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Meninas em perigo

Meninas em perigo
 
Onde há domínio do fundamentalismo religioso há risco de violação de direitos. Achei muito oportuno que hoje, no dia em que nos lembramos do 11 de Setembro, fato histórico motivado pela ação de líderes religiosos fundamentlistas ligados a Al Qaeda, tenha sido publicada a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar, realizada pelo IBGE junto às/aos estudantes das escolas públicas e privadas brasileiras.
 
 
Os dados relativos às meninas são estarrecedores. Elas aparecem sempre com os piores índices em relação à violência sexual. Enquanto entre os meninos o percentual de abusos é de 9%, entre elas é de 20%. Um dos dados mais tristes é quanto a 29,1% delas declararem que foram abusadas por seus namorados e 8,8% afirmaram que foram obrigadas a manter relação sexual contra a vontade. Os impactos dessas situações na saúde mental das meninas são terríveis: 29,6%, ou seja, quase um terço delas, sentem que a vida não vale a pena ser vivida. Entre os meninos este número é de 13%.
No Brasil, assim como no Afeganistão, há quem lute contra os direitos de meninas e de mulheres. Muitas dessas crenças derivam de leituras distorcidas, neoliberais e oportunistas da Bíblia. O fundamentalismo religioso se dá pela crença cega de que, as Ciências, a História, os marcos civilizatórios, o Estado Democrático de Direitos não devem ser considerados, se eles conflitam com as crenças religiosas de determinado grupo, por mais sanguinárias, abusivas e estapafúrdias que sejam estas crenças.
A ideia destes fundamentalistas é de que, em nome de seguir esta interpretação é permitido usar armas, impor um Estado autoritário, limitar os direitos das mulheres, é permitido matar, destruir, torturar. Para os fundamentalistas não há respeito à coletividade, à vida, ao bom senso, às leis, e ao que a humanidade acumulou de civilidade. Não é só no Afeganistão que os direitos de meninas e mulheres são retirados. Em qualquer lugar do mundo em que se permita a intervenção do fundamentalismo religioso no Estado, as meninas e as mulheres correm perigo.
 
Imagem de Capa: Portal Lunetas. Imagem interna: acompanha a matéria.
 
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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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