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Lula e Madiba: Nelson Mandela e Luiz Inácio, tudo a ver

Lula e Madiba: Nelson Mandela e Luiz Inácio, tudo a ver

Lula e Madiba: Nelson Mandela e Luiz Inácio, tudo a ver

Passou longo tempo na prisão. Depois de uma impressionante campanha nacional e internacional, acabou solto. Preso, soube dos esforços decisivos para a prisão dele. Esforços dos EUA, implacável adversário. Houve propostas de rendição, jamais aceitas…

Por Emiliano José

Da prisão, saiu mais forte. E tornou-se presidente do País. Voltou aos braços do povo, razão da vida dele. Combateu o ódio, a intolerância. Tornou-se assim um dos maiores líderes da Nação que tanto amava. E um dos maiores líderes do mundo, admirado por toda a humanidade. Celebrado pela ONU.

Ao sair da prisão, não saiu destilando ódio. Pregava o amor. Não um sentimento piegas, mas sentimento capaz de unir uma Nação. Sentimento cujas raízes ancestrais podem ser procuradas na origem da civilização. Sentimento poderoso, capaz de inundar a alma da humanidade e de invadir os livros sagrados das religiões, daquelas alicerçadas em livros. Ou daquelas outras, cuja sobrevivência se baseia na história oral, na sabedoria dos ancestrais. E, com tal sentimento, uniu a Nação. Pra jamais ser esquecido. 

Não estou falando de Lula. Mas, de Mandela. De Madiba. Não falo do Brasil. Mas da África do Sul, onde o racismo era perverso, cruel. As mãos do Estado caindo pesado nas costas dos negros pelas mãos dos brancos racistas. Ditou sentença famosa: Ninguém nasce odiando outra pessoa por causa da cor de sua pele, da sua origem ou da sua religião. Para odiar, é preciso aprender. E se podem aprender a odiar, as pessoas podem aprender a amar.

A confusão do leitor, no entanto, ao começar a ler o texto, justifica-se. Mandela e Luiz Inácio, tudo a ver. Madiba e Lula, tudo a ver. 

Como Mandela Madiba, quiseram enterrar Lula em vida. Acreditaram nisso. E se juntaram para encerrar a vida política dele. Como Madiba, ressuscitou. Na prisão. Não se acomodou, não se acovardou. Carregava o sentimento do mundo, tinha causa. E ao ter o sentimento do mundo e ter uma causa, o País e o povo, o Brasil e a gente do Brasil, enquanto preso, celebrado pela humanidade, visitado por ela, continuou vinculado à Nação.

Certo de que a idade, tivesse causa, sonhasse sonhos, não era nada 

– Sentia-se jovem, muito jovem, aos 77 anos. Certamente, recordou-se, ao saber da eleição na noite de 30 de outubro deste 2022:  Madiba tinha praticamente a mesma idade, quando eleito presidente, em 1994, depois de ter saído da prisão.

Por que ele não poderia? Saiu da prisão sem nenhum ódio, ressentimento, 

sem qualquer desejo de vingança. E caminhou pelo mundo. E recebido com imenso carinho, não obstante sem o cargo de presidente, mas sempre recebido como tal.

O Mundo parecia adivinhar. Adivinhou. E chegou com um notável discurso, inspirado no amor e no esforço de unir o Brasil. Sabia, como disse, ter enfrentado a mais dura eleição da vida dele, a colocar frente a frente dois projetos opostos de País.

Venceu o País mais generoso, mais fraterno. Foi vitória não dele, mas do povo brasileiro. De um povo a desejar mais e não menos democracia. Mais liberdade, igualdade e fraternidade – face à barbárie, chegasse a Revolução Francesa à nossa terra, tardiamente fosse.

O Brasil precisa se reencontrar consigo mesmo. Combater a extrema pobreza, a fome, a desigualdade. Restabelecer o diálogo, suprimido pela barbárie.

Baseado na Constituição. Nada mais de sigilos centenários. Diálogo. Não força bruta.

O Brasil deve voltar a falar de igual para igual com todo o mundo. Ombrear-se com a humanidade na defesa do clima, protegendo os biomas brasileiros, todos. Trabalhar por um Brasil onde o amor prevaleça sobre o ódio, a verdade vença a mentira e a esperança seja maior que o medo – e aqui ele se encontra novamente com Madiba Mandela. A maior virtude de um bom governante, dirá Lula no discurso histórico, será sempre o amor pelo seu País e seu povo.

Tanto quanto Madiba Mandela, Lula chega à presidência da República, ciente da magnitude da missão colocada nas mãos dele. Tanto quanto Madiba Mandela, sabe não poder cumpri-la sozinho. Disse com todas as letras: vou precisar de todos. 

E todos significa partidos políticos, trabalhadores, empresários, parlamentares, governadores, prefeitos, gente de todas as religiões, com brasileiros e brasileiras a sonhar com um Brasil mais desenvolvido, mais justo e mais fraterno, um Brasil do tamanho dos nossos sonhos, como ele disse.

A mídia tradicional classificou o discurso como uma novidade. Não era.

Lula Madiba o construíra ao longo dessa caminhada, desde o primeiro turno. Ampliou com muita competência o arco de alianças desde o primeiro turno, ao chamar para junto de si a figura, agora simbólica, de Geraldo Alckmin. E depois vieram Simone Tebet, Janones, Marina Silva, tantas outras personalidades.

Sorte nossa, tenho dito. Não é qualquer coisa contar com uma liderança como Lula, das mais importantes do mundo. 

Como Mandela, jamais desistiu do Brasil. A prisão só o fez crescer.

As dores e as injustiças aumentaram a resistência. A inocência, provada. Pronto para missão épica. Jornada duríssima de reconstrução. O oponente dele havia dito da principal tarefa dele: destruir. Cumpriu. Mas Lula Madiba sabe unir.

Vai unir os eleitores dele e os do adversário para recuperar a Nação. Por isso, ele parecia, com o discurso, lembrar o poeta, recordar Beto Guedes. 

Anda, quero te dizer nenhum segredo

Falo desse chão da nossa casa

Vem que tá na hora de arrumar

Tempo, quero viver mais duzentos anos

Quero não ferir meu semelhante

Nem por isso quero me ferir

Vamos precisar de todo mundo

Pra banir de todo mundo a opressão

Para construir a vida nova

Vamos precisar de muito amor

A felicidade mora ao lado

E quem não é tolo pode ver

A paz na terra amor

O sal na terra

A paz na terra amor

O sal da terra

Terra, és o mais bonito dos planetas

Tão te maltratando por dinheiro

Tu que és a nave nossa irmã

Canta, leva tua vida em harmonia

E nos alimenta com seus frutos

Tu que és do homem, a maçã

Vamos precisar de todo mundo

Um mais um é sempre mais que dois

Para melhor juntar as nossas forças

É só repartir melhor o pão

Recriar o paraíso agora

Para merecer quem vem depois

Deixa nascer o amor

Deixa fluir o amor

Deixa crescer o amor

Deixa viver o amor

O sal da terra

Emiliano José é escritor e jornalista. Matéria publicada originalmente em: https://vermelho.org.br/.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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