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Oração pela vida correntina

Oração pela vida correntina

“Enterrem meu coração atrás do Morro do Estreito”

Por Altair Sales Barbosa

Lá nos confins dos sertões, entre Goiás e Bahia, onde o maciço calcáreo da Serra Geral repousa docemente seu dorso sob um manto de areia fina, depositada pelo sopro milenar de ventos mutantes, existia, há muito tempo, um deserto conhecido pelo nome de Urucuia. Nessa época, quase não existia vida por lá e tempestades de areia constantemente surgiam ao longo do horizonte, como um balé macabro unindo o céu e a terra.

Muito tempo se passou, e as condições do clima, com sua habitual preguiça, aos poucos se modificaram. Nuvens carregadas, passando por lá, salpicavam de pétalas o areião e a serra que, sabiamente, retinham as sobras pelos poros subterrâneos, formando um rico lençol aquífero. Não se viam mais as tempestades de areia. A vida brotava na forma de folhas e troncos aqui e ali, formando campinas e gerais. Na fronte da serra, surgiam os olhos que, comovidos de tanta alegria, marejavam lágrimas deslizantes sobre o solo frouxo de areias, formando sulcos que iam verediando na direção do sol nascente.

Os olhos viraram lagoas, as lágrimas eram rios. Por onde passavam, enriqueciam vida. Brotavam buritis, buritiranas, pororocas, gameleiras, ingás, ipês-amarelos, muçambés, até cipós e jenipapo. Ao largo, como um abraço carinhoso, surgiram jatobás, paus-d´óleo, paus-ferro, cagaitas, pequis, mangabas, puçás, vinháticos, cajus, cascudos, araçás, bacuparis, grãos-de-galo e tantos outros que seriam necessários muitos janeiros para contar suas histórias.

Buriti atraiu a arara que, com seu grito ressoante, avisou a bicharada da descoberta daquele paraíso. Vieram emas, capivaras, seriemas, veados, periquitos, tatus, sabiás, cervos, canarinhos, mutuns, calangos, lagartixas, tamanduás, antas e até bichos-preguiça eram vistos fazendo malabarismos nos galhos da embaúba.

As frutas que caíam n´água atraíam toda sorte de peixes que, num balé sincronizado, passeavam subindo e descendo rios.

O sol ainda tingia de dourado o orvalho nas folhas de buritirana, quando, por detrás da vasta vereda, um bando de gente inaugurava uma nova era. Eram os índios, os primeiros seres humanos a chegarem na região. Isso foi há muito tempo e por quase quinhentas e cinquenta gerações. Essas populações, se enamorando da paisagem, elegeram como prioridade a harmonia, e assim viveram durante séculos.

Um belo dia, muito tempo depois, outros seres humanos, procurando pepitas douradas entre os cascalhos dos rios, redescobriram aquele paraíso e, ao longo desses rios de águas cristalinas, construíram suas vidas, implantaram suas cidades, seus roçados, suas oficinas de farinha, seus canaviais e suas moedas.

Quando a seca afetava as pastagens da Caatinga, os vaqueiros, entoando cantigas de aboio, transportavam o gado para os gerais e assim construíram uma vida de migrações sazonais.

Como um feixe de luz, os rios entraram no cotidiano das populações, dando-lhes o sustento, influenciando nos seus hábitos de maneira tão forte que, ainda hoje, quando os ventos sopram de leste para oeste, ainda soam na lembrança os versos daquela cantiga de roda dizendo que o navio da cachoeira não navega mais pro mar…

Os rios passaram a ser um pouco da vida dessa gente, um pouco da pessoa amada, o pai, a mãe e os filhos. Saciando a sede, higienizando e acariciando os corpos bronzeados pelo sol do meio-dia.

Quando o perigo iminente ameaçava descristalizar suas águas, as carrancas do Velho Guarany se posicionavam como guardiões do bem, expulsando para longe as ameaças vadias.

Um belo dia, numa época bem recente, homens estranhos, com chicotes e boleadeiras, aterrorizando as carrancas, subiram os rios em direção às suas cabeceiras e ocuparam os chapadões.

Era o caos! As campinas minguaram e bancos genéticos valiosos foram substituídos por grãos estranhos. Máquinas pesadas, semelhantes a dragões acorrentados, atiraram ao chão as plantas raquíticas dos gerais.

Árvores exóticas surgiram em alguns locais, como um ralo de esgoto, exaurindo os recursos públicos. Roçaram as veredas, as bombas sugadoras do pivô central começaram a devolver ao rio o veneno usado para imunizar as novas lavouras.

Os buritis desfolhados começaram a presenciar a desestruturação da vida dos brejeiros.

E assim, a vida foi canalizada pelos meandros de má qualidade.

Os solos encharcados das veredas aos poucos se transformaram em pedra dura, e a água dos rios, diminuindo, expôs nos barrancos os seixos arredondados que outrora repousavam no leito farto desses rios.

Por isso, quando os ventos da desolação soprarem rajadas de pobreza e o povo, desorientado, clamar por salvação, enterrem meu coração atrás do morro do Estreito. Não quero ver a pedra do lajedo agonizando de sede, clamando por uma gota de água.

Altair Sales Barbosa – Pesquisador do CNPq. Sócio Titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Pesquisador da UNIEVANGÉLICA, Anápolis. Presidente do IAS.

Fonte: Revista Xapuri 64 – fev/2020

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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