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Homenagens lembram Paulo Bertran

Vários eventos e atividades estão sendo realizados em Goiás, Brasília e outras partes, pela passagem dos dez anos da prematura morte de Paulo Bertran, que foi no dia 2 de outubro. Ele foi, seguramente, o pesquisador brasileiro que melhor desbravou o Brasil Central, trabalho que está presente em sua grandiosa obra e em realizações que deixou pra posteridade.

Sua trajetória de vida é, por si só, um pouco da história desses sertões goianos. Seu nome completo era Paulo Bertran Wirth Chaibub, fruto da mistura de imigrantes suíços e árabes que foram bater no coração do Brasil. Ele nasceu em Anápolis, Goiás, em 1948. E passou boa parte de sua infância e juventude em Goiânia, cidade que transpirava o vigor dos novos centros urbanos.

Em meio à efervescência estudantil dos anos 1960, secundarista, ele dividia seu tempo entre a agitação das ruas e os estudos. Além da escola regular, estudava línguas e música. Sua mãe, dona Helena, conta que nas refeições em casa ele não conversava com ninguém, apenas mastigava o que lhe dessem e seguia nas leituras.

Certa feita, conseguiu levar a cantora Maria Betânia, musa da rebeldia de então, que se apresentava na cidade, a um encontro de jovens em sua casa. Ele havia ido ao teatro, furado a vigilância, entrado no camarim e conversado com ela ainda do show. Ela passou o endereço a alguém da produção e prometeu que iria. E foi, pra alegria da ruidosa galera que a aguardava.

HISTORIADOR E ARTISTA

Bertran fez graduação em Economia na Universidade de Brasília (UnB), depois foi fazer pós-graduação em Strasburg, na França. Chegou a lecionar em várias universidades brasileiras, mas os gabinetes acadêmicos nunca foram bem a sua praia. Apesar de formação em Economia, desde a monografia na UnB, sobre a exploração mineral em Niquelândia (GO), ele se apegou à História.

Graça Fleury, sua companheira no final de sua vida, costuma dizer que “ele era genial: pianista, pintor, jornalista, inventor, fotógrafo e também poeta; e ainda encanta, canta, inspira, escreve histórias e estórias, inventa, celebra, ele se desnuda e ama intensamente, por isto mesmo Paulo Bertran é universal e imortal”. Era enciclopedista, multidisciplinar, pois ia da Geologia à Geografia, da Biologia à Botânica, da Literatura à Arquitetura, nada escapava de seu crivo.

As dificuldades financeiras foram suas parceiras a vida toda. No período da universidade, em curso diurno, ele gastava algumas noites da semana tocando piano em bares de Brasília, como forma de assegurar seu sustento. Não foram poucas as vezes que chegou à UnB direto da noite. Mesmo assim, ainda encontrava tempo pra namorar – ele se casou três vezes e teve três filhos com as duas primeiras esposas.

No esforço da pesquisa ele sempre preferiu trabalhar com fontes primárias, indo direto às informações. Por isso, ficou conhecido como pesquisador extremamente rigoroso em suas andanças bibliográficas e de campo. No Brasil, a pé, em lombo de mula ou boleia de caminhão, percorreu os sertões, as estradas de índios e bandeirantes, descobrindo o porquê dos nomes dos acidentes topográficos e as histórias do povo.

O livro História da Terra e do Homem no Planalto Central, com o subtítulo Eco-história do Distrito Federal, do indígena ao colonizador, já teve várias edições, a última delas pela Editora Universidade de Brasília (EDU/UnB).

No campo da História, ele publicou também, entre outros, os livros Formação Econômica de Goiás, Uma Introdução à História Econômica do Centro-Oeste do Brasil e Notícia Geral da Capitania de Goiás. Como poeta, o destaque é o livro Sertão do Campo Aberto.

Em Portugal, vasculhou os arquivos da Torre do Tombo, em Lisboa, onde elaborou análises e conclusões questionadoras. Em verdade, revolucionárias, por mudarem as interpretações que se tinha de fatos históricos. Foi o responsável, por exemplo, pela elaboração do Projeto Resgate da Documentação Histórica da Capitania de Goiás no Arquivo Ultramarino de Lisboa.

A TERRA E O HOMEM

maeterraPremiada no Brasil inteiro, sua obra remonta toda a história da ocupação do Planalto Central, da Pré-História aos anos 1990, o que inclui, portanto, a construção de Brasília. Como seus títulos deixam claro, não se trata da história das elites. É a história da gente que ali chegava, do índio que ali morava e da sua relação com o ambiente do Cerrado.

Bertran travou severa batalha para corrigir uma falha da Constituinte de 1988, que, ao tratar dos biomas nacionais, deixou de fora o Cerrado. E com “C” maiúsculo, como Amazônia ou Mata Atlântica. Até porque, como dizia e demonstrava, o Cerrado é muito mais importante do que se difunde até em cartilhas escolares. E criou o vocábulo Cerratense, que designa o ser humano deste bioma.

No campo institucional, foi criador do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC-PUC-GO), do Instituto Bertran Fleury (IBF), da revista DF-Letras, entre outros. Criou, juntamente com Graça Fleury, o Memorial das Idades do Brasil, em Brasília, em 2002, um museu a céu aberto, com representações de pinturas rupestres encontradas em 22 estados brasileiros.

Bertran fez, também, todos os levantamentos e estudos que viabilizaram o tombamento da Cidade de Goiás como Patrimônio da Humanidade, pela Unesco. Ao falecer, em 2005, por seu desejo, foi sepultado, ali, na antiga capital goiana, onde hoje funciona o Memorial Paulo Bertran, que acaba de ser ampliado e será palco de homenagens.

E são tributos mais que justos. Afinal, hoje ninguém pode dizer que conhece verdadeiramente a História do Brasil se não tiver se embrenhado um bocado na obra de Bertran.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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