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Marchinhas de Carnaval: Na ponta da língua, no pé do povo

Marchinhas de Carnaval: Um retrato da vida política e social brasileira

A partir de 1920, com rimas fáceis e bom humor, as marchinhas tornaram-se obrigatórias no carnaval. Mais que meros versos de folia, elas trazem crônicas do cotidiano da sociedade brasileira.

Por Érica Georgino/Aventuras na História 

Num fim de tarde qualquer de 1970, Manoel Ferreira e Ruth Amaral estavam em casa, jogando cartas com os vizinhos. Um toque na campainha do apartamento do casal, na avenida São João, no Centro de São Paulo, interrompe o passatempo. À porta está outra vizinha, que quer perguntar algo para Ruth – o que, exatamente, ela já não lembra. Caso encerrado, a dona da casa retoma sua vez no baralho.

O marido a cutuca por baixo da mesa: “Já temos música para o próximo carnaval”. E assim nasciam os versos: “Ai, a bruxa vem aí / e não vem sozinha, / vem na base do saci”. “Quando vi a vizinha, a música me saltou na hora à mente. Ela era tão esquisitinha que, para bruxa, só faltava mesmo a vassoura”, diz Manoel, rindo. Gravada por Sílvio Santos, a canção estourou nos bailes de carnaval da época e atravessou os anos como parte da trilha sonora de programas do apresentador de TV.

O episódio resume o tom das marchinhas, gênero musical carnavalesco que narra temas cotidianos em versos simples e irônicos, que “colam” na memória dos foliões. “Quanto mais curta a letra, fica mais fácil para o público gravar e cantarolar bem”, afirmam Ruth e Manoel. “A marchinha é o poder da concisão. Ela diz tudo em poucas palavras, acompanhadas de uma melodia nova e agradável”, diz o músico veterano João Roberto Kelly.

Embora ele seja avesso a receitas, de sua forma saíram algumas das mais famosas letras do carnaval brasileiro, como Maria Sapatão (1980), Bota a Camisinha (1987) – ambas escritas com a colaboração do apresentador de TV Chacrinha, o Abelardo Barbosa, entre outros autores – e Cabeleira do Zezé (1963), parceria com Roberto Faissal.

O mote desta última veio de um garçom que o atendeu em um restaurante de Copacabana. O cabelo do rapaz chamava tanta atenção que João Roberto lhe disse: “Olha, se eu fosse um caricaturista, faria aqui mesmo um desenho seu. Como não sou dessa arte, faço à minha moda: com rimas e bom humor”.

Mais de 40 anos depois, os versos “Olha a cabeleira do Zezé / Será que ele é” ainda dominam as seleções carnavalescas de clubes, hotéis e salões. É a canção mais tocada no Brasil em dias de folia, segundo o ranking de carnaval do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

O gênero representa 44% de todas as músicas reproduzidas, no período, no ano passado. Mais que sinônimo de saudosismo, as marchinhas estiveram na ponta da língua, no pé do povo e, bem à sua maneira, espreitaram o desenvolvimento político e social do país ao longo do século passado.

Ó abre alas

Há cerca de 100 anos, a anarquia musical imperava no carnaval. Ritmos europeus (como a polca e os “zé-pereiras”, tocadores de bumbo da tradição portuguesa) misturavam-se pelas ruas do Rio de Janeiro com valsas, cantigas de roda, hinos e quadrinhas musicadas na hora.

Em suma, dançava-se e cantava-se qualquer coisa. Ao menos um hino essas festas populares já possuíam: Ó Abre Alas, composta pela maestrina Chiquinha Gonzaga em 1899. Era uma marcha-rancho (de andamento lento), que mais tarde foi considerada nossa primeira canção foliã. Chiquinha abria a tradição de músicas dedicadas exclusivamente ao carnaval.

Novos gêneros não demoraram a surgir. Pelo Telefone (1917), de Ernesto dos Santos, o Donga, inaugurou a designação “samba”, assim como O Pé de Anjo, de Sinhô, e Pois não, de Eduardo Souto e Filomeno Ribeiro, lançaram em 1920 as primeiras marchinhas. Elas já nasceram sazonais. Eram esquecidas durante o ano, mas tinham seu lugar garantido nos dias de folia (como ocorre com o samba-enredo). Tratava-se de uma mistura alegre e bem brasileira dos ritmos da polca, americanos (ragtime e one step) e até mesmo das marchas das bandas de coreto e de desfiles militares.

Aos poucos, sua temática ganhou corpo: “A marchinha é um gênero sempre marcado pela crônica de época e pela malícia”, diz Ricardo Cravo Albin, musicólogo e pesquisador da MPB. “Elas são a expressão do humor popular da praça pública; é um processo de carnavalização em que não se leva nada a sério”, afirma Walnice Nogueira Galvão, autora de Ao Som do Samba- Uma Leitura do Carnaval Carioca.

Como exemplo, ambos retomam Lamartine Babo, o “rei” do carnaval carioca (veja acima), que em 1932 versava sobre a mulata e aproveitava para cutucar o golpe de Estado getulista em 1930, com a consequente nomeação de interventores para administrar os estados brasileiros.

Em uma das estrofes de O teu Cabelo não Nega, Lamartine canta: “Tens um sabor / Bem do Brasil / Tens a alma cor de anil / Mulata, mulatinha, meu amor / Fui nomeado teu tenente interventor”.

Além de política, os motes eram as comédias de costumes, o nonsense (com o casamento de rimas sem sentido) e a crítica social, como nos versos “Tomara que chova / Três dias sem parar / A minha grande mágoa / É lá em casa não tem água / E eu preciso me lavar”. O péssimo abastecimento de água no Rio inspirou Paquito e Romeu Gentil a lançar, em 1951, Tomara que Chova.

A vitalidade das marchinhas é explicada por sua identificação inata com o carnaval. Assim diz João Roberto Kelly: “O samba-enredo você escuta nos desfiles do sambódromo, mas para os blocos, ruas e nas piadas, para dançar sozinho ou em grupo, o ritmo é a marchinha”.

Ruth Amaral também arrisca um palpite: “As pessoas são muito austeras e só têm esses dias do ano para se esbaldarem. As marchinhas são singelas, dizem o que o coração pensa, sente e viu”.

Os compositores continuam na ativa. E até preparam uma parceria, trocando estrofes na ponte aérea Rio-SP. Segundo Kelly, o tema é a “dança da boquinha”. Boquinha? “Sabe… Aquela boquinha, quando os políticos vão pedir a sua parte…”

 

Fonte: aventurasnahistoria

Capa: Reprodução da Internet


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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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