O MOVIMENTO NEGRO DURANTE A DITADURA MILITAR
“A conscientização da opressão ocorre, antes de qualquer coisa, pelo racial”
(Lélia Gonzalez)
Por Maria Letícia
A ditadura militar brasileira, ocorrida entre 1964 a 1985, é frequentemente narrada a partir da perseguição a opositores políticos, estudantes e militantes de classe média. No entanto, ao realizar a leitura daquela época com apenas uma lente pode-se não compreender a realidade de toda a população brasileira, especialmente as mais marginalizadas e vulneráveis historicamente. No caso da população negra, o regime significou não apenas repressão política, mas a intensificação de um processo histórico de violência, silenciamento e desigualdade racial já estruturado no país.

Mais do que um período de exceção, a ditadura operou como continuidade e aprofundamento de práticas racistas, atingindo de forma desproporcional corpos negros, principalmente aqueles situados nas periferias urbanas e nas camadas mais empobrecidas da sociedade. O regime apoiou-se em uma estrutura racial já consolidada desde o período colonial e escravocrata, inseridos numa lógica racista e violenta. Nesse contexto, a população negra tornou-se ainda mais vulnerável às ações repressivas do Estado.
O MITO DA DEMOCRACIA RACIAL
Difundida em 1930, a ideia equivocada de que o Brasil vive em harmonia racial e livre de racismo em razão da miscigenação, não surgiu durante a ditadura militar, porém ganhou ainda mais força durante o regime militar. Essa narrativa encobriu desigualdades estruturais, processos de exclusão social e diferentes formas de violência contra populações negras e indígenas, sendo posteriormente contestada por intelectuais e movimentos sociais
Além disso, o discurso oficial da chamada “democracia racial” foi utilizado como ferramenta ideológica para negar a existência do racismo no Brasil. Questionar essa narrativa era visto como uma ameaça à ordem nacional.
Ao afirmar que o racismo não existia no Brasil, o Estado transformava qualquer denúncia de discriminação em uma ameaça à ordem nacional. Movimentos negros, intelectuais e artistas que questionavam essa narrativa eram frequentemente vistos como subversivos, sendo vigiados, censurados ou reprimidos.
O MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO (MNU)
O Movimento Negro Unificado (MNU), fundado em 1978, consagrou-se como um marco decisivo na reorganização da luta antirracista no Brasil em pleno contexto da ditadura militar. Surgido a partir da revolta diante de episódios de violência policial e discriminação racial, o MNU rompeu com o silêncio imposto pelo regime e inaugurou uma nova fase de mobilização política da população negra.
Mais do que denunciar o racismo, o movimento enfrentava diretamente o mito da democracia racial, evidenciando as desigualdades estruturais que atingiam a população negra. Em um período em que qualquer reivindicação podia ser considerada subversiva, o MNU assumiu uma postura firme de enfrentamento, articulando denúncias públicas, atos políticos e produção de consciência crítica.
LÉLIA GONZALEZ
Em 1978, durante o regime militar, Lélia Gonzalez, renomada intelectual brasileira, ajudou a fundar o MNU. O ato de fundação, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, foi um desafio direto à repressão, exigindo o fim da discriminação racial e da violência policial.
Lélia Gonzalez nasceu em 1935, em Belo Horizonte (MG). Foi filósofa, antropóloga e uma das mais importantes vozes que contribuíram para denunciar o racismo estrutural e à desconstrução do mito da democracia racial no Brasil.
VOZES NEGRAS CONTRA O RACISMO E A DITADURA MILITAR
Durante o regime, medidas como censura, vigilância, perseguição e repressão atingiram diretamente os afro-brasileiros, restringindo não apenas sua participação política, mas, sobretudo, o debate público sobre racismo e desigualdade.
Nomes como o de Beatriz Nascimento, Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalez e Carlos Marighella entraram para a história como os principais símbolos de resistência em uma época marcada pela ditadura militar. Eles tiveram suas fichas pessoais levantadas pelos órgãos de repressão da ditadura, sendo constantemente monitorados por instituições como o DOPS e o Serviço Nacional de Informações (SNI.).
Abdias Nascimento denunciou internacionalmente o racismo brasileiro durante seu exílio; Lélia Gonzalez, articulava críticas profundas frente às desigualdades raciais e de gênero; Carlos Marighella, tornou-se símbolo da resistência ao regime e, infelizmente, foi assassinado em 4 de novembro de 1969, em São Paulo, pelo DOPS; e Beatriz Nascimento, contribuiu para a valorização da memória e da identidade negra. Suas trajetórias evidenciam que, mesmo diante da repressão, a população negra esteve na linha de frente da luta por justiça, reconhecimento e transformação social no Brasil.
ABDIAS NASCIMENTO
Abdias Nascimento nasceu em 1914, em Franca (SP), e foi um dos principais nomes na luta organizada contra o racismo no Brasil. Tornou-se um dos principais alvos da ditadura militar brasileira em razão de seu ativismo e das denúncias internacionais sobre o racismo no país.
Perseguido pelo regime, viveu 13 anos em exílio (1968–1981), passando pelos Estados Unidos e pela Nigéria, período em que denunciou o genocídio da população negra brasileira, produziu obras fundamentais e manteve sua atuação artística e intelectual como forma de resistência. Escreveu livros, como “O Genocídio do Negro Brasileiro”, e produziu obras de arte, como a pintura Okê Oxóssi.
BEATRIZ NASCIMENTO
Nascida em 1942, em Sergipe, Beatriz Nascimento destacou-se como uma das principais referências nos estudos sobre quilombos, compreendendo-os como territórios vivos de resistência, identidade e continuidade histórica da população negra. Foi historiadora, pesquisadora e militante, tornando-se uma das principais intelectuais negras do Brasil, com atuação marcante na valorização da memória e da resistência negra, especialmente no período de redemocratização após o regime ditatorial.

Maria Letícia – Redatora.
Capa: Fundação do Movimento Negro Unificado, 1978. Foto: Jesus Carlos / Divulgação: Folha de São Paulo.










