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EUA: EMPRESA DE CHIPS VIOLA REGRAS DA OMC

China diz que controle dos EUA sobre empresa de chips viola regras da OMC

Por Redação, com Reuters – de Pequim

A decisão dos Estados Unidos de impedir uma fabricante de chips chinesa com apoio estatal de comprar de fornecedores norte-americanos, em meio a alegações de que a empresa roubou propriedade intelectual, quebra as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e visa proteger o monopólio dos EUA, disse a China durante uma reunião da OMC nesta terça-feira.

O encontro ocorreu com as duas principais economias do mundo já envolvidas em uma disputa comercial e uma guerra tarifária direta.
No mês passado, o Departamento de Comércio dos EUA colocou a Fujian Jinhua Integrated Circuit em uma lista de entidades que não podem comprar componentes, software e produtos de tecnologia de empresas dos EUA.
A norte-americana Micron Technology, produtora de chips de memória com fábricas nos Estados de Virginia e Utah, acusou em ação judicial na Califórnia a Jinhua e a parceira United Microelectronics, de Taiwan, de roubar seus designs de chips.
– Consideramos isso uma acusação injustificada e nos opomos firmemente à presunção de culpa de nossas empresas – disse uma autoridade chinesa à OMC, de acordo com uma transcrição de comentários vistos pela Reuters.
Washington está preocupada que a empresa chinesa possa inundar o mercado com chips baratos do mesmo tipo feitos por empresas norte-americanas que fornecem para os militares dos EUA, apresentando uma ameaça à segurança nacional.
Fonte: Correio do Brasil
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VENEZUELA LIBRE!

Madre déjame luchar
Madre déjame luchar
Madre como te adoro
Porque quiero a mi Pueblo
 Y tu me enseñastes
A luchar por él
Música “Madre Déjame Luchar” de Ali Primera
Por Geraldo Lopes de Souza Júnior
Sabe, caboco, há exílios que não passam pela alfândega. Acontecem antes, por dentro, quando o país empurra seus filhos para fora como quem varre a própria sala fingindo que a sujeira é do vizinho – e ainda reclama do vento. 
No caso do regime de Nicolás Maduro, muitos venezuelanos não saíram da Venezuela: foram expulsos. Espalharam-se pelo mapa como quem foge de um incêndio silencioso, movidos pela fome, pela repressão, pela falta de futuro e pelo excesso de pronunciamentos oficiais explicando que estava tudo sob controle.
Quando alguns trocaram Maduro pelos governos de Wilson e David, veja só, é porque a situação não devia estar exatamente confortável. Vieram parar em Manaus, essa cidade que não pergunta muito de onde você vem; pergunta apenas se você aguenta o calor — e, se aguentar, o resto a gente vê depois. 
Manaus acolheu os hermanos com o que sempre teve em abundância: calor humano. Políticas públicas, como quase sempre, ficaram presas no engarrafamento da boa intenção.
Uma parte desses imigrantes virou cabeleireiro. Talvez porque cortar cabelo seja uma forma discreta e honesta de sobreviver: você não vende discurso, vende cuidado. Tesoura, pente e conversa fiada – ou conversa funda, dependendo do dia e do cliente. Não exige ideologia prévia, nem jura de fidelidade a governo algum.
Como tenho cabelos curtos e gosto de mantê-los assim, uma vez por mês entro num desses salões modestos: ar-condicionado cansado no alto da parede, espelho com marcas do tempo, e me sento na cadeira de um venezuelano qualquer – que, em poucos minutos, deixa de ser um qualquer. A dignidade, afinal, costuma reaparecer rápido quando a gente para de olhar só para o crachá.
Para iniciar a conversa, sempre faço duas perguntas. Virou ritual, quase superstição. Não por método sociológico algum, mas porque aprendi a ser um curioso disciplinado.
– Hermano, você sente saudades daquilo e daqueles que deixou para trás?
Essa primeira pergunta nunca falha em criar um silêncio espesso, desses que nem o barulho da tesoura consegue cortar. É unânime: saudade. Saudade da mãe, do pai, dos filhos que ficaram, da rua, do cheiro da terra natal, do país que já não existe do jeito que guarda na memória. 
Alguns respondem rápido; outros precisam respirar antes. Há olhos que marejam, vozes que diminuem. Por alguns segundos, o salão vira Caracas, Maracaibo, Barquisimeto ou qualquer cidade que hoje só cabe na lembrança e que nenhum relatório internacional consegue traduzir.
Então faço a segunda pergunta:
– Qual é a tua música favorita do Ali Primera?
Curiosamente, o ar muda. A pergunta vem acompanhada de um sorriso tímido, às vezes surpreso, como se alguém tivesse lembrado que aquele homem não é apenas um “imigrante”, essa categoria genérica tão confortável para estatísticas.
– Ali Primera? 
A tristeza não desaparece, mas se acomoda. A resposta chega com alegria contida, brilho nos olhos e uma espécie de orgulho ferido, porém vivo. Cada um cita uma canção, um verso, uma história. Ao mencionar Ali Primera, algo se acende. Não é só música. É memória coletiva. É a ideia – teimosa, insistente e nada diplomática – de que outra Venezuela é possível, apesar de tudo que insiste em provar o contrário. 
Enquanto o cabelo cai no chão, cai também um pouco do peso do exílio. Por alguns minutos, aquele imigrante deixa de ser apenas alguém que perdeu quase tudo. Volta a ser alguém que acredita. Ali Primera faz isso: transforma saudade em resistência, dor em canto, derrota em esperança. Um feito que nenhuma sanção econômica jamais conseguiu realizar.
QUEM É ALI PRIMERA?

 

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Ali Primera foi mais do que um cantor: foi uma consciência afinada. Nascido em 1941, na cidade de Coro, Ely Rafael Primera Rosell ficou conhecido em toda a América Latina como El Cantor del Pueblo – título que não veio de marqueteiro algum, nem de decreto presidencial, mas da coerência entre sua arte e seu compromisso político.
Sua obra nasce do chão da pobreza, da exclusão social e das lutas históricas dos povos latino-americanos. Ali entendia a música como ferramenta de denúncia, memória e formação popular. 
Suas canções falam dos trabalhadores, das crianças pobres, dos negros escravizados, dos indígenas silenciados e de um povo empurrado, geração após geração, para as margens da história.
Neutralidade, ali, nunca foi opção – até porque a neutralidade costuma ter endereço fixo e conta bancária.

 

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No final dos anos 1960, viveu na Romênia, onde estudou engenharia química com bolsa de estudos. A experiência no Leste Europeu aprofundou sua formação política e consolidou uma visão internacionalista das lutas sociais. Ainda assim, foi na cultura popular venezuelana que Ali fincou suas raízes estéticas e éticas, sem terceirizar consciência para nenhuma potência salvadora.
Isso aparece não apenas nas canções de denúncia explícita, mas também naquelas que tratam da cultura como resistência. Em Madre Déjame Luchar, por exemplo, Ali canta o desejo de construir o próprio instrumento, de aprender com as mãos, com o tempo e com a tradição. Fazer o instrumento, ali, é gesto político. Autonomia também se afina – e desafina quando alguém tenta tocar por você. 
Canções como Techos de Cartón expõem a miséria cotidiana; Não basta rezar critica a passividade diante da injustiça; José Leonardo Chirino recupera a memória das rebeliões negras contra a escravidão; e Canción mansa para un pueblo bravo eterniza um dos versos mais contundentes da música latino-americana: os que morrem pela vida não podem ser chamados de mortos”. Frase simples, perigosa e por isso mesmo inesquecível.
Quando o país era presidido por Jaime Lusinchi, cujo governo prendeu, torturou e matou 9 militantes no conhecido massacre de Yumaré e logo depois assassinou 14 pescadores, morreu Ali Primera em 1985, aos 43 anos, em um acidente de carro em Caracas; oficialmente, acidente. 
Extraoficialmente, desconfiança – como costuma acontecer quando artistas incomodam mais do que entretêm. De todo modo, as circunstâncias importam menos que a permanência de sua voz, algo que nem censura, nem propaganda, nem helicóptero conseguiu apagar.
Décadas depois, Ali segue vivo nas ruas, nos movimentos sociais, nas escolas e nas lutas populares. Sua música não envelheceu porque as desigualdades que denunciou continuam rigorosamente atuais. Seu legado é simples e incômodo: cantar, construir, lembrar e criar são atos políticos. E, diante da injustiça, o silêncio – ao contrário do que dizem os moderados profissionais – nunca é neutro.
A TROCA DE DITADORES
Se a história recente da América Latina ensina alguma coisa, é que o imperialismo raramente derruba ditadores para libertar povos. Derruba para substituir. A troca costuma vir embalada em discurso moral; o conteúdo, quase sempre, é o mesmo: controle, alinhamento e obediência. Muda-se o gerente, preserva-se o sistema.
A notícia – ainda quente, ainda cercada de versões, ruídos e convenientes silêncios – de uma intervenção norte-americana na Venezuela, culminando no sequestro de Nicolás Maduro, foi recebida por muitos como alívio imediato. 

 

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Para quem viveu fome, medo e exílio, a queda de quem fraudou as últimas eleições soa, num primeiro momento, como justiça tardia. O problema não é a queda. É quem passa a mandar depois – e a conta que chega junto, geralmente em dólar e em petróleo.
No pronunciamento oficial, falou-se em “restauração da democracia”, “libertação do povo venezuelano” e “fim de um regime ilegítimo”. Um vocabulário conhecido, reciclado com eficiência. Democracia, aliás, é essa palavra elástica que costuma se adaptar perfeitamente ao formato do míssil que a transporta.
Há algo de profundamente perverso quando um tirano cai não pela força do povo que oprime, mas pelas mãos de forças estrangeiras que jamais tolerariam, em seu próprio território, aquilo que dizem defender fora dele. O povo deixa de ser sujeito histórico e vira figurante de uma geopolítica decidida em outra língua, outra moeda e outro fuso horário.
Sai um ditador local, entra um tirano global. Troca-se o autoritarismo explícito por uma tutela bem-vestida, cheia de Powerpoints e entrevistas coletivas. A soberania vira dano colateral. A dignidade, promessa futura. E o povo aprende, mais uma vez, que não escolhe nem o próprio carrasco.
Se Ali Primera estivesse vivo, dificilmente comemoraria. Talvez cantasse – e perguntasse. A quem serve uma liberdade que chega de helicóptero? Por que os pobres seguem pobres quando os tiranos apenas trocam de bandeira? Que democracia é essa, mais identificada com o nazismo, que precisa de tropas para ser apresentada?
Ali nunca pediu salvadores externos. Pediu consciência interna. Nunca celebrou quartéis estrangeiros, mas organização popular. Diante da troca de ditadores, talvez repetisse, em outra forma, o que já disse tantas vezes: não basta rezar, não basta esperar, não basta aplaudir coletivas de imprensa. É preciso construir.
Porque a verdadeira libertação – aquela que Ali cantava – não vem sequestrando presidentes, mas devolvendo ao povo o direito de decidir seu destino, sem tutelas, sanções seletivas ou bombas humanitárias. O resto é apenas mudança de gerente no mesmo sistema de exploração.
E os venezuelanos que cortam cabelos em Manaus sabem disso, mesmo quando não dizem. Sabem, porque já perderam demais para acreditar em libertações terceirizadas. Sabem, porque aprenderam, na pele, que a pátria pode ser destruída tanto por seus próprios tiranos quanto pelos interesses alheios que fingem combatê-los.
No espelho do salão, enquanto a tesoura segue seu curso, talvez Ali Primera continue cantando baixinho – lembrando que os que morrem pela vida não podem ser chamados de mortos. E que os povos que lutam por si mesmos também não podem ser chamados de ingênuos.
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p style=”text-align: justify;”>Geraldo Lopes de Souza Jr.Geraldo Lopes de Souza Júnior – Estatístico e Cronista em www.taquiprati.com.br. Capa: HUGO BARRETO / METRÓPOLES @hugobarretophoto

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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