Mulher para casar
Nesse meu momento reflexivo, as recordações da minha infância, adolescência e juventude estão mais vívidas do que nunca, em alguns momentos algumas se fazem tão presentes que chego a ouvir as vozes e sentir os cheiros, é como se estivesse de fato revivendo os momentos…
Por Giselle Mathias
Algumas lembranças são muito agradáveis, outras nem tanto, mas as sensações me fazem perceber a importância de tudo que vivi, nem sempre feliz, nem sempre triste, mas com a certeza da vida e do quanto a todo momento procuro o real, o ser mais próximo de mim mesma, sem as aparências que nos são impostas, sem as ilusões valoradas para sobreviver a esse mundo que exige o isolar-se para acreditarmos na persona fantasiosa que criamos, para sermos aceitos nessa cultura da mercadoria, que nos transforma em objetos para a comercialização de nós mesmos.
Talvez eu sempre tenha sido uma rebelde, não que acredite totalmente nisso, pois apesar de questionar os padrões, tenho consciência que vivi e ainda vivo sob a sua imposição; compreendo hoje que tento combatê-los dentro de mim para que se tornem menos insidiosos e me façam aproximar cada vez mais da minha humanidade e da do outro,
reduzindo cada vez mais a perspectiva do enxergar-se só através dos espelhos e ampliando a possibilidade para conhecer, me relacionar e desfrutar do diverso, diferente, humano que me faz crescer e reconhecer toda a beleza da humanidade; amar, compreender e muitas vezes também me afastar do que irá me prejudicar, aprisionar e me moldar, só que agora sem as dores do não entender, do sentir-se rejeitada ou incompreendida.
Revivendo minhas memórias lembro de uma frase que ouvia muito quando criança sempre que estava próxima ao meu pai, na rodinha dos homens, nas festas que íamos: “aquela mulher é para casar, já aquela outra é só para diversão, não é muito séria”. Não entendia o que aquilo queria dizer, qual o seu significado e o quanto afetava as mulheres definidas como diversão.
Não que as valoradas para o casamento também não fossem ao fim sentenciadas à penas rigorosas, mas na minha infância até mesmo as mulheres condenavam àquelas que eram definidas como apenas uma “diversão”, o que para mim era muito cruel e injusto vê-las desprezando alguém que mal conheciam ou que sequer sabiam sobre seus sentimentos ou sobre o que passava em sua vida.
Acho que na verdade toda mulher um dia foi “para casar” e em outro momento aquela “para a diversão”; tenho consciência que em relação aos homens também há a valoração, principalmente quando se trata de relacionamentos; é comum serem definidos como um “bom partido”, um “bom homem”, “trabalhador” e têm aqueles que são “vagabundos”,
“sem um futuro brilhante”, “mulherengos” e tantas outras classificações que nos colocam, homens e mulheres, em estereótipos que ao final são muito aquém do ideal ilusório criado pelo processo cultural em que estamos inseridos, esse em que os exitosos são apenas aqueles que cumprem integralmente o modelo propagado ou ao menos aparentam sê-lo.
Tenho partilhado histórias de mulheres as quais afetam a todos nós, porque percebo que apesar de falar de uma, estou ao fim falando de todas, onde mesmo que muitas vezes nos neguemos a enxergar como nos colocamos no mundo a partir dos conceitos e padrões determinados, a todo momento os reproduzimos, assim como nas experiências diárias aqui retratadas.
Compreendo o quão complexo é aceitarmos nossas fraquezas e vulnerabilidades, principalmente em uma sociedade que exige e valoriza apenas os que ela determina como sendo os “fortes” e “bem-sucedidos”, através de conceitos distorcidos e baseados em aparências e falsidades.
Consigo entender e perceber a força que temos para sobrevivermos em um mundo culturalmente hierarquizado e opressor, mas aqui não quero falar das nossas conquistas ou da nossa força, mas quero exteriorizar o que ainda reproduzimos sem questionar e por isso acabamos por reforçar esse sistema que mercantiliza o humano. Tenho consciência do quanto é difícil ir contra a hegemonia dos padrões e modelos impostos em nossa sociedade.
Percebo a exclusão daqueles que lutam contra esse individualismo exacerbado e a lógica desse sistema que nos transforma em produtos, chegando inúmeras vezes ao extermínio não só da essência do indivíduo, mas da sua própria existência, porque o modelo de privilégios precisa ser mantido para não subverter a ordem dos donos do poder e a exploração e escravização do humano em benefício daqueles que se consideram os ungidos, seja pelo destino, pela falácia da meritocracia ou por uma divindade.
Recentemente recebi de minha mãe várias cartas que havia recebido de amigas quando era solteira, confesso que de alguma forma me surpreendi comigo mesma, pois depois de um casamento com dois filhos, no qual cedi e me submeti a todo o comportamento do padrão cultural exigido do feminino,
percebi que apesar do quanto questionava como o feminino era visto, a minha resistência em não ser instrumentalizada e vista como um mero objeto, em não aceitar que a minha humanidade fosse reduzida aos instintos maternos, ou aos desejos de outros como se a todo momento eu os provocasse, ou a ser uma mera propriedade, acabei por um longo período me tornando tudo o que não queria.
Não sei muito bem em que momento cedi à imposição do que é determinando como regra do “ser feminino” e passei a aceitar e me submeter ao que sempre havia combatido; ao contrário sempre questionei esse comportamento, me portava como uma rebelde e era assim que minhas amigas me chamavam, diziam que eu era incompreensível com meus namorados e que deveria ser mais tolerante e dócil, afinal todos os homens são iguais e eu deveria, simplesmente acatar o que eles são, ou ficaria sozinha.
Talvez tenha sido a pressão social para ter alguém e ser reconhecida, talvez o amor que sentia ou a crença que ele mudaria – pensamento tão comum a todas as mulheres – mas seja o motivo que for, reconheço que cedi, me entreguei e quase paguei com minha vida a escolha que fiz, pois de alguma forma tinha consciência da minha essência e da minha existência, e que elas não dependiam do outro. Minha decisão levou-me a dissociar o meu ser e essência, da minha própria vida.
Lembrei-me agora de uma amiga da minha mãe, mulher bem-sucedida, inteligente e que não se casara e nem tinha tido filhos. Eu gostava muito dela, tinha muitas histórias sobre viagens, amigos e amores, adorava ouvi-la contar sobre sua vida, mas sempre que ia embora os comentários sobre ela eram terríveis, todos a chamavam de “solteirona”,
que suas histórias não eram verdadeiras, que ela deveria ser muito chata por não ter casado, que não poderia ter dispensado um noivado ou um casamento, só se fosse louca, tudo só poderia ser invenção porque uma mulher jamais dispensaria um casamento e o mais provável era que teria sido dispensada por eles, era uma mulher largada. Isso me revoltava!
Como poderiam deduzir se algo era verdadeiro ou não a partir da premissa da ausência de um homem ao seu lado? Como poderiam desconsiderar a decisão dela em não querer se casar, de reputar sua solteirice a decisões e desejos do outro e não a sua própria?
Não compreendia nada sobre aquelas falas pejorativas e depreciativas acerca de uma mulher, de um ser humano livre. Não faço aqui apologia contra o casamento, apenas acredito que todo o ser humano deve ser respeitado a partir de suas escolhas, das contingências da vida, dos encontros e desencontros e, principalmente, de como se vê e de suas atitudes para consigo e com o outro e não a partir do que é determinado como um padrão único a ser seguido por todos.
Depois da minha separação me deparei com tantas situações, com pessoas diferentes e de lugares diversos, mas apesar de toda essa diversidade, observei a incrível similaridade nos comportamentos, seja o masculino ou o feminino, todos assimilados e reproduzidos sem que sequer fossem percebidos e questionados por quem os pratica.
A reprodução dos comportamentos padrões exigidos por nossa cultura é tamanha que hoje proliferam tutoriais “ensinando”, principalmente às mulheres, como se comportar para “prender” alguém, como esquecer aquele que não conseguiu “prender”, identificar a partir de determinadas atitudes se o outro quer ou não um relacionamento, e, ao invés de nos libertarmos do que nos oprime, sermos cada vez mais aprisionados por esse modelo que escraviza o humano, o qual possibilita a submissão e opressão de um sobre o outro.
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SABIDURAS DA MESTRA DONA FLOR DO MOINHO
E ia embora pra lá, e nós ia pro mato. Eu sou do mato por causa de minha vó.
Ela assim, ela não mexia com raiz, ela mexia com as alimentação do Cerrado, gravatá, pegava pequi, pegava baru, pegava mangaba, panhava cagaita, pegava um que eles chama de garirobinha…
Por Dona Flor, com organização de Juliana Floriano Toledo Watson
E era assim, jatobá ela panhava, que tem dois tipo de jatobá, né? Tinha o jatobá que dava no tempo do caju, que é o jatobá do campo, e tem o da montanha, que minha vó falava, ela falava pra gente jatobazão.
Então ela cuidava mais dessa parte. Ela ia colhê as fruta dela as flô e as folha.
Tudo o que eu via, enfiava no nariz. Minha vó falava pra mim:
_ Cê ainda vai enfiá um besouro no nariz.
Porque eu panhava flor e esfregava no nariz, pra cheirar se ela cheirosa e levava.
Flô, folha eu pegava já levava umas capanguinha que minha vó fazia, que era uma sacolinha de pano, ela fazia daquele jeito pra mim levá pro mato, eu levava.
Eu panhava as fôia e cheirava… Essa aqui serve pra remédio, botava dentro da sacolinha.
Levava pra casa e botava lá, secano. E ela brigava, porque secava, sujava o terreiro e tal, e eu falava:
_ Mas ah, vovó, isso aqui uma hora vai servir.
_ Pra que minha filha, Sua o terreiro dimais.
_ Mas quando sujá o terreiro eu vou varrê.
E quando foi um dia ela começou com uma espirradeira, tossindo, ela fumava sempre o cachimbo, que ela mesma fazia, o cachimbinho de barro. Aí falou:
_ Eu tô com a cabeça doendo, com meu nariz doendo, e não sei o que eu faço.
Eu fui lá e botei a panelinha de barro no fogo, peguei a negramina, peguei a folha de cagaita, peguei um trem chamado de imbu, é um que toma pra emagrecer, peguei um da folhona grande, que dá um cacho vermelho, tem uns que chama bate-caixa, tem uns que chama chapéu de couro.
Aí eu fiz o chá e ofereci pra ela. Ela:
_ Eu não vou beber não.
Que nunca tinha bebido aquilo, que podia dá nela uma diarreia. Eu falei:
_ Não, vovó, não dá à senhora remédio amargo não, bebe ao menos um pouquinho.
Aí panhei sabugueiro, flor de laranja, casca de laranja, fiz um otro chá e dei pra ela.
Aí ela tomou o chá de laranja, deitou, já acordou, já acordou sem espirrar.
Acordou. Eu enganei ela e dei a ela do otru, tomou. Pegou o algodão, foi mexer com o algodão, esqueceu da dor, falô:
_ Minha cabeça aliviou, num tá doendo mais.
_ Pois é, agora nós podia era pôr um paninho na testa, pra segurar, pra não doer.
Vou esquentar esse paninho, eu ponho um na senhora e otru em mim.
Porque eu tava espirrano demais da conta. Nesse tempo não era assim como é hoje, era tudo poeira.
Aí eu arrumei esses dois paninhos e pus um nela e otru ni mim.
E eu bebi do chá, porque toda vida eu gosto de chá, bebi e deitei. Fomos dormir e acordei eu e ela lavadinha de suor.
Aí agora ela começou a acreditar nos remédios do Cerrado, e daí pra cá foi eu e ela, mas ela nunca pegava nem folha nem flô pra levar pra casa, eu que pegava.
O dia que podia eu ficava mais ela, o dia que eu, não podia, eu ficava com minha mãe.

Florentina Pereira dos Santos, Dona Flor e Juliana Floriano Toledo Watson (organizadora) – Excertos do livro “O Partejar e a Farmacologia de Dona Flor – História e ensinamentos de uma mestra Quilombola”. Editora Avá, 2022.

Florentina Pereira dos Santos, Dona Flor
Nasceu em 2 de fevereiro de 1938, na fazenda Santa Rita, Alto Paraíso – GO.
Gestou 15 filhos/as e adotou mais 27 vidas. Como parteira, recebeu em seus braços 333 crianças.
Quilombola da Comunidade Moinho, neta de indígena, analfabeta, foi boia-fria, garimpeira, tropeira, feirante, agente comunitária de saúde e assistente social. Na comunidade, foi mestra quilombola, parteira e raizeira famosa.
Dona Flor morreu em uma quarta-feira, 9 de agosto de 2023, em Alto Paraíso de Goiás, aos 85 anos de idade.

Juliana Floriano Toledo Watson
Nasceu no dia 11 de abril de 1985, no Distrito Federal. Ativista, feminista, viu na ginecologia natural e autônoma um dos caminhos para o bem-viver.
Iniciou seus estudos na área em 2006,com grupos de mulheres, e seguiu trilhando a partilha desses saberes em rodas e oficinas pela América Latina, sempre em diálogo com erveiras, parteiras e raizeiras tradicionais.
Mora em Cavalcante -GO, no meio de um Cerrado em regeneração.
Atua como terapeuta em ginecologia, enematerapeuta, doula e assistgente de parteira.
Faz parte da coletiva Saúde com Amor, que produz com carinho, cuidado e respeito, medicinas naturais, e repassa alimentos extraídos ou cultivados pelas comunidades.
Pesquisadoras, é formada em Antropologia, e é mestra e doutoranda em Bioética.