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Lurian: Meu pai está indignado, mas firme

Lurian: Meu pai está indignado, mas firme. Ele é surpreendente, não esmorece nunca!

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Lurian Cordeiro da Silva comenta a prisão do pai e a luta por sua liberdade

Confirma a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato: Lurian, em primeiro lugar, gostaria de perguntar como a família Lula da Silva tem enfrentado essa situação, desde a prisão do seu pai?
Lurian Cordeiro da Silva: A gente está numa luta constante. É obvio que o processo é muito doloroso pra nós. Então por um lado, é muito frustrante, mas nós temos seguido a vida normal, trabalhando, estudando e seguindo a vida. E eu, particularmente, tenho ido a muitas atividades, a atos do PT, do PSOL, do PCdoB. Onde me chamam eu vou porque a gente tem que se confortar, bater nessa tecla do renascimento da democracia, pois ela está desaparecendo. E a prisão dele, que é uma prisão política, acaba sinalizando o fim da democracia, não só pra nós, da esquerda, mas para todo o país. A prisão é uma injustiça desmedida contra o político, mas também contra o cidadão inocente, que é meu pai, avô dos meus filhos e bisavô da minha neta.
Você que já esteve na Superintendência da PF em Curitiba,  como está o ânimo do ex-presidente?
Ele é surpreendente, porque a gente chega lá e ele não esmorece. Ele está bem, tem lido, assistido jogos de futebol… Eu acho que quando a pessoa tem certeza da inocência, mesmo sofrendo uma grande injustiça, ele fica tranquilo. Indignado, mas firme. Ele está dando tempo ao tempo. Ele sabe que a verdade vai vir à tona, como tem vindo, por exemplo, com a ocupação do MTST, que mostrou as fotos do apartamento. A verdade sempre vem à tona.
E as cartas, ele lê?
Agora há um processo de filtragem no Instituto [Lula], porque envelopes, caixas precisam ser abertas. Então passa para o Instituto, o pessoal filtra, e encaminha a ele na PF. Mas ele tem lido. E é importante que continuem enviando cartas pra ele. Conforta ele e nos conforta esse carinho. Ele ouve o bom dia, ouve o boa noite, as músicas do acampamento. Ele fica emocionado e está muito orgulhoso da militância estar na rua, estar na luta. A gente sente isso nele.
Lula é muito ligado aos netos. Como eles estão lidando com a prisão do avô?
O primeiro neto que foi visitá-lo foi o Tiago. A minha filha, a Bia, é a mais velha, depois vem o Tiago. Ela vai fazer 23 e ele 21 anos. Os dois administram a questão como a gente mesmo. O João, que é o meu filho de 13 anos, ficou muito emocionado no sindicato [dos Metalúrgicos do ABC]. Essa geração de gamers não é muito integrada. Mas agora ele pergunta sobre tudo, quer pesquisar tudo, saber da história do avô. Ele percebeu que aquilo que ele viveu no sindicato é história mesmo. Eu não sei qual é o entendimento da prisão para os pequenos, mas eles sabem que o avô está sendo injustiçado, que ele está sendo penalizado porque atendeu famílias mais pobres e que a elite do Brasil não aceita um governo popular que tirasse as pessoas da miséria. E a Analua, a bisneta, vai visitar ele essa semana. Será a primeira visita dela.
O isolamento ao qual ele está sendo submetido, preocupa a família?
Ele é uma pessoa que vive da comunicação, que vive dialogando com muita gente. Ao mesmo tempo que essa sala onde ele está foi preparada em respeito a ele, a falta de comunicação, a falta do direito de receber as visitas é o que nos preocupa, porque tem sido arbitrária. Há uma má vontade da juíza e do Moro absurda, de querer vetar os governadores, vetar a Dilma, vetar o Leonardo Boff, vetar a comissão de deputados. Eu acho que não há um bom senso da parte dela. Ela está ferindo a Constituição mais uma vez, pois todo preso tem direito a visitas de amigos, advogados e familiares. Ele está em uma solitária praticamente. Eu não entendo até onde eles querem chegar com esse isolamento dele.
Como vocês, filhos, lidam com os constantes boatos que dão conta de uma suposta fortuna que a família Lula teria acumulado?
Eu, mais do que ninguém, sou vítima de boatos desde 89. A minha imagem foi usada na eleição do Collor, quando a minha própria mãe foi à televisão acusar meu pai de aborto e a mídia comprou esse discurso dela. Para minha sorte, tive uma boa estrutura familiar porque fui criada pela minha avó materna, que desmentiu tudo o que minha mãe falou, desconstruiu tudo o que ela disse. Mas até hoje tem pessoas que me apontam e dizem ‘ah, você é aquela do aborto’. Depois veio uma história de que eu tinha uma ONG que recebeu 7,5 milhões ou bilhões de reais. Depois teve o boato de que ele [Lula] tinha mudado o formato das tomadas porque a fábrica de tomadas era minha. Depois teve o boato da Friboi. Depois o Luiz Cláudio virou dono de milhões de times de futebol. É uma bizarrice atrás de bizarrice e a criatividade das pessoas é demais. Para a família tudo isso é muito triste. É como se não tivéssemos direito de ter as nossas vidas. Fotografam coisas absurdas e dizem que é do meu irmão. Filmam coisas na rua e dizem: ‘olha o filho do Lula num restaurante caro, olha o filho do Lula num iate’. É um absurdo. Teve um parlamentar de Santa Catarina que foi à tribuna falar isso. ‘Ah, porque os filhos do Lula estão em navio, em iate, em lanchas, com mulheres e bebidas’. Eu queria que ele mostrasse isso e comprovasse que eram os filhos do Lula. Então a criatividade e a maldade das pessoas é bem absurda.
Como militante do Partido dos Trabalhadores, como você avalia o fato do PT ter atraído novos militantes após a prisão do seu pai, além do sucesso dele nas pesquisas eleitorais?
Eu acho que as pessoas estão começando a enxergar o que está acontecendo no Brasil. Eu participei de várias caravanas e Chapecó foi uma das cidades mais violentas onde a gente esteve. Desde o começo do dia teve situações, como a pedrada no Frateschi [Paulo], e alguns outros episódios bem tristes. E a gente percebeu que as pessoas que estavam do lado de lá, tem uma maioria muito odiosa, mas tem uma parte que nunca ouviu o Lula falar. Essa observação quem me fez foi o deputado Décio Lima, que me disse: ‘Lurian, olha como quando o seu pai está falando eles ficam em silêncio’. Eles nunca tinham ouvido o Lula falar. Isso vai mudando a formação dessas pessoas, a forma de pensar, e passam a entender que estão sendo manipulados de fato por uma mídia, por um Judiciário. E fora que muita gente que era contra a gente ficou sensibilizada com a forma como ocorreu a condenação e a prisão dele. Antes, eu recebia milhares de mensagens agressivas. Hoje eu recebo um monte de mensagens solidárias, e as agressivas sumiram. Há pessoas nas minhas redes sociais que não são nossos eleitores, mas que me mandaram mensagens de carinho, solidárias. Eu acho que tem muita gente que ia a manifestações da direita, mas que agora veem o  que estão fazendo com o nosso país e por isso mudam a intenção de voto, querem vir para o PT. E é isso que a gente precisa: resgatar a esperança do povo brasileiro.
O que você diria a esses milhões de brasileiros e brasileiras que seguem firmes no apoio ao Lula?
Primeiro, eu queria agradecer a cada brasileiro, cada brasileira, que manda mensagens pra gente, que manda cartinha pra ele, que faz oração para ele. É preciso dizer que o caminho da nossa luta é muito difícil, que a luta vai ser árdua, mas que a gente tem certeza da nossa vitória, e por isso a gente precisa de cada uma dessas pessoas, porque cada um é um pouquinho de Lula. Todos os brasileiros e brasileiras são um pouquinho do Lula e a gente não pode desistir da resistência, seja na rua, no trabalho, no ônibus, na escola, na universidade, a gente precisa levar a verdade às pessoas que não acreditam, que não têm esperança, as pessoas que têm dúvidas. A gente não pode desistir. Precisamos defender o Lula sim, levando a verdade, levando informação. Tem dúvidas? Pesquisa, não se paute pela mídia golpista. Hoje em dia, tem uma gama de fontes pra checar. É muito importante a gente propagar sempre a nossa verdade. Porque a máscara deles um dia vai cair.
Lurian e Lula
Fonte desta matéria: cut
Fotos: acervo lula.com.br

 
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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