EM QUE A VENEZUELA DIFERE DE OUTRAS INVASÕES DOS EUA?

EM QUE A VENEZUELA DIFERE DE OUTRAS INVASÕES DOS EUA?

Venezuela difere de outras invasões dos EUA por quebrar ordem liberal, dizem especialistas. Trump supera outras ações militares norte-americanas no desrespeito ostensivo às regras estabelecidas no cenário mundial

Por Leandro Aguiar/ A Pública

O enredo não é novo: sob o pretexto de que é preciso salvar a população de uma ditadura e da espoliação econômica que ela promove, os Estados Unidos da América bombardeiam países, derrubam o governante da vez e passam a gerir o estado, sempre sob a promessa de redemocratização. Desde o fim da Guerra Fria, foi assim no Panamá (1989), Afeganistão (2001), Iraque (2003), Haiti (2004), Líbia (2011) e, agora, na Venezuela.

Para os analistas ouvidos pela Agência Pública, entretanto, o sequestro de Nicolás Maduro demonstra uma característica singular: a forma explícita com que os EUA agora admitem seus interesses econômicos. E, se agora, Trump sequer se esforça em dissimulá-los, a ausência de um plano mínimo para a reestruturação da Venezuela – que, ao menos no papel, existiu nas guerras anteriores – aponta para o fim de uma era: a da ordem liberal internacional.

Estabelecida após o término da Segunda Guerra, sob a liderança dos próprios EUA, essa ordem baseou-se até poucos anos no livre comércio, no respeito aos acordos internacionais, às instituições globais como a ONU e na defesa da democracia e da paz – ainda que, em diversos momentos, tais elementos tenham sido defendidos apenas em discursos e não em atos.

“Existe um diagnóstico muito cru, muito duro por parte da elite política estadunidense, de que a ordem internacional liberal não serve mais aos interesses dos EUA. O país vai perdendo liderança, capacidade de ditar os rumos e, portanto, se fez necessário, no cálculo dos tomadores de decisão dos EUA, mudar a estratégia. É isso que vem sendo feito nos últimos anos e de forma muito acentuada na gestão do Trump”, explica Dawisson Belém Lopes, professor de Política Internacional na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

POR QUE ISSO IMPORTA?

Donald Trump não esconde o interesse de seu governo de controlar o petróleo venezuelano e manter a América do Sul sob influência exclusiva dos EUA. O presidente norte-americano tem afirmado que outros países da região, como a Colômbia, podem sofrer ações semelhantes a da Venezuela.

Já para Neusa Bojikian, que é professora de Ciências Políticas na Universidade Estadual de Campinas e pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos, os atos aparentemente ‘insanos’ da gestão do republicano são motivados por um sentido de urgência cultivado pelo grupo político de Trump frente à ascensão econômica da China e a retomada da influência da Rússia na Europa.

“No cálculo deles, não há mais tempo a perder. Daí esse gesto de explicitar força agora, para aplacar um pouco esses movimentos [de aproximação de outras nações junto à China e à Rússia], gerando um certo medo nos países da América do Sul, que até então não eram o foco direto da ação dos EUA”, avalia.

INVASAO IRAQUE

Um soldado do Exército dos EUA caminha em direção a um poço de petróleo em chamas nos vastos campos petrolíferos de Rumaila, no sul do Iraque, 30 de março de 2003 Foto: Yannis Behrakis/Reuters

SEMELHANÇAS COM OUTRA INVASÕES NORTE-AMERICANAS NO MUNDO

Segundo Belém Lopes, se os Estados Unidos utilizam com certa frequência o poder militar para garantir seus interesses, os países que são invadidos, na maior parte das vezes, saem perdendo. “Os resultados, eu diria que quase invariavelmente, são muito negativos para as sociedades que sofrem essas intervenções. Gera-se desestabilização política e econômica e certas desigualdades costumam se aprofundar”.

A avaliação de Lopes está baseada em fatos: no Iraque, de 2003 a 2010, a invasão norte-americana deixou mais de 100 mil mortos. No Haiti e na Líbia, a derrubada dos governos, patrocinada pelos EUA, resultou em conflitos civis que prolongam-se até hoje. Já a suposta “democratização” do Afeganistão foi um vento passageiro: tropas estadunidenses permaneceram 20 anos no país, e tão logo bateram em retirada, em agosto de 2021, o Talibã, movimento político e militar fundamentalista que havia sido expulso da região pelos EUA, retomou o controle do estado.

Bojikian concorda que as promessas norte-americanas de mais democracia, liberdade e pujança econômica, que beneficiariam as populações dos países invadidos justamente sob essas premissas, historicamente não se concretizaram. “Todos esses projetos fracassaram estruturalmente. As economias tornaram-se dependentes da ajuda externa e não desenvolveram uma base produtiva sustentável”.

Para os professores, o que a história aponta é que quando os EUA se aventuraram a tensionar os limites do direito internacional, chegando mesmo a violá-lo, como na guerra do Iraque, que aconteceu sem o respaldo da Organização das Nações Unidas (ONU), e no sequestro de Nicolás Maduro, estão em busca de se distanciar dos demais países com os quais disputam a hegemonia global.

Os objetivos são simples: manter-se na liderança global e não deixar nenhum competidor se aproximar”, pontua Bojikian. Com poucas variações, as finalidades das últimas guerras patrocinadas pelos EUA e da invasão da Venezuela são semelhantes. “A segurança internacional, mas basicamente neste caso [da Venezuela] a segurança regional, pois os EUA querem ter o domínio por aqui [na América do Sul], e o acesso a recursos estratégicos. Isso é muito claro”, completa a pesquisadora.

“O caso da Venezuela está aí para mostrar que existe um componente muito forte de interesse empresarial nas reservas de petróleo. Trump tem dito isso, não estou especulando aqui, estou repetindo o que foi dito pelo mandatário dos EUA”, analisa Lopes. “Isso ajuda a explicar muitas coisas que têm sido feitas e que parecem irracionais [da perspectiva do bem-estar da sociedade], mas que para determinados grupos de interesse são absolutamente consistentes e racionais”, prossegue.

Assim, enquanto as populações locais não enxergam os benefícios propagandeados antes das intervenções armadas – sejam elas sob a liderança de republicanos como George W. Bush e Donald Trump ou democratas como Barack Obama, que presidia o país durante a guerra na Líbia –, há, nos EUA, quem comemore o saldo desses conflitos. “As empresas americanas tomaram a frente [nos países invadidos], e o complexo industrial militar dos EUA foi sempre o grande vencedor, se a gente for pensar em termos materiais”, aponta Bojikian.

Os riscos para os Estados Unidos também existem Se os benefícios para as indústrias bélica e petroleira norte-americanas são evidentes, não é isenta de riscos a empreitada dos EUA na Venezuela, como, aliás, também não foram os outros exemplos citados até aqui.

A professora Neusa Bojikian pondera que, por ironia, o próprio imperialismo bélico trumpista pode acarretar em vantagens para seus adversários globais. “Involuntariamente, ele coloca a China no ‘papel de adulto na sala’. Como se a China dissesse: ‘olha, além do meu dinheiro, que é um saco sem fundo, eu tenho também ideias normativas, como, por exemplo, os Brics [aliança entre Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia, Irã e Indonésia], vocês querem me ouvir?’”, afirma.

Já para o presidente russo Vladimir Putin, a invasão da Venezuela também pode converter-se em ganhos políticos. “A Rússia vai buscar uma capitalização política, discursiva, em cima dessa intervenção dos EUA. Vai tratá-la como mais uma prova do lateralismo, da violação da soberania de outra nação por parte dos EUA. Para Moscou, ela reforça a narrativa de que os EUA operam fora da regra do jogo quando convém a Washington”, finaliza a professora.

O que virá no lugar da ordem liberal internacional não está claro, mas, para o professor Belém Lopes, escasseiam os motivos para otimismo. “Os contornos ainda não estão completamente definidos, estão sendo desenhados, mas tem a ver com o uso da força mais intensamente, menos do poder moral, do poder diplomático e da projeção pelo chamado soft power, e mais do poder duro, o poder que emana das canhoneiras e da dominação econômica, científica e tecnológica”, conclui.

Edição: Ludmila Pizarro/Agência Pública. Imagem de capa (com edição): TaQuiPraTi

VENEZUELA FOGO

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p style=”text-align: center;”>Incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, durante a invasão norte-americana de 2026. Foto: Luis James/AFP

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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