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FENG SHUI: A FILOSOFIA CHINESA DO CUIDADO

FENG SHUI: A FILOSOFIA CHINESA DO CUIDADO

FENG SHUI sob a perspectiva filosófica e a busca do equilíbrio dinâmico. Essa reflexão nos leva ao Taoísmo que consiste na procura de unidade para diferentes polos como ying/yang, masculino/feminino, espaço/tempo, celestial/terrenal, etc. O filósofo conclui: “Essa conduta ( prática do Feng Shui) reconstrói a morada humana assentada sobre o cuidado e as suas múltiplas ressonâncias.”

Por Leonardo Boff 

Nas suas múltiplas facetas, o Feng Shui representa uma síntese acabada do cuidado, concretizando na forma como se organiza o jardim e a casa humana e postulando uma justa medida e integração dos elementos presentes como raramente se conhece nas culturas históricas.

Podemos até dizer que os chineses são para o Oriente aquilo que os gregos foram para o Ocidente: os incansáveis buscadores do equilíbrio dinâmico em todas as coisas. Daí se deriva a crescente relevância que o Feng Shui está conquistando no mundo inteiro.

O supremo ideal da tradição chinesa que encontrou no “taoísmo” sua melhor expressão, representada por Lao-tse (século VI-V a.C.) e por Chuang-tsu (século V-IV a.C.) consiste em procurar a unidade mediante um processo integrado das diferenças, especialmente das conhecidas polaridades de ying/yang, masculino/feminino, espaço/tempo, celestial/terrenal, entre outras. O Tao representa esta integração, realidade inefável com a qual a pessoa busca se unir.

Tao significa caminho e método, mas também a energia misteriosa e secreta que produz todos os caminhos e projeta todos os métodos. Ele é inexprimível em palavras, diante dele vale o nobre silêncio. Faz-se presente em todas as coisas como princípio imanente de sentido. Subjaz no ying e no yang e através deles se manifesta.

O ideal humano é chegar a uma união profunda com o Tao que se produza o satori, a iluminação. Essa união nos confere a imortalidade e a eternidade. Para os taoístas, o bem supremo não se dá no além-morte como para os cristãos, mas ainda no tempo e na história, mediante uma experiência de não dualidade e de integração no Tao. Ao morrer, a pessoa se unifica com o Tao.

Para se alcançar esta união, faz-se imprescindível a sintonia com a energia vital que perpassa o céu e a terra, o chi. Chi é intraduzível, mas equivale ao ruah dos judeus, ao pneuma dos gregos, ao spiritus dos latinos e ao axé dos yoruba/nagô, expressões que designam o sopro universal, a energia suprema e cósmica.

É por força do Chi que todas as coisas se transformam (conforme o livro Ching, o livro das mutações) e se mantém permanente em processo. Flui no ser humano através dos meridianos da acupuntura. Circula na terra pelas veias telúricas subterrâneas, compostas pelos campos eletromagnéticos distribuídos ao longo de meridianos de ecopuntura que entrecruzam a superfície terrestre.

Quando o Chi se expande, significa vida, quando retrai, morte. Quando ganha peso, apresenta-se como matéria, quando se torna sutil, como espírito. A natureza é a combinação sábia dos vários estados do Chi, desde os mais pesados até os mais leves.

O Chi assume a forma dos dois animais arquetípicos da cultura chinesa, o tigre e o dragão. Eles significam a racionalidade e o masculino (tigre) e emoção e o feminino (dragão). Quando se encontram num determinado lugar, surge uma paisagem aprazível com brisas suaves e águas cristalinas, montanhas sinuosas e vales verdejantes. É um convite para o ser humano instalar aí sua morada.

A visão chinesa do mundo privilegia o espaço, à diferença do Ocidente que privilegia o tempo.  O espaço para o taoísmo é o lugar do encontro, do convívio, das interações de todos com todos, pois todos são portadores da energia Chi, que impregna o espaço.

A suprema expressão do espaço se realiza na casa e no jardim. Mesmo na forma de miniatura, eles constituem um resumo do universo, a harmonização dos elementos, o encontro sinfônico das realidades.

Se o ser humano quiser ser feliz, deve desenvolver a topofilia, o amor ao lugar onde mora e onde constrói seu jardim. O Feng Shui é a arte e a técnica de bem construir a casa e o jardim.

Que é, pois, o Feng Shui? Literalmente, significa “vento e água”. Originalmente era o sábio que, a partir de sua observação da natureza e da fina sintonia como o Chi, fornecia as indicações ideais para montar a casa e o jardim.

Beatriz Bartoly, uma das melhores conhecedoras desta filosofia no Brasil, escreve que “o Feng Shui nos remete para uma forma de zelo carinhoso – nós diríamos cuidadoso e terno – com o banal de nossa existência que, no Ocidente, por longo tempo, tem sido desprestigiado e menosprezado: cuidar das plantas, dos animais, arrumar a casa, cuidar da limpeza, da manutenção dos aposentos, preparar os alimentos, ornamentar o cotidiano com a prosaica e, ao mesmo tempo, majestosa beleza da natureza.

Porém, mais do que as construções e as obras humanas é a sua conduta e a sua ação que que é alvo maior desta filosofia de vida, pois mais do que os resultados, o Feng Shui visa o processo. É o exercício do embelezamento que importa, mais do que o belo cenário que se alcança através dele.  O valor está na ação e não na construção, na conduta e não na obra”.

Como se depreende, a filosofia Feng Shui visa antes o sujeito que o objeto, mais a pessoa do que o ambiente e a casa em si. A pessoa precisa envolver-se no processo, desenvolver a percepção do ambiente, captar os fluxos energéticos e os ritmos da natureza.

Deve assumir uma conduta em harmonia com os outros, com o cosmos e com os processos rítmicos da natureza.  Quando tiver criado essa ecologia interior, está capacitado para organizar, com sucesso, sua ecologia exterior.

Mais do que uma ciência e arte, o Feng Shui é fundamentalmente uma ética ecológica-cósmica de como cuidar da correta distribuição do Chi em nosso ambiente inteiro.

Face ao desmantelamento do cuidado e à grave crise ecológica atual, a milenar sabedoria do Feng Shui nos ajuda a refazer a aliança de simpatia e de amor para com a natureza. Essa conduta reconstrói a morada humana assentada sobre o cuidado e as suas múltiplas ressonâncias.

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leonardoboff1 Viomundo

Leonardo Boff – Filósofo. Escritor, em “Saber Cuidar”. Editora Vozes, 18ª edição, 2012.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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