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Marias 6

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Marias 6

Por Giselle Mathias

Ela se casou assim que se formou em pedagogia, conhecera seu marido quando estava na metade do curso, um jovem oficial do Exército que se mudara recentemente para sua cidade…

Ela nunca havia namorado até conhecê-lo, era a moral da época, as moças eram preparadas para o casamento e só poderiam amar um único homem, por isso deveriam se resguardar; foi o que ela fez.

Após o casamento começaram as mudanças, a profissão dele exigia a alternância de endereços, cidades e até países, mas não foram só os locais que se modificaram, ele também deixara de ser aquele homem gentil, cortês, tranquilo e dedicado a ela como no período de namoro e noivado. 

Minha mãe não me deixava ouvir as conversas quando Maria C chegava chorando em nossa casa, mas sempre escutávamos algumas falas espaçadas, no meio dos soluços. Me entristecia em vê-la daquele jeito, não compreendia quando chegava triste, acreditava que todas as relações deveriam ser como a dos meus pais, sem brigas, contratempos e conflitos; somente mais tarde descobri o quão caro é manter as aparências. 

Quando a conheci seu marido já estava na reserva, os filhos crescidos, não havia mais necessidade de mudanças, ele decidira permanecer na última cidade em que prestara serviço. Ela sempre dizia a minha mãe o quanto sentia falta de sua cidade natal, dos amigos de infância e de sua família, mas se sentia recompensada por uma amizade tão verdadeira que as duas tinham, sentia-se como sua irmã, era a família que criara na vida.

Certa vez ela chegou aos prantos, até meu pai a consolou e participou da conversa; ficamos atônitos, queria saber o que havia acontecido para que estivesse tão desesperada, fui até a porta do escritório e a ouvi dizer aos meus pais que não suportava mais as humilhações que passava, sentia-se invisível, inútil, como se tudo que fizesse fosse errado, nada estava bom para seu marido, os xingamentos eram constantes.

Depois daquele dia vi poucas vezes Maria C, não aparecia mais em minha casa, segundo minha mãe ela lhe dissera que o marido não permitia que saísse mais, deveria ficar em casa e cumprir suas obrigações; quando a encontrei estava muito magra e o sorriso que lhe era característico havia sumido. Perguntei aos meus pais por que não interferiam naquela situação, era amiga deles, mas a resposta foi que não se meteriam, era um problema do casal e não deveriam se intrometer. Fiquei angustiada, sem entender, me frustrei e quando ela partiu tão tragicamente me questionei se meus pais não poderiam ter alterado ou impedido aquele fim; mas guardei esse pensamento e sentimento para mim, nunca lhes perguntei como se sentiram.

Anos mais tarde, quando estava resolvendo a minha separação, conversei com minha mãe sobre Maria C, não sei o porquê, mas sua imagem estava fixa em meu pensamento, sempre aparecia sorrindo para mim, e aquela imagem me passava uma tranquilidade, quando falei sobre essa sensação, percebi, imediatamente, o ar se carregar de preocupação e tensão, os olhos de minha mãe mostraram uma angústia que nunca tinha visto. Ela me abraçou com força e perguntou se estava tudo bem. Sorrindo disse a ela para não se preocupar, não faria o mesmo que sua amiga. Quero viver todas as oportunidades, alegrias, dores, realizações, frustrações que o mundo nos dá, quero o recomeço, uma nova perspectiva, novas luzes e cores.

Ao final de nossa conversa minha mãe abriu uma caixa em que guarda todas as cartas que já havia recebido, pegou um envelope vermelho, o abriu e me entregou seu conteúdo, disse para ler, apenas para que eu soubesse o que sua amiga passava e o quanto estava aliviada com a minha fala, e a decisão que tomei em recomeçar a minha vida, mesmo com todas as dificuldades que se apresentam.

Abri aquela folha, a letra estava trêmula, pude ver todo o sofrimento em cada palavra lá escrita e o mesmo questionamento que fiz na adolescência ressurgiu em minha mente, mas como antes não tive coragem de perguntar como minha mãe se sentia.

Marica C naquela carta que escrevera não disse o que faria, não era um bilhete de uma suicida, tentando apresentar os motivos para um ato tão incompreensível. Era um agradecimento, e aqui vou transcrever o que ela disse uma última vez a sua amiga.

“Minha cara amiga,

Você é uma das poucas felicidades na minha vida nos últimos anos, desde que nos conhecemos voltei a acreditar na possibilidade de conhecermos boas pessoas, que se transformam em nossa família, tamanha a identidade que temos. Agradeço por cada palavra, aconchego, sorriso e consolo que me proporcionou em momentos tão difíceis que passei e passo. Quando sua filha for maior não deixe de contar a ela a minha história (quero que ela escolha bem quando for se casar) o quanto para o meu marido me tornei inútil, porque para ele sou atrapalhada, não consigo nem mesmo fazer uma compra no supermercado, sempre me diz que não trago os produtos certos, nem mesmo sei escolher frutas, ir ao banco como eu fazia antes, também não posso mais, parece que fiz algo que deu prejuízo no orçamento aqui de casa. Na verdade, não sei o que foi, pois nunca mexi com cheques ou cartões, meu marido sempre me deu uma quantia certa para a semana. Ele acha que não percebo o quanto me deprecia, me coloca para baixo e me quer subjugada a ele, como se fosse uma escrava. É assim que ele me vê, como um instrumento, um burro de carga. Pensei que após ele entrar na reserva eu poderia voltar a trabalhar, mas quando tentei os ataques vieram, eram diários. Ele me chama de vagabunda, inútil, encostada e que não sirvo para nada. Fico aliviada quando ele resolve ficar em silêncio como se estivesse me punindo, hoje sua mudez é um prêmio para mim. Não sei como aguento, mas me separar não é uma opção, casei-me para a vida toda e devo aguentar a tudo resignadamente até o fim. Meus filhos já estão encaminhados, agora é só esperar pela chegada dos netos e rezar para que meu marido se acalme um dia. Sinto sua falta, mas ainda não podemos nos ver, ele está indócil, me disse até que se eu prestasse pegaria a arma em sua gaveta e daria um tiro na cabeça. Ignorei sua fala, respirei fundo, lembrei do quanto você é calma e segura, me inspirei e uma pequena esperança voltou a brilhar em meus olhos. Espero que possamos nos encontrar logo, acredito que em algum momento essa situação irá melhorar.

Beijos para você, sua filha e toda a sua família

Maria C”

 

Depois de ler a carta que enviara a minha mãe, acho que entendi o porquê ela não tinha procurado sua amiga, acreditou que poderia superar tudo o que vivia, as mulheres são construídas para tolerar, suportar, conceder. Havia outras opções, mas ela escolheu findar com sua própria vida, ainda não entendo a decisão final de Maria C, porque a dor e o trauma permanecem em todos que a conheceram. Mas gosto de me recordar do seu sorriso e os conselhos para que eu escolhesse um parceiro de vida e não um simples marido.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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