Fogo Amigo, Fogo Bandido

Fogo Amigo, Fogo Bandido

Por  Carlos Durigan 

O Homo sapiens é a única espécie que tem a capacidade de manejar o fogo. A história da dominação do fogo pelo ser humano se entrelaça à própria evolução do gênero Homo. Estudos baseados em evidências arqueológicas estimam que a relação da humanidade com o fogo começou a tomar corpo por volta de 3 milhões de anos atrás, com técnicas de manejo e produção de fogo desenvolvidas pela nossa espécie precursora, o Homo erectus. As teorias mais aceitas afirmam que o uso do fogo por humanos foi de forma gradual, por gerações sendo utilizado de forma acidental no início, ou seja, a partir de fontes naturais, como um incêndio causado por raios em vegetação seca ou uma poça de lava e com o tempo seu manejo foi evoluindo. Hoje o fogo é ainda a principal fonte de energia utilizada pela sociedade humana.

O fogo está no fogão que prepara os , nas usinas termoelétricas de produção de energia, no motor dos automóveis, nas forjas de metais, na produção de plásticos, vidros e uma infinidade de produtos que utilizamos. O fogo também é essencial às muitas formas de vida na Terra, já que o Sol, uma estrela literalmente em chamas, produz uma quantidade de energia equivalente a 14 lâmpadas de 100 watz por metro quadrado e esta energia é transformada para servir de fonte vital às plantas e animais.

O uso do fogo na agricultura da Amazônia é uma técnica utilizada por gerações. Por milhares de anos os povos da região desenvolveram uma técnica agrícola eficiente e adaptada à baixa concentração de nutrientes nos solos tropicais. Assim, a sofisticada agricultura de coivara evoluiu, junto com a domesticação de dezenas de espécies vegetais que constituem a base do modo de produzir agrícola dos povos amazônicos atuais – indígenas e não indígenas que assumiram o modo indígena de viver e produzir, como ribeirinhos e .

Este modo de produzir tem sido objeto de estudo há décadas e recentemente o Instituto Nacional do Histórico Nacional (Iphan) reconheceu um deles, o Sistema Agrícola Tradicional do Rio Negro, como patrimônio cultural brasileiro, sendo o mesmo muito similar ao praticado por outros na região.

A agricultura de coivara basicamente consiste num sistema em que o uso da terra é cíclico e contínuo. Durante minha convivência e trabalhos com comunidades indígenas e não indígenas no rio Negro, no , tive a grata oportunidade de conhecer este sistema incrível. Uma família escolhe uma área na terra firme e ali faz a derrubada da vegetação e. em muitos casos, tomando o cuidado de derrubar as árvores para que caiam voltadas para dentro do polígono escolhido, em uma área aproximada de 1 hectare ou uma quadra como é chamado. A derrubada é feita meses antes da estação seca e. durante algumas semanas, enquanto a vegetação cortada seca, retira-se a madeira que pode ser útil e com ela se produz carvão ou utiliza-se para a construção e reparo de casas ou outras estruturas.

Com a chegada do verão amazônico na região, entre julho e agosto, iniciam-se as queimadas das quadras derrubadas. O fogo é colocado em volta da vegetação seca e com isso sua tendência é que esta, limitada à quadra desmatada, queime de fora para dentro na mesma, e a floresta do entorno, ainda verde, sai apenas chamuscada. A queima é essencial para o cultivo da mandioca, do cará, da batata-doce, da pupunha, das bananas e ananás entre tantos outros cultivares, uma vez que a cinza gerada irá nutrir a roça nova.

Uma quadra de roça vai produzir a partir dos próximos meses e seguirá produzindo até 3 ou 4 anos depois de aberta e à medida que vai chegando seu tempo de pousio, a floresta vai se regenerando, em alguns casos com a própria ajuda da família a que pertence, uma vez que vai se plantando frutos semi-domesticadas na área, como o cupuaçu, o cacau, a pupunha, o biribá, o caju, entre outros. Em geral uma família chega a ter 3 quadras de roçados, um novo ou em preparação, um do ano anterior e outro de dois anos e, à medida que se vai cuidando do novo, vai se utilizando a produção dos anteriores de forma gradativa até enfim a mata entrar em processo de regeneração. Uma forma incrível e altamente adaptada de produção, que gera alimento a todos e ainda seu excedente é trocado ou comercializado.

O fogo, assim utilizado na Amazônia, é o falado fogo amigo, de utilidade. Em geral, este uso não causa grandes problemas, pois seu uso é controlado, mas claro, em anos de verões extremos e muito secos, cada vez mais comuns nos últimos anos, acontecem acidentes e assim surgem os fogos fugidos, aqueles que se transformam em incêndios florestais, mesmo em áreas de uso tradicional. Muitas comunidades da Amazônia profunda já sentiram este problema e discutem atualmente como podem adaptar-se a esta nova realidade.

Na outra vertente, quem vive na Amazônia tem convivido anualmente com um aumento expressivo de queimadas e fumaça. A causa é que o fogo também é a principal ferramenta utilizada na expansão do desmatamento e na ocupação ilegal de terras na região. Nos últimos dois anos convivemos com um aumento expressivo e sem controle, onde o fogo avança sobre a floresta, destruindo a biodiversidade e a saúde dos povos amazônicos, assim o fogo se transforma em problema, o fogo bandido, aquele que vai destruir a paisagem natural amazônica e em seu lugar vai dar passagem a uma forma de produzir não-amazônica, de baixa produtividade e abrindo caminho à concentração de terras na mão de pouca gente. Para muita gente, grandes regiões no sul da Amazônia já não é mais Amazônia, transformando-se em extensões de terras arrasadas onde florescem conflitos sociais.

Vivemos assim um paradoxo desenvolvimentista, onde a Amazônia de riquezas culturais e biológica, um cenário estabelecido por milhares de anos, onde a presença humana nunca foi um problema tão impactante mesmo com o uso do fogo, vai se tornando mais uma vez um espaço a ser destruído para dar passagem a um progresso questionável, parte de um discurso que já ouvimos antes, em que gente de fora chega desqualificando a gente amazônica e afirmando equivocadamente que o desenvolvimento se faz de cima para baixo e que para isso é preciso destruir.

Essa ideologia alienígena é a origem do fogo bandido, seja utilizando-o, seja incentivando-o. Num cenário de mudança climática global, ainda tenho esperanças que possamos combater o fogo bandido que chega com a degradação socioambiental em nome de um pseudo-desenvolvimento. Para fazer frente à esta destruição generalizada está o modo de viver e produzir verdadeiramente amazônico, que respeita a cultural e vê as florestas e a biodiversidade como fonte real de vida, e defendendo-o, estão os povos amazônicos.


Carlos Durigan é geógrafo, mestre em Ecologia, vive e atua na Amazônia há 26 anos. Participa de pesquisas multidisciplinares envolvendo estudos e trabalhos de campo em biodiversidade e sociodiversidade para subsidiar ações em e . Atualmente é Diretor da WCS Brasil (Associação Conservação da Vida Silvestre).

Fonte: Amazônia Real  13043460 1063823553682740 510334649613372171 n 1

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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