identificou dois documentos, localizados no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, que apontam o tenente Alcindo Costa como autor do disparo que abreviou a existência de Edson Luiz.

Em conclusão do caso de Edson Luiz Lima Souto, a CNV concluiu com a seguinte redação:

Diante das investigações realizadas, conclui-se que Edson Luiz Lima Souto morreu em decorrência de ação perpetrada por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar, implantada no país a partir de abril de 1964. Recomenda-se a retificação do auto de exame cadavérico e da certidão de óbito para que conste seu nome correto, “Edson Luiz Lima Souto”, assim como a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso para a identificação e responsabilização dos demais agentes envolvidos.

A história e memória de Edson ficaram marcadas na história deste país, para que nunca nos esqueçamos da importância de uma democracia sólida, que aponte para os caminhos da justiça social. Estudantes de todo o país precisam reconhecer na história do paraense a coragem que consta em nosso DNA para a transformação de vidas. A memória e o legado são partes de um povo que – forte – não se esquece da luta e da rebeldia. Sem cirandas e sem falsidades, que haja compromisso com a seriedade democrática.

Em 1983, Milton Nascimento reescreve “Coração de Estudante”, música originalmente de Wagner Tiso, que baseia-se na comovente história do estudante injustiçado pelo regime cruel e covarde que penetrou o sistema político e social deste país.

Lembrar, jamais esquecer, nunca repetir! Este deve ser o lema que guia os corações brasileiros nesta jornada para um país soberano. Que em 56 anos após essa tragédia, tenhamos a certeza de que espernear por dias melhores é fundamental para manter viva a utopia de um Brasil com a cara do povo, erguido e valorizado pelas mãos operárias e estudantis.

Edson Luiz Lima Souto, presente!

 
 
Arthur Wentz e Silva é estudante de Letras – Língua Portuguesa e Respectiva Literatura (UnB) e compõe a Redação da Revista Xapuri.
 
 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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