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Filha de Chico Mendes defende os povos da floresta e a preservação da Amazônia

Filha de Chico Mendes defende os povos da floresta e a preservação da Amazônia

Filha de Chico Mendes defende os povos da floresta e a preservação da Amazônia

‘Com o exemplo em casa, não tinha como seguir outro caminho’, diz Ângela Mendes…

Por Felipe Corona/via Estadão

A ambientalista Ângela Mendes tinha 19 anos em 1988, ano em que seu pai foi assassinado no quintal de casa em Xapuri, no Acre, na frente da mulher e dos outros dois filhos. 

Filha mais velha do seringueiro e ambientalista Chico Mendes (1944-1988), Ângela nasceu no seringal Cachoeira e abraçou a luta do pai na defesa dos povos da floresta e da preservação da Amazônia.

Empreendedora social da organização internacional Ashoka e atual presidenta do Comitê Chico Mendes, quando era pequena Ângela foi adotada por um casal de tios. “Sou do sistema chamado de adoção à brasileira”, explica. “Isso acontece quando os pais não têm condições de criar uma criança e ela vai morar com parentes. Eu nasci em um seringal e adoecia bastante. Esse casal de tios cuidou de mim. Como não consegui desapegar, meu pai e mãe resolveram que eu deveria ficar na companhia deles.”

 
 
 
O seringueiro, sindicalista e ativista ambiental Chico Mendes abraça os filhos que teve com Ilzamar Mendes (dir.). Sandino e Elenira são frutos desse segundo casamento e irmãos da primogênita ngela. A foto foi tirada no quintal da casa, em Xapuri, e tem a data de 20 de dezembro de 1988. Chico Mendes seria assassinado no dia 22, ali mesmo, na frente da família. Foto: Carlos Ruggi/Estadão Conteúdo/AE
O seringueiro, sindicalista e ativista ambiental Chico Mendes abraça os filhos que teve com Ilzamar Mendes (dir.). Sandino e Elenira são frutos desse segundo casamento e irmãos da primogênita Ângela. A foto foi tirada no quintal da casa, em Xapuri, e tem a data de 20 de dezembro de 1988. Chico Mendes seria assassinado no dia 22, ali mesmo, na frente da família. Foto: Carlos Ruggi/Estadão Conteúdo/AE

Ainda que tenha passado boa parte da infância e da juventude na cidade, longe do contexto de resistência, o destino que Ângela cumpre agora com total envolvimento — lutar por justiça social e ambiental — foi moldado na experiência familiar. “Com o exemplo que tinha em casa, eu não tinha como seguir outro caminho”, diz. “Me inspiro muito na luta que meu pai liderou nas décadas de 1970 e 1980. Toda a revolução que fez, saiu das matas de Xapuri para o mundo.”

Os empates e o assassinato de Chico Mendes (1944-1988)

No combate ao desmatamento de seringais em Xapuri, o seringueiro e ambientalista Chico Mendes criou nos anos 1980 um movimento de resistência chamado empate. Nessas ações, homens, mulheres e crianças tentavam impedir o desmatamento colocando-se entre as árvores e as motosserras. No final da década, quando os conflitos pela posse da terra eram constantes e intensos, Chico Mendes passou a sofrer ameaças de morte. Em dezembro de 1988, ele foi assassinado com um tiro no peito quando estava no quintal de sua casa com a esposa e dois filhos. Em 1990, num julgamento que gerou comoção nacional, o fazendeiro Darly Alves da Silva e o filho Darci Alves Pereira foram condenados a 19 anos de prisão, mas libertados no final de 2010. Os conflitos de terra envolvendo seringueiros e fazendeiros continuam ocorrendo Amazônia.

Nosso compromisso é com a vida. As ações são locais, mas o impacto é global. Meu pai tem uma frase, e como pessoa transcendental, ficou: eu estava lutando para salvar a seringueira. Depois percebi que estava lutando para salvar a Amazônia. Por fim, estou lutando pela humanidade (Ângela Mendes, ambientalista)

Ângela falou ao Expresso na Perifa e os principais pontos da conversa estão transcritos a seguir.

FLORESTA
“A Amazônia pode não ser o pulmão do mundo, mas é importante reguladora para outras coisas, além de serviços ecossistêmicos essenciais, com forte impacto na produção de alimentos. A gente também não deixa de estar engajado na luta pelos outros biomas: Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal, que também são devastados ano a ano.”

ATIVISMO VITAL
“A região Norte é uma região excluída e invisibilizada do ponto de vista do acesso às políticas públicas. Nossa luta é mais árdua por isso. Não basta lutar, a gente precisa garantir o acesso e a proposição dessas políticas públicas. Tudo pra gente aqui no Norte é mais difícil. Por isso exige um ativismo, uma militância no dia a dia”.

POPULAÇÕES TRADICIONAIS
“A luta das populações tradicionais é muito mais árdua. É uma luta de resistência, a partir da retirada de muitos direitos, do desmantelamento das políticas públicas. O maior exemplo disso foi na pandemia. Como a região Norte foi tratada nesse período, como os povos indígenas foram tratados”

MILITÂNCIA RECENTE
“Minha militância é relativamente recente, tem cerca de uma década. Nasci no seringal e vim para a cidade. Por isso, cresci longe desse contexto e da luta. Só quando adolescente me aproximei e, mais ainda, quando meu pai foi assassinado. Foi aí que eu senti a necessidade de estar mais próxima e entender esse movimento que ele liderava. Comecei a militar, estar nos mesmos espaços que ele. Fui trabalhar no Centro dos Trabalhadores da Amazônia, uma das ONGs formadas por meu pai. A minha intenção era me aproximar de histórias e pessoas que estiveram ao lado dele. Minha história foi construída com quem esteve de fato e fez parte da luta ao lado dele.”

ESTÁ MAIS DIFÍCIL PROTEGER A FLORESTA
“Isso é um discurso geral, onde ficou muito marcado aquela frase de ‘passar a boiada’. Fixou e deu o impulso necessário aos criminosos e infratores ambientais cada vez mais ousados nas suas ações. O Acre tem um potencial econômico muito grande na madeira. Temos uma cobertura vegetal imensa. Isso atrai muitos olhares, ainda mais com omissão do ICMBio.”

Políticas públicas no governo Bolsonaro vão para a lata do lixo. Aquelas que têm intensa mobilização popular não têm chance. Não existe nenhum ambiente de proposição. Os movimentos que existem são de garantir o que já foi feito. Não deixar que mais políticas públicas, criadas e construídas, tenham o mesmo destino

FUTURO PREOCUPANTE
“Esta gestão passa por um caminho de cortes orçamentários, nos desmontes de proteção ambiental, o enfraquecimento dos órgãos ambientais. Não existe cenários de construção. Infelizmente vamos ficar vendo isso acontecer até que tomemos consciência eleitoral e decidamos mudar o rumo desse país. É um ano propício para rever esses princípios e promover uma mudança estrutural por meio do nosso voto”.

SOBRE NÃO SE DEIXAR ABATER
“Tem um amigo do meu pai, o Gumercindo, que andou muito com ele. Era agrônomo e hoje advogado. Ele sempre fala que ‘o Chico morto fez muito. Se ele tivesse vivo teria feito muito, muito mais’. Ele fez muito em vida, mas isso só virou ações depois que foi assassinado. A maior luta dele foi pelo direito ao território, no caso, as reservas extrativistas (…). Ele não viu a criação. Lutou muito, criou todo o ambiente, porém não viu a criação de fato da primeira reserva extrativista. Hoje, o número de reservas extrativistas e territórios que estão nessa modelagem, protegem 13% de toda a Amazônia. Vivo, ele estaria pensando 100 anos adiante.”

NAS MÃOS DA JUVENTUDE
“Em 1988 ele escreveu uma carta aos jovens do futuro, sobre a revolução que os jovens fariam em 2020. E o que a gente vê são os jovens em intenso movimento, interação; fazendo e transformando. Isso me inspira e inspira os jovens no mundo todo. Isso também o inspiraria se vivo estivesse.”

ELEIÇÕES 2022
“Espero que o parlamento também seja mudado, já que a maioria da bancada é formada por ruralistas e latifundiários que não têm compromissos com causas sociais, ambientais ou da Amazônia. A gente espera que os próximos políticos tenham mais empenho com as causas da vida e da floresta. Com o bem-viver dessas populações.”

SEM AMEAÇAS
“Alguns fatores contribuem para que eu não tenha sofrido nenhuma ameaça direta. Durante os governos de esquerda no Acre, os latifundiários, madeireiros e grandes produtores rurais tinham diálogo com outros segmentos, diálogos costurados por um projeto de governo que fazia essa conciliação. Tivemos conflitos muito pontuais. Minha atuação ficou mais intensa durante um governo de direita, mais com o fator pandemia, que nos fez ficar mais reclusos.”

MEMÓRIA DO PAI
“Ser filha do meu pai realmente exige compromisso e responsabilidade do legado que ele deixou. Não é difícil ser filha dele, porque deixou muita coisa feita, construída. Muitos conceitos, muitas concepções já bem adiantadas. Era um homem visionário muito à frente do tempo dele. Sou muito inspirada por tudo o que fez.”

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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