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Amelinha Telles: “Ustra me torturou na frente dos meus filhos”

Amelinha Telles: “Fui torturada por Ustra na frente dos meus filhos”

“Eles combinaram de nos matar. Então nós combinamos de não morrer”. A frase, da escritora Conceição Evaristo, é um dos motes da escritora e ativista Maria Amélia Telles, de 74 anos, conhecida como Amelinha. Ela é famosa na história brasileira por sua luta e também por ser parte de uma das famílias brasileiras que cruelmente sofreram com a ditadura militar…

Por Nina Lemos

Durante a ditadura, ela foi torturada, por duas semanas, na frente dos seus filhos, Edson e Janaina (eles tinham, na época, 2 e 5 anos).

Com 20 e poucos anos, ela era uma militante do PCdoB que vivia na clandestinidade (uma das alegações para sua prisão foi o fato dela ter uma gráfica clandestina) com seu marido, dois filhos e sua irmã em São Paulo quando foi presa, em 1972.

Alguns dias depois, a polícia comandada por Carlos Alberto Ustra foi até a sua casa e prendeu sua irmã Criméia (então grávida de 8 meses, ela foi barbaramente torturada) e os dois filhos de Amelinha.

A escritora passou um ano e meio presa, se comunicando com a irmã por cartas e sem ver os filhos.  Além de terríveis torturas, foi estuprada. Segundo ela disse, “na época da ditadura, o estupro era uma política de estado.”

Ela foi também a primeira brasileira a conseguir ganhar na justiça um processo contra Carlos Alberto Ustra, o ídolo do presidente Jair Bolsonaro. Ustra, na época comandante do Doi-Codi torturou Amelinha pessoalmente. Ela guarda com orgulho o fato de ter vencido o processo, onde Ustra foi declarado  torturador, em 2008.

Hoje, ela se prepara para celebrar, mesmo em tempos difíceis, os 40 anos da Anistia, na próxima quarta (28). Segundo ela, esse foi um momento fundamental na redemocratização brasileira. Um evento, organizado por ela e outros ativistas, chamado “Seminário Internacional 40 anos de Anistia e o Legado das Ditaduras na América Latina acontece entre hoje e dia 28 no Centro Universitário Maria Antónia, em São Paulo.

Amelinha trabalha até hoje na busca por desaparecidos políticos e na luta feminista, além de ser autora de livros como “Breve História do Feminismo no Brasil”.  Está totalmente ativa. E, quando conversa, ainda mostra esperança e alegria, mesmo vendo o seu torturador virar ídolo do presidente e de vários brasileiros. “É muito triste, é um vexame. Acho que parte de quem o idolatra é ignorante. A outra parte é perversa”.

40 anos de Anistia

“Essa foi uma conquista muito importante. E uma lição, mesmo vivendo em uma ditadura, conseguimos nos organizar. Foi um avanço enorme para fragilizar a ditadura. Então, foi muito importante e a gente tem que lembrar disso nesses 40 anos. E é bom lembrar que esse movimento começou com as mulheres. Muitas das pessoas exiladas voltaram ao Brasil, pessoas que estavam na clandestinidade puderam voltar a viver em sociedade”.

A importância das mulheres na luta pela Anistia

“As mulheres são menos pretensiosas. Elas vão lá e fazem. E, na época da repressão, o Estado visava muito a liderança que era evidentemente masculina. As mulheres tinham seus companheiros, filhos e pais presos. E viram que tinham que lutar pelo direito deles. Foram de maneira despretensiosa. São mulheres que começaram a procurar corpos, presos, a se reunir. Muitas mães começam a procurar seus filhos, como aconteceu na Argentina com as Mães da Praça de Maio e em São Paulo com as Mães de Maio. Elas vão atrás dos filhos. O homem, em geral, nesses casos, adoece, acaba morrendo de tristeza. A mãe não, ela vai à luta porque ela precisa”.

Ustra homenageado

“O Brasil deu as costas para o passado. O passado está batendo na gente. Não dá para ignorar que existia uma ditadura e fingir que agora é uma democracia e está tudo bem. A democracia é uma construção. O período da ditadura tem que ser investigado. Nenhum torturador foi preso no Brasil. O único que foi condenado como torturador, e pela minha família, é o Carlos Brilhante Ustra. E ele é justamente o guru do presidente do Brasil. Ele disse que o livro de cabeceira dele é o do Ustra. Cometemos falhas muito sérias como sociedade para chegar nesse ponto. Não podemos deixar os crimes da ditadura sem resposta. E não podemos deixar que achincalhem e ofendam o estado democrático de direito. Temos que valorizar a democracia. O que aconteceu, 17 de abril de 2016, quando o congresso se reuniu para ver se ia ter ou não a abertura do processo contra a Dilma foi um marco.

Ele (Bolsonaro, na época deputado) disse que votava pelo processo em memória de Carlos Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Roussef. Ele fez apologia à tortura. Isso é crime, não só no Brasil, mas crime de lesa-humanidade. E ninguém teve a atitude que deveria ter tido ali. Como continuaram? Muitos deputados são contra a tortura. Eles deviam ter se retirado ou encerrado. Agora, legitimar um crime como a tortura, não pode. Você não pode deixar uma gravíssima violência como aquela passar. Depois dali, é golpe e mais golpe. Os marcos civilizatórios se perderam. E ele ainda age como se fosse o dono da verdade, do Estado, não respeita as instituições”.

Bolsonaro

“Quando ele recebeu a viúva de Ustra no Planalto, achei até normal, já que ele já tinha se declarado fã do torturador. E defendido um torturador que causou mais de 50 mortes, no mínimo. Ele xingou a Comissão da Verdade. Chamou um torturado que foi lá de terrorista. O que é isso? Mas esse sempre foi o comportamento dele, né? Ele sempre agiu pela tortura, pela violência. Agora, faltou a sociedade colocar isso em discussão. E somos uma sociedade que tem poucos meios para defender os direitos humanos”.

Condenação de Ustra

“A minha família foi a única que conseguiu do estado do Brasil uma sentença contra um torturador, que é o Ustra. O processo foi julgado em primeira e segunda instância. Ninguém fala disso, mas foi. Minha família não precisa ser homenageada. Mas a verdade precisa ser falada. Foi um momento de vitória, de justiça. Ele foi declarado. torturador. Isso tem que ser claro. Então, quando o Bolsonaro o homenageia, está homenageando um torturador declarado pelo Estado”.

Tortura na frente dos filhos

“Fui torturada pelo Estado, pelos agentes públicos, torturada por policiais e militares. E meus filhos foram obrigados a assistir a essa tortura. Eu entendo que eles também foram torturados. Eles os levavam mais na sala de tortura onde eu estava, mais ainda do que naquele onde estava o meu marido. Porque nós, mulheres, somos muito mais culpabilizadas. Meus filhos me viram arrebentadas, enquanto eles falavam: ‘sua mãe não gosta de você, é uma terrorista, por isso que ela está machucada’. E me torturavam falando que meus filhos estavam machucados. A tortura é uma ferida que não cicatriza nunca. Ela de vez em quando volta. Temos sequelas corporais, psicológicas, sequelas de todos os tipos. É algo que não se tem como apagar”.

Irmã torturada grávida

“Eu acho que uma mulher grávida sendo torturada é muito assombroso, assustador, cruel. E o Ustra participou de tudo isso. Ele era  o comandante, ele dava ordens. Mas ele também faz para mostrar serviço — Ustra não era apenas o mandante, ele torturava com as próprias mãos também. E meu sobrinho foi torturado bebê, dentro da barriga da mãe. Isso é algo monstruoso.” Abuso sexual “Havia muito abuso sexual dentro das cadeias da ditadura. Se fala muito pouco disso. Mas eles fizeram abusos sexuais. Eu mesma falo muito pouco disso. É dificil de falar. Mas eu fui estuprada na cadeia e mais de uma vez. Mas cada vez que converso com outras mulheres, sei que elas também foram”.

[em depoimento ao site Opera Mundi], Amelinha já detalhou a tortura: “Eu estava sentada em uma cadeira do dragão, nua, amarrada, levando choque no corpo inteiro, ânus, vagina. Enquanto isso, o Gaeta, que era um torturador, estava se masturbando e jogando esperma em cima de mim. A hora que eu caio no chão, ele me põe em uma cama de lona que tinha ali do lado e começa a esfregar meus seios, apertar minha bunda. E assim foram várias vezes, com vários outros torturadores”]. “O estupro era uma forma de violência recorrente nesses campos de concentração, de tortura, que eram essas prisões. Muitos homens também foram estuprados. Se para a gente é difícil falar, imagina o homem?”

Pessoas que idolatram Ustra

“Acho isso muito triste. Muitas apoiam por ignorância. Tem as ignorantes e as perversas. Mas isso me traz muita indignação. Isso é vergonhoso. Eu tenho lido muita história do Brasil. As pessoas precisam ler história, para que não façam uma coisa dessas. Como um pobre pode defender torturador? Ele não percebeu ainda que está na mira? Que pode ser preso e torturado? Eu acho lamentável. Para chegarmos a uma convivência democrática e civilizada, ainda temos que aprender muito”.

Solidariedade feminina

“Uma das coisas que mais me ajudou, dentro da prisão, e quando saí, foi a solidariedade feminina. Fui cuidada por muitas mulheres. Muita gente me ajudou. Foram mulheres que me arrumaram emprego, que ofereceram terapia para os meus filhos. São incontáveis as mulheres que me ajudaram e me receberam com carinho. E dentro da cadeia éramos muito unidas. A maioria não tinha filho, mas faziam roupinhas para os meus filhos e falavam: um dia você vai levar para eles. Essas amigas me ajudaram muito. Elas liam as cartas que a minha irmã me mandava”.

Sobrevivência “Não sei quando esse momento do Brasil vai passar. Mas penso assim: vamos ficar perto uma das outras. Vamos ser mais solidárias. Essa é a única coisa que nós podemos fazer. Nós vamos sobreviver. Vamos ficar junto, lutar e passar por isso. Eu gosto muito de uma frase da Conceição Evaristo que diz: “eles combinaram de nos matar. E nós combinamos de não morrer.” Eu sou uma sobrevivente.”

Fonte: UOL

 


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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