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Esquerda: em crise, mas viva

Esquerda: em crise, mas viva

Em resposta a Safatle, professor Fábio Palácio observa que esquerda vive crise, mas o que morreu foram “soluções pré-fabricadas, eivadas de esquematismo, desprovidas de aderência à vida real.”

Por Fábio Palácio

Publicado originalmente na Folha de São Paulo, o seguinte texto responde à entrevista de Vladimir Safatle, que aponta a morte da esquerda “como esquerda” e o domínio da extrema direita, argumentando que a crise da esquerda necessita de uma caracterização precisa, sem atribuí-la apenas a falhas individuais ou de grupos, e enfatiza a importância de considerar a crise sistêmica do capitalismo.

Em entrevista publicada pela Ilustríssima [da Folha], o professor Vladimir Safatle, importante quadro da esquerda brasileira, nos brinda com reflexões sobre os dilemas desse campo político. O depoimento, voltado à divulgação de seu novo livro, teve ampla repercussão, especialmente por conta da frase “a esquerda brasileira morreu como esquerda”, que rendeu um título tão lustroso quanto provocativo.

As ponderações de Safatle dão o que pensar. Note-se que a ideia de “morte” —polêmica e impactante— parece assumir, no caso, um sentido alegórico, codificando, antes, uma crise da esquerda, a requerer atualização e ajustes.

Se bem podemos falar de crise, é certo que ela não vem de hoje. Remete à estigmatização do ideário transformador na esteira da derrota estratégica do projeto socialista no final do século 20, com o fim da experiência deflagrada pela Revolução Russa de 1917.

Inaugura-se, então, uma quadra histórica de neoliberalismo avassalador e graves retrocessos. Sem alternativa robusta a lhe servir de contraponto, o “fundamentalismo de mercado”, para citar as felizes palavras de Joseph Stiglitz, encontra campo aberto para avançar. E assim assistimos, nos primeiros anos pós-Guerra Fria, ao crescimento das desigualdades, à unipolaridade no plano global e ao triunfo das ideias de “fim da história”.

Essa situação pôs na defensiva a esquerda em todo o mundo, levando a uma crise que não é apenas política, mas se estende ao campo teórico e ideológico. Em um período de apostasia e rebaixamento de horizontes, o problema assume, como sublinha Safatle, dimensão epistêmica, chegando a alcançar a gramática e o léxico.

É verdade que, como não se cansou de destacar um linguista como Bakhtin, os modos de enunciação mudam historicamente; estou certo de que Safatle não o ignora. Ainda assim, e seguindo sua trilha, não deixa de ser sintomático que ideias como a de “autogestão da classe trabalhadora” —ou mesmo, simplesmente, de “classe trabalhadora”— sejam menos ouvidas hoje do que eram há 30 anos.

Nesse ínterim, acompanhando certa diáspora do campo contra-hegemônico, o movimento transformador vivenciou uma busca eclética por novos caminhos, e as lutas sociais se distanciaram do marxismo como referência teórica principal. Esse processo nem sempre conduziu a algo mais avançado.

No afã de encontrar saídas, reabilitaram-se antigas concepções e práticas, algumas de fundo liberal, outras resgatando formas de crítica romântico-utópica que, embora com novas tinturas, seguiam abrigando elementos que já se tinham provado, em essência, superados pelo curso da luta, em tempos anteriores.

Ocorre que a busca saudável de alternativas nem sempre se deu da forma mais consequente. Norteada muitas vezes pela tentativa, em geral demagógica, de “recomeçar tudo do zero”, levou à recusa de lições e experiências do período anterior, jogando fora o bebê junto à água suja do banho.

Importantes lutas do passado foram, assim, recusadas, subestimadas ou, no limite, esquecidas, naquilo que Terry Eagleton chamou de “política da amnésia”. Muitos se encastelaram na defesa de causas específicas, vistas, talvez, como mais factíveis. Isso não seria problema se essas lutas não surgissem, muitas vezes, desvinculadas de um autêntico programa transformador, vocacionado a mudanças estruturais.

É quando salta aos olhos a necessidade de forjar identidades de maior amplitude, capazes de garantir um sentido comum a tantas lutas contemporâneas, muitas delas de sentido anticapitalista, mas sem força suficiente para cumprir esse desígnio nos marcos da segmentação que impera.

É razoável imaginar que Safatle se refira também a isso quando fala em “constelação de progressismos”. A ausência de identidades mais amplas e agregadoras —como a própria ideia de “classe trabalhadora”— pode fragmentar e enfraquecer as lutas sociais.

Se podemos, portanto, falar em crise da esquerda, é preciso que esta seja bem caracterizada e contextualizada, para que não pareça resultar simplesmente das insuficiências de indivíduos ou grupos, por mais papel que possam ter.

Nesse sentido, é preciso não perder de vista a crise sistêmica do capitalismo que se aprofunda nas últimas décadas, como pode ser constatado nos índices anêmicos de crescimento econômico, bem como no escancaramento das desigualdades em inédito grau.

Essa crise, definida por Safatle como “ecológica, social, política, econômica, psíquica, demográfica” —termos que denotam, em uma só palavra, uma crise civilizatória—, conduz a uma situação paradoxal para a esquerda: ao mesmo tempo que colabora para a denúncia das contradições e insuficiências do sistema, também impulsiona, na mão oposta, os mercadores de falsas soluções, que apelam para a violência e fomentam respostas regressivas como o ódio, a intolerância, a xenofobia, o racismo e a misoginia.

Diante desse quadro, a questão na ordem do dia é a da alternativa ao estado atual de coisas. Essa questão se desdobra em duas: o objetivo estratégico e o caminho tático.

Na primeira chave, Safatle esboça um programa que inclui a questão democrática (“soberania popular”, “autogestão”) e a questão social (“igualdade radical”, “preservação ambiental”). Um terceiro ponto parece ausente: a questão nacional.

Impossível não lembrar, aqui, as palavras de Domenico Losurdo, que, em seu livro “O Marxismo Ocidental”, já criticava a tendência, mais visível na esquerda europeia, a subestimar ou negligenciar as assimetrias de poder que se verificam à escala internacional.

Soberania e autodeterminação não são fatores distantes ou intangíveis, como talvez alguns pensem. Interferem objetivamente não apenas na orientação interna, mas nas possibilidades de desenvolvimento de um país, mormente do chamado Terceiro Mundo.

No momento em que a questão da libertação nacional se atualiza com o florescimento da China e o fortalecimento dos Brics —duas faces da transição para um mundo multipolar—, subestimar a luta nacional é um grave erro. Assim como a “reorganização” da esquerda não pode se dar a partir de uma atitude teórica que reitera a fragmentação de identidades e a dispersão de interesses, também não pode se dar a partir da negação do papel dos Estados nacionais democráticos e soberanos.

Essa questão tem outro lado, que aponta para a centralidade do desenvolvimento das forças produtivas. Como percebem agudamente os chineses, nenhum projeto igualitário chegará a bom termo se não for capaz de disputar a dianteira econômica e tecnológica.

Uma alternativa anticapitalista que se contente em repartir pobreza jamais será sustentável, nem social, nem ambientalmente, e estará sempre sob pressão da fronteira tecnológica, amargando desequilíbrios nas trocas comerciais, importando bens e processos que embutem não só facilidades, mas estilos de vida e visões de mundo. Nesse sentido, não deixa de ser alvissareiro que o tema da reindustrialização volte a ser debatido em nosso país.

No que respeita à tática, isto é, à via para o alcance dos objetivos, Safatle postula que “não há espaço para certos pactos que antes se realizavam”. Ora, acredito que haja espaço para quase tudo, menos para o isolamento da esquerda numa época de avanço do neofascismo.

Em tempos outros, porém não tão dessemelhantes, foi a política de frente ampla que derrotou Hitler e Mussolini, sem que isso levasse à descaracterização da esquerda. Fortalecê-la como polo autônomo não pode significar insulamento, recusa de alianças e compromissos.

Não é se afastando do caldo mais amplo de cultura democrática que a esquerda voltará à ofensiva. Ao contrário: é nele que poderá decantar-se, no tempo mesmo em que alinha vitórias e acumula conquistas.

Ao afirmar que as alianças amplas propiciam uma indistinção entre os polos em disputa, Safatle desconsidera que a contradição principal a se desenhar diante de nossos olhos é entre o polo democrático (envolvendo forças heterogêneas, da esquerda à centro-direita) e o polo autocrático, nucleado pelas assim chamadas “novas direitas”.

Ao analisar o processo político, é preciso ter como ponto de partida a correlação de forças e o nível da disputa. Do contrário, qualquer crítica, por bem-intencionada que seja, pode tornar-se abstrata, ofuscando seus pontos positivos.

No mesmo sentido, importa observar, no contexto político real, não apenas restrições e limites, mas também as possibilidades que vicejam. Pois, se o quadro é difícil, não deixa de revelar elementos promissores para a esquerda.

No Brasil, rompeu-se o ciclo do extremismo de direita que avança na Europa, que venceu em um país da importância da Argentina e ameaça voltar ao poder central nos EUA. Não é pouca coisa o que a esquerda brasileira realizou no último período —vertebrando uma frente democrática.

No momento em que um governante de esquerda do Brasil e da América Latina verbaliza a justa indignação do mundo diante do sufocamento da causa palestina, é possível afirmar que “a esquerda morreu”? No momento em que se lê nos muros de prédios ao redor do planeta que “o mundo precisa de Lula”, será verdade que a esquerda morreu? Sou obrigado a me perguntar, nesse sentido, até que ponto o discurso do professor Safatle não é, ele próprio, revelador da crise da esquerda que se propõe denunciar.

Presenciando um tempo em muito similar ao nosso, Drummond afirmou que “a poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais”. De fato, há épocas em que o processo político se revela mais rico, vivo e dinâmico do que supõem nossas vãs filosofias.

Isso não quer dizer que, mesmo nos tempos mais áridos, não devamos sonhar. O que precisamos, porém, antes de sonhar com o resultado, é sonhar com a batalha. Pois, como já no 5º século a.C. asseverava o estrategista chinês Sun Tzu, “as tropas que sonham com a vitória são tímidas, presunçosas ou debilitadas pela preguiça. Ao contrário, aquelas que, sem pensar na vitória, exigem o combate, são tropas enrijecidas no trabalho, aguerridas, destinadas a vencer”.

A esquerda vive, sim, uma crise. Não uma crise de morte, senão uma daquelas que vivenciamos na adolescência e trazem consigo as dores do renascimento e da transformação. Essa crise não será resolvida no plano meramente teórico, mas, antes, na luta concreta por alternativas.

De avanço em avanço é que podemos resistir e alcançar condições políticas melhores do que as oferecidas pela quadra histórica atual. O que morreu, nesse sentido, não foi a esquerda, mas as soluções pré-fabricadas, eivadas de esquematismo, desprovidas de aderência à vida real.

*Publicado originalmente na Folha de S.Paulo

Fonte: Portal Vermelho Capa: Reprodução


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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