KATAWIXI: VESTÍGIOS DE UM POVO ÀS MARGENS DA BR-319

KATAWIXI: VESTÍGIOS DE UM POVO ÀS MARGENS DA BR-319

KATAWIXI: VESTÍGIOS DE UM POVO ÀS MARGENS DA BR-319

Entre cerâmicas, castanhais manejados e padarias subterrâneas, a TI Jacareúba-Katawixi expõe a permanência frágil de um povo à beira do desaparecimento, enquanto o avanço de grandes empreendimentos estreita suas últimas rotas de resistência. (…) O Interflúvio Madeira-Purus evidencia [uma] realidade de territórios vulneráveis, portarias vencidas e isolados encurralados. A distância entre o discurso climático [durante a COP 30] em Belém e o cotidiano da região revela um paradoxo nacional, onde se celebram metas globais enquanto um povo inviabilizado perde, em silêncio, o mínimo de território para continuar existindo. 

Por Izabel Santos

A Terra Indígena (TI) Jacareúba-Katawixi, com pouco mais de 647 mil hectares entre as nascentes do igarapé Punaenã, do Mucuim e do Tapauá, guarda muito mais do que a paisagem revela. 

Cada varadouro, palhal e castanheira é fruto de uma história de longa duração, marcada por manejo, deslocamento, abrigo e retorno, como descreve o artigo “Os Kagwahiva da margem de lá: histórias, territórios e paisagens Katawixi e Juma no interflúvio dos rios Madeira-Purus (AM), da pesquisadora Laura Furquim, referência na arqueologia amazônica, em trabalho desenvolvido com Daniel Cangussu e Karen Shiratori. 

É um território profundamente humano, moldado por vidas que resistem ocultas e que, hoje, enfrentam a negligência do Estado e a contínua pressão dos grandes empreendimentos no sul do Amazonas. 

Laura registra que a TI forma um “mosaico de florestas, matas de palhal, matas de carrascos, campos naturais e longas extensões de várzeas, entremeadas por pomares com castanhais e palmeiras”. Não se trata apenas de vegetação, mas de cultura materializada. Campos atualmente tomados por gramíneas já foram hortas, acampamentos e caminhos de caça.

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A Terra Indígena Jacareúba-Katawixi está a somente 15 quilômetros da rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Imagem: Reprodução/ISA.

As matas de palhal revelam ciclos de manejo por gerações. Os castanhais densos, frequentemente tratados como formações “naturais”, resultam de práticas de cultivo e seleção realizadas por sucessivas ocupações indígenas.  

No centro desse mosaico, as chamadas bolas de mata – elevações entre 100 e 120 metros onde a floresta se adensa – concentram grande parte dos vestígios Katawixi, como fragmentos de cerâmica, restos de fogueira, sinais de acampamento e as padarias subterrâneas de pães-de-índio, descritas por Laura como uma “grande concentração de pães-de-índio (…) ocorrendo em verdadeiras ‘padarias’ subterrâneas ao longo dos varadouros dos castanhais”. 

Os Katawixi pertencem à família linguística Kawahiva, povo historicamente distribuído entre os rios Madeira e Purus. Os registros mais antigos remontam ao século XVII.

Em 1641, o padre Christovão D’ Acuña, ao descer o Amazonas e passar pela foz do Purus, fez o primeiro relato conhecido sobre os Quetauxis, grafia inicial atribuída ao grupo. 

Em 1862, João Martins da Silva Coutinho descreveu os Catauixis como habitantes de campos e florestas dos rios Tapauá, Mucuim e Mari, vivendo em aldeias com um barracão central e pequenas choupanas. Destacou suas relações com outros povos, a habilidade como olheiros e a agricultura diversificada. 

Em 1872, o coronel Antônio Labre mencionou os “Cathauichys”, descrevendo-os como pacíficos, cultivadores, habilidosos na produção de louça e “bonitos, limpos, bem-feitos e claros”. Esses relatos, somados às observações feitas posteriormente por indigenistas, ajudam a reconstruir parte da trajetória do grupo antes de seu isolamento completo. 

O último avistamento direto ocorreu em 1980, quando moradores e extrativistas relataram ter visto um grupo de “bocas-preta” no rio Mucuim. A presença dos isolados foi reconhecida oficialmente durante o planejamento das usinas de Santo Antonio e Jirau, quando a Funai alertou o Ibama para vestígios de ocupação indígena na área.

Em 2007, foi expedida a primeira Portaria de Restrição de Uso, inaugurando um ciclo de renovações descontínuas que marcaram toda a política posterior para o território. 

Desde então, as Portarias de Restrição de Uso passaram a ser renovadas em intervalos curtos, variando entre um e quatro anos, o que transformou a proteção da TI Jacareúba-Katawixi em um regime de suspensão permanente. 

Em diferentes momentos, a terra ficou meses e, recentemente, mais de um ano inteiro sem portaria vigente, exatamente nos períodos de maior avanço de invasores, abertura de ramais e expansão de áreas desmatadas. As renovações, quando publicadas, funcionaram mais como retomadas tardias de proteção interrompida do que como parte de uma política contínua. Essa instabilidade fortaleceu o cerco sobre um povo cuja sobrevivência depende, justamente, da garantia de isolamento. 

Em 2011, durante uma expedição da Frente de Proteção Etnoambiental Madeira-Purus, servidores da Funai relataram terem sido “rodeados pelos indígenas isolados”, percebendo sua presença por sons que imitavam animais e batidas nas árvores. 

O artigo também menciona famílias que vivem hoje em Lábrea, Canutama e Tapauá e que se reconhecem como descendentes dos Katawixi, ainda sem atendimento indigenista estruturado. A história recente desse povo não é marcada por aparições, mas por recuos sucessivos, diante da violência e da expansão territorial que transformaram o ato de se recolher na única forma de continuar existindo. 

A TI Jacareúba-Katawixi é hoje pressionada por três frentes que remodelam a Amazônia meridional:  a BR-319, as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau e o avanço da grilagem. A BR-319 deixou de ser apenas estrada e se tornou vetor de ocupação. Onde ela chega, surgem ramais; onde surgem ramais, instalam-se serrarias; onde serrarias se consolidam, a floresta cai e, com ela, desaparecem os corredores que permitem que povos isolados evitem o contato forçado. 

Segundo o boletim anual do Sirad-Isolados, do Instituto Socioambiental (ISA), o desmatamento na TI disparou nos últimos anos, passando de 4,58 hectares em 2023 para 26,62 hectares em 2024, um aumento de 525%. O salto está relacionado à entrada de invasores em uma área que, mesmo com portaria, permanece vulnerável. A TI tem 96% de sobreposição com o Parque Nacional Mapinguari e 3% com a Reserva Extrativista Ituxi, sobreposições que deveriam funcionar como barreiras, mas não têm impedido o avanço ilegal.

O boletim indica que parte desse avanço se concentra na porção leste, a mais próxima da BR-319, e do complexo hidrelétrico do Madeira, onde a abertura de novos ramais tem empurrado a fronteira ilegal dentro da TI. No setor Sul, os ramais ligados aos assentamentos Joana D´Arc e Jatuarana, conectados diretamente à BR-319, intensificam o fluxo de madeira ilegal. 

A sobreposição com o Parque Nacional Mapinguari, uma das unidades de conservação mais pressionadas do Amazonas, agrava o cenário. Pastagens e áreas abertas avançam pelo limite oeste, enquanto a Reserva Extrativista Médio Purus enfrenta problemas semelhantes. O corredor que deveria funcionar como proteção tornou-se um conjunto de territórios fragilizados por grandes obras e ausência de fiscalização.

Nenhum empreendimento, porém, alterou tanto o Madeira quanto as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. A mudança no pulso do rio, o declínio das espécies migratórias, o assoreamento e a abertura de acessos para a atividades ilegais já reverberam até o Interflúvio Madeira-Purus. O colapso observado em Rondônia repercute diretamente no sul do Amazonas. 

Laura lembra que “acampamentos e outros vestígios dos ‘isolados’ eram avistados com frequência há cerca de 80 anos”. Oitenta anos são pouco na escala da floresta e da memória indígena. A presença Katawixi não é fantasma, e a recusa ao contato não tem nada de romântico, é estratégia de sobrevivência. 

Enquanto o Brasil sobe ao palco da COP 30 e anuncia demarcações como demonstração de compromisso climático, no Interflúvio Madeira-Purus o povo Katawixi continua sem homologação definitiva, sem fiscalização contínua, sem garantias de que o território que os protegeu por séculos permanecerá inteiro. 

Não basta anunciar demarcações em Belém, é preciso proteger, de fato, aqueles que escolheram não ser vistos. Para eles, aparecer, quase sempre, significou morrer.

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p style=”text-align: justify;”>images 2Izabel Santos Jornalista, em O Varadouro (https://ovaradouro.com.br/katawixi-vestigios-de-um-povo-as-margens-da-br-319/). Fotos de capa: Morador da região segurando um pedaço de pão-de-índio retirado do pão que se encontra enterrado em sua frente. Equipe da FPE Madeira – Purus, no castanhal do Chincha, onde os pães-de-índio foram identificados. Na extremidade de baixo da imagem, um pão aflorando em superfície.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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