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Maiwá Ikpeng e Matari Kayabi: Definições Indígenas de Geografia

Maiwá Ikpeng e Matari Kayabi: Definições Indígenas de Geografia – Geografia é uma ciência que estuda o Mapa do Mundo 

Por Maiwá Ikpeng 

Geografia é uma ciência que estuda o mapa do mundo, os países, os homens, as florestas, os rios, os lagos, o sol.

Geografia para mim é uma ciência que estuda os municípios, os estados, as montanhas, os planetas, a terra, os meios de orientação, o movimento de rotação e os terremotos.

Geografia estuda as aldeias, estradas, limites das Terras Indígenas, divisas dos rios, córregos, cidades, cachoeiras, igarapés, onde está a pista de pouso e o campo de futebol.

Geografia estuda os animais, as aves e os peixes.

Além disso, a geografia estuda o Parque Indígena do Xingu, onde tem muitos índios.

O estudo da geografia é muito importante para nós aprendermos.

Geografia é aprender e entender todas as coisas que existem no mundo –

Por Matari Kayabi

Geografia são os continentes Americano, Africano, Europeu, Asiático, Oceânico, a terra, o mar, o sol, a lua e a chuva…

Geografia é a roça, a plantação, a casa, a divisão da terra, a demarcação, o rio, a estrada, o caminho, o fazendeiro, o índio, a cidade, a aldeia, a cachoeira, a montanha, a ave, o animal, o peixe, a lagoa, o estado, o país, a fábrica…

Geografia é um estudo para saber localizar as coisas do mundo e para saber como o mundo funciona…

Geografia é para saber as divisões da terra, saber sobre a demarcação de nossas terras, o que é nosso e o que não é…

Geografia é saber todos os nomes dos países, dos estados brasileiros, das cidades, dos rios…

Geografia é aprender e entender todas as coisas que existem no mundo…

Geografai é tudo o que homem faz na terra e tudo o que homem não faz como: vento, chuva, céu, sol, lua, estrelas…

ANOTE AÍ:

Maiwá Ikpeng e Matari Kayabi – professores  indígenas do Xingu, em “Geografia Indígena – Parque Indígena do Xingu”, MEC/SEF-ISA, 1998.  Material elaborado durante as primeiras etapas intensivas do Curso de Formação de Professores Indígenas do Parque Indígena do Xingu para o Magistério, projeto iniciado pela AVA – Associação Vida e Ambiente em 1994 e incorporado em 1996 ao ISA – Instituto Socioambiental.


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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