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Em homenagem à Luz

Em homenagem à Luz

(19 de agosto, Dia Mundial da Fotografia)
 
Por Marcelo Abreu

Jogos Indígenas Brasileiros, Campo Grande, Mato Grosso do Sul, junho de 2001. Lá estava eu, por 15 dias, contando histórias de índios e suas etnias, seus sonhos, suas lutas, suas vitórias. Havia perto de mil índios. Alguns nem português falavam. Talvez grande parte.

Lá tb estavam a imprensa do país inteiro e uma boa quantidade de jornalistas estrangeiros e suas mais diferentes agências internacionais de notícias.

Foram 15 dias de muito trabalho e histórias comoventes. Ralação pura. Loucura mesmo.

Lembro-me de que, um dia, no meio da tarde, numa prova de remo, lá estava eu.

Aí, vi este indiozinho, nos braços da mãe. O pai, ambos muito jovens, estava perto. Me aproximei, meio que sem jeito. Eles não falavam português. Índios não dão seus filhos para “homem branco” pegar. Nunca. Eles eram da etnia dos Caiapós.

Mas me aproximei. Queria saber mais sobre a história deles. O indiozinho me viu. Num impulso, num átimo, jogou-se nos meus braços. A mãe ficou sem saber o que fazer. O pai, para minha surpresa, não interveio.

Segurei o indiozinho. Ele tinha 6 meses de vida. Eu lhe dei o nome de Kyano. Criei na hora. Gostei da sonoridade. Até hoje o chamo assim.

Bem longe, sem eu saber, um fotógrafo alemão, com sua lente poderosa, não perdeu a cena. Eternizou o momento.

No dia seguinte, o cara, que só falava alemão e inglês (ainda bem!!!) revelou a foto e foi lá no comitê de imprensa dos jogos. Me chamou pra conversar. E, para minha surpresa, me deu a foto de presente. Detalhe: revelada. Sim, houve um tempo em que se revelavam fotos.

Perguntou-me se eu o autorizaria colocá-la no portfólio. Deixei, claro.

Trouxe a foto comigo. E fiz, claro, um porta-retrato. Lembrança do comecinho dos meus 30 anos. Ô, papai!!! A juventude é um espanto!!!🤣🤣🤣

Se nada aconteceu a esse indiozinho, ele deve ser, hoje, um homem de 20 anos. E, muito provavelmente, deve ter os seus próprios indiozinhos.

Bom, isso tudo é pra falar da importância da fotografia no jornalismo e na vida. A luz eterniza. Congela momentos. Conta histórias únicas. A luz de uma foto carrega cheiro que nunca evapora.

Nesses muitos anos de redação, nessa loucura diária que é fazer JORNALISMO DE VERDADE,

se não fosse a luz de cada fotógrafo e fotógrafa com quem tive a privilégio de sair — cada canto desse DF e por esse país gigante — nenhuma reportagem minha teria sido publicada. Não há história convincente sem uma bela imagem. Aprendi muito com todos eles. Não sou, nem serei fotógrafo (há de haver talento). Mas, de tanto vê-los e perguntar sobre a luz, me arrisco a fazer umas “fotinhas”.

Não haveria uma matéria minha se não fosse com o casamento do texto e da luz. Pelo menos não as histórias que escolhi contar. Nem o jornalismo que resolvi trilhar. E o único em que realmente acredito: o jornalismo que transforma vidas e enxerga alguma luz.

Saí com reis e rainhas da luz. Gente condecorada. Gente com prêmio Esso no peito. Mas sai, sobretudo, com gente que gostava de gente e embarcava comigo na mesma viagem. Com o mesmo desejo: fazer daquela matéria do dia a nossa melhor reportagem das nossas vidas. E no dia seguinte, o mesmo desejo.

E quase sempre fazíamos. Ou talvez sempre. As incontáveis capas do jornal são a prova disso.

Valeu, mestres! Aos que estão aqui e aos que já partiram. E, em nome de todos vocês, um que era amigo de TODOS, o amado por todos, o companheiro de todos, até se fosse concorrente, Ronaldo de Oliveira — grande parceiro, grandes reportagens e viagens fizemos juntos.

Desde que esse moço, mineirim de tudo, partiu há quatro anos, o céu ganhou outra luz.

Ele deve estar fazendo fotos ducaralho perto de Deus! O Paraíso tá iluminado. Até Deus tá feliz e se achando lindo papoxa nas fotos. Esse mineirim fez ate o Criador virar fã dele. Dá-lhe, Ronaldão!

Que nenhuma luz se apague. Que o JORNALISMO resista.

 
Pode ser uma imagem de 1 pessoa, criança, em pé e ao ar livre

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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