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Entre raízes, ervas e flores

Entre raízes, ervas e flores: o quintal produtivo de dona Josefa Ataídes

O ofício e o conhecimento tradicional das raizeiras é aprendido e repassado pela oralidade e convívio. O ato de curar, cuidar e alimentar é parte do sagrado feminino e está presente no cotidiano de erveiras e ervateiras do Centro Oeste do país, onde predomina o bioma Cerrado.

Por Eliana Feitosa

A raizeira tem como característica em sua prática a forma como ela usa as plantas a fim de obter o benefício para a saúde, apresenta um conteúdo simbólico, resultado da expectativa de quem vai ser curado e da satisfação de requisitos sociais e culturais tidos pelo grupo como importantes para reestabelecer a saúde.

O amor e a boa vontade com que o raizeiro prepara o remédio, colhe a planta medicinal também é associado a eficácia da terapia. Além disso, o raizeiro deve estar bem consigo mesmo para que a cura seja alcançada como afirma ATTUCH (2006).

Na região administrativa de São Sebastião, bairro Morro da Cruz, Distrito Federal Dona Josefa, educadora popular em saúde, guardiã dos conhecimentos da agricultura ancestral cultiva uma infinidade de ervas e plantas que proporcionam Cura para quase tudo, em especial ervas do Cerrado no Espaço Terapêutico Chá da Terra.

 Deste quintal produtivo saem chás, xaropes, escalda pés, banhos aromáticos, ervas secas, temperos, sementes secas, pomadas, unguentos, tinturas e uma diversidade de produtos que atendem a comunidade local e quem procura a raizeira que já foi agricultora assentada, e hoje desenvolve projetos sociais junto a uma das comunidades mais vulneráveis do Distrito Federal. 

Nas palavras de Dona Josefa “quando a gente ajuda o próximo, ensina a cultivar a terra, produzir o alimento, a gente ensina o outro a ser gente e ai a gente fica um pouco gente também”, explica a mulher de corpo frágil que já teve a saúde bem debilitada quando criança e hoje vive de forma orgânica, sustentável e solidária “eu, nasci na roça e o único recurso eram as plantas do mato!”.

Em seu quintal, conta mais de 170 espécies de fitoterápicos cultivados e catalogados. Para todo o uso de cada espécie e a devida finalidade e conservação, modo de produção, tempo de colheita e época de plantio e poda, claro, para o raizeiro que cultiva a erva e detém o conhecimento da agricultura ancestral, ou seja conhece e pratica o tempo de plantar e colher é também um saber aqui partilhado com quem chega. 

O auto-cuidado e empoderamento feminino sempre estão presentes na fala firme e afetuosa de Zefa, como os moradores a chamam. Mãe e avó, tanto nos cuidados com a família quanto com os vizinhos, amigos e clientes fiéis as ervas comercializadas.

Depois de participar de oficinas junto os Instituto Federal de Brasília, curso de Viveiricultora7, e outras ações de fomento a capacitação feminina local, sempre integrada com a produção agrícola que é vocação de São Sebastião, Dona Josefa passou  cultivar ervas e alimentos orgânicos como o feno grego, também conhecido como fenacho ou alforvas. É uma planta medicinal da espécie Trigonella foenum-graecum, que possui propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e antidiabéticas, sendo muito utilizada como remédio caseiro para diabetes, cólica menstrual ou colesterol alto, por exemplo.

O espaço apresenta ainda a cerimônia do chá camponês e a degustação do chá de clitória puro (na cor azul) ou com gotas de limão (lilás) importante antioxidante que encanta todos que participam do momento. A clitória é uma panc, planta alimentícia não comestível de qualidades medicinais, incluindo propriedades de aumento de memória, antiestresse, antidepressivas, tranquilizantes e sedativas. Na medicina popular, o feijão-borboleta, como é chamada, 

 tem sido empregado no tratamento de infecções de garganta e olho, febre, indigestão, calvície, estresse, fortalecimento da memória, dentre outros

As ações que visam a perpetuação dos saberes tradicionais do ofício de raizeira é a prática da nossa identidade e cultura ancestralmente construída, principalmente pelos povos tradicionais do Cerrado, Cerratenses e apaixonados pela rica biodiversidade deste bioma.

 

Este estudo é parte da pesquisa de doutorado intitulada: Cura para quase tudo, mapeamento dos saberes tradicionais do ofício de raizeiras no Distrito Federal orientada pela professora Dra. Marília Luiza Peluso e apresentada a Pós Graduação em Geografia da Universidade de Brasília.

http://xapuri.info/cura-para-quase-tudo-o-sagrado-feminino/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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