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Guterres: “A natureza está zangada e a natureza está a devolver o golpe”

Guterres: “A natureza está zangada e a natureza está a devolver o golpe”

Do publico.pt

Numa entrevista ao consórcio de jornalistas Covering Climate Now, de que o PÚBLICO faz parte, o secretário-geral da ONU deixou um aviso: “A natureza está zangada e a natureza está a devolver o golpe.” O momento é de urgência. Os alertas científicos sobre os efeitos – já visíveis – das alterações climática sucedem-se, mas a acção política é insuficiente. Na próxima segunda-feira, António Guterres reúne na Cimeira da Acção Climática em Nova Iorque líderes de todo o mundo.

Nesta entrevista, que decorreu na sede da ONU, em Nova Iorque, o secretário-geral das Nações Unidas revela-se optimista, elogiando o movimento dos jovens nas ruas exigindo uma maior acção por parte dos seus governos. “É uma ameaça muito dramática não só para o futuro do planeta, mas para o planeta hoje”, afirmou. António Guterres acredita que o Acordo de Paris não falhou e que mesmo sem os EUA a alinhar nos esforços de redução de emissões de CO2 será possível, perante a pressão da sociedade civil, ver mudanças a nível governamental em todo o mundo. O objectivo: limitar o aumento da temperatura aos 1,5 graus Celsius.

A par da redução das emissões de carbono a nível mundial, António Guterres salientou a importância da adaptação às consequências da crise climática que já se fazem sentir e que se prevê que a curto prazo aumento de intensidade: “Precisamos de apoiar a adaptação e apoiar, especialmente, os países que estão na linha da frente dos impactos negativos. Mas o que a ciência nos diz hoje é que estas metas ainda são alcançáveis”, explica o secretário-geral da ONU. “Mas isso significa que mudámos a forma como produzimos comida, como impulsionamos as nossas economias, como organizamos as nossas cidades, como produzimos energia. Penso que cada vez mais pessoas, empresas, cidades e governos estão a entender que são necessárias”, afirmou.

A entrevista foi conduzida por Mark Hertsgaard, da revista The Nation e do consórcio Covering Climate Now, por Mark Phillips, da estação televisiva CBS News e ainda por  Amanda Mars, do jornal espanhol El Pais. Publicamos aqui um excerto da entrevista conduzida pelos jornalistas norte-americanos Mark Hertsgaard e Mark Phillips.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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