MULHERES INDÍGENAS: PRECONCEITOS E DESAFIOS

Mulheres Indígenas: Preconceitos e Desafios

Indígenas falam sobre o preconceito contra seus povos e sobre a luta para garantirem espaço fora das aldeias

Por Isabela Alves no observatorio3setor

Segundo dados publicados pela Funai, a população indígena em 1500 era de aproximadamente 3 milhões de habitantes, sendo que aproximadamente 2 milhões estavam estabelecidos no litoral do país e 1 milhão no interior. Em 1650, esse número já havia caído para 700 mil indígenas e, em 1957, chegou a 70 mil, o número mais baixo registrado. De lá para cá, a população indígena começou a crescer.

De acordo com o último censo demográfico, realizado em 2010 pelo IBGE, o Brasil tem cerca de 896,9 mil indígenas. Deste total, 817,9 mil se autodeclararam indígenas no quesito cor ou raça do Censo 2010 e 78,9 mil residiam em terras indígenas e, embora tenham se declarado de outra cor ou raça (principalmente parda, 67,5%), consideravam-se indígenas de acordo com aspectos como tradições, costumes, cultura e antepassados. Ao todo, ainda existem 305 etnias, que falam 274 línguas.

Segundo o escritor inglês George Orwell, “a história é escrita pelos vencedores”. E a do Brasil é contada até os dias atuais da perspectiva dos colonizadores. Mas a realidade é que terras foram invadidas e milhares de indígenas foram mortos.

Estereotipados como selvagens, preguiçosos e seres não racionais, sem alma e sem fé, a opressão contra esse povo perdura até hoje. Os indígenas continuam lutando pelo direito à demarcação de terras, para preservar sua cultura e para combater ideias preconceituosas.

Neste cenário, as mulheres indígenas estão sendo uma peça fundamental. Cada vez mais, elas estão falando sobre a marginalização dos seus povos e toda a pressão social que sofrem. Elas se tornaram líderes para defender os seus direitos e políticas públicas para reivindicar a demarcação de terras, leis que as defendam da violência física, e para terem acesso a saúde e educação de qualidade, entre outros direitos básicos.

Conheça agora as histórias de duas lideranças  da causa indígena no Brasil

We’e’na Ticuna

We’e’na Ticuna pertence à aldeia Tukuna Umariaçu. Seu nome significa ‘onça que nada para outro lado do rio’.  Seu povo mora na zona de Tabatinga, no oeste do Amazonas, região do Alto Solimões. Eles são o povo indígena mais numeroso do país, com 46 mil pessoas, segundo o Censo 2010.

A história da sua aldeia é marcada pela violência, principalmente por parte dos seringueiros e madeireiros, que, além de invadirem o território, roubam alimentos e poluem os rios. Por ver as dificuldades que seu povo passava, ela conta que já cresceu ativista.

“A dificuldade nos ensina a enfrentar qualquer obstáculo e nos dá forças para conquistar qualquer ideal. Nós somos conhecidos como um povo da resistência. O meu povo já teve muito sangue derramado, mas vamos lutar até o fim para que os nossos direitos sejam respeitados”, afirma.

Como mulher indígena, ela sente que a invisibilidade é ainda maior. Durante a adolescência, precisou sair da aldeia para estudar. A transição foi algo tão impactante, que ela tinha medo até de se comunicar com as pessoas.

No entanto, a ativista não desistiu dos seus objetivos, porque sempre acreditou que era necessário buscar conhecimento e lutar pela causa indígena ocupando diversos espaços. Hoje, aos 30 anos, ela é formada em Nutrição e Artes Plásticas. “Sofri preconceito, passei fome, mas não deixei de lutar pelos meus ideais. Hoje eu sou vista como um espelho para outras mulheres do meu povo”.

We’e’ena reconhece que as violações contra os povos indígenas sempre ocorreram no Brasil, porém, com o novo governo, as violações se agravaram. Em um dos seus primeiros atos na presidência, o presidente Jair Bolsonaro decretou o esvaziamento das funções da Fundação Nacional do Índio (Funai), ao destinar ao Ministério da Agricultura uma das principais atividades executadas pelo órgão indigenista nos últimos 30 anos: a identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas no Brasil.

Pressões sociais e as limitações de território culminam em diversos problemas psicológicos e físicos para os indígenas. A diferença na taxa de suicídios entre a população em geral e a população indígena é um exemplo disso. Enquanto a taxa de suicídios no Brasil é de 5,8 por 100 mil habitantes, a taxa entre indígenas é de 15,2 por 100 mil habitantes. Só em 2017, foram 128 suicídios de indígenas no país, segundo o relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, divulgado este ano pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

O Amazonas e o Mato Grosso do Sul são os estados que concentram mais da metade dos casos de suicídio entre indígenas em aldeias e nas cidades. No Amazonas, foram 54 mortes do tipo e, no Mato Grosso do Sul, foram 31, apenas em 2017.

“Quando o indígena vê que seu povo está morrendo e não há mais solução, ele se recolhe, faz a despedida da família e se mata. Alucinações, medo, a vergonha de perder a identidade, não ter espaço e nem voz são motivações para o ato”, explica We’e’ena.

Apesar de tudo, We’e’ena não perde a esperança. Contra todos esses desafios, o povo indígena continuará resistindo”, conclui.

Walelasoetxeige Surui

Walelasoetxeige Surui pertence ao povo Suruí e sua aldeia está localizada em Rondônia. Seu nome significa “mulher inteligente” e a menina faz jus ao nome. Ela passou no vestibular antes mesmo de completar o ensino médio. Com a nota no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ela foi aprovada em Direito, na Universidade Federal de Rondônia (Unir).

Na época, ela precisou recorrer à Justiça para se matricular no curso, já que ainda não possuía o certificado de conclusão do ensino médio.

Ela conta que, durante o ensino fundamental, precisou sair da aldeia para ter acesso a uma educação de qualidade. Quando foi para a cidade, estava dividida entre dois mundos.

“O fato de ser mulher traz várias barreiras. Por ser mulher e indígena, as barreiras são ainda maiores. O indígena é muito estereotipado e sofre muito preconceito por ser quem é. As pessoas te questionam o tempo todo sobre ter celular e até por que você usa roupas. É como se ali não fosse o seu lugar”, desabafa.

O fato de morar na cidade não a faz ser menos indígena. Pelo contrário, ela acredita que é necessário ocupar espaços para causar impacto social. Além de estudar, ela possui dois empregos. Um deles é na Defensoria Pública da União (DPU), onde a jovem defende as violações de direitos humanos contra a população indígena.

Um dos últimos casos que ajudou a resolver foi o da invasão a uma terra indígena em Rondônia no dia 14 de janeiro deste ano. Os invasores adentraram a região da aldeia e desmataram uma faixa de aproximadamente 20 km. Segundo relatos, após os Uru-eu-wau-wau expulsarem os invasores, o chefe da invasão ameaçou voltar com mais 200 invasores e disse que, se os indígenas resistissem, eles matariam crianças para os indígenas sentirem dor.

“Com as suas declarações preconceituosas, o presidente Bolsonaro acabou legitimando essas violações de direitos humanos contra os povos indígenas. O presidente da Funai conversou com os garimpeiros e madeireiros, porém o caso atualmente continua parado”, relata com tristeza.

Para ela, a invisibilidade indígena é grande no país, mas isso lhe dá mais forças para continuar lutando. Segundo Walelasoetxeige, um movimento que vem crescendo é o das mulheres indígenas que estão se fortalecendo e ajudando umas às outras.

Uma de suas inspirações é a deputada federal Joênia Wapichana (Rede-RR), primeira indígena eleita para o cargo no país. Além de vencer a eleição, Joênia venceu o Prêmio das Nações Unidas de Direitos Humanos no ano passado. Entre as pessoas e organizações que já receberam tal prêmio estão o ativista político norte-americano Martin Luther King, o ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela e a ativista paquistanesa Malala Yousafzai.

“É muito bonito ver esse movimento das mulheres se ajudando e dando força uma para a outra. Ainda há muito o que lutar, mas vamos continuar na luta pelos nossos direitos de cidadãos brasileiros e celebrar essas conquistas”, conclui.

Fonte: https://observatorio3setor.org.br/carrossel/resistencia-os-desafios-das-mulheres-indigenas-no-brasil/

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Observando a imagem que a revista Xapuri selecionou para ilustrar uma crônica minha, não deixei de perceber a beleza e a força que ela emanava. A imagem era uma fotografia, de Eliane Fernandes,  que mostrava duas indígenas Ashaninka, entre elas a agente de saúde Dora Piyanko Ashaninka.

Por Jairo Lima

Isso me fez pensar nessa figura, “mulher indígena”, na contemporaneidade indígena do Aquiry e o assim chamado “papel” que ocupa em sua comunidade e nos processos de interações e interlocução social com o mundo do Yura.

É muito comum que, ao ouvirmos falar da mulher indígena, somente façamos a ligação mental com os afazeres ditos “femininos” em uma aldeia, como cuidar dos filhos, preparar alimentos, cuidar da casa. Visão enganosa que podemos comparar com a ideia tradicional e conservadora de nossa sociedade, que ainda insiste no termo cafona e limitante do papel da mulher, enquadrando-a tão somente como “do lar”.

– Só que não, cara pálida!

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis
Mãe Kaxinawa – Foto: Nicole Algrantti

O assim chamado “universo feminino indígena” é muito amplo, e sem o qual, o que conhecemos como cultura indígena não teria a riqueza e profundidade que estamos acostumados a ver. Foi para as mulheres que a sagrada jiboia Yube ensinou os mistérios e os segredos dos kene e dos mitos do seu povo Huni Kuin. O povo Puyanawa não teria a técnica da pesca tradicional se não fosse graças a uma mulher.

O feminino em tudo se faz presente na cultura indígena e isso fica claríssimo quando analisamos a expressão máxima do sagrado indígena: ayahuasca. Resultado mágico da união da força do cipó com os encantos da folha. E aí que se mostra a força feminina que, representada pela folha, é responsável por revelar os mistérios sagrados da cultura ancestral e dos caminhos espirituais que oyuxin deve seguir.

As chamadas “artes indígenas” são impregnadas do saber e da energia tradicional

Eu, como me considero extremamente espiritualizado e dou muito valor às simbologias, faço questão de só usar kene kuin.feminina, emanadas a partir de sua manifestação física. Por exemplo, as famosas e populares pulseiras e colares Huni Kuin (Kaxinawá) feitas de miçangas possuem uma peculiaridade interessante, quando feitas por uma mulher são chamados kene kuin(desenho verdadeiro) e que traz uma energia especial e verdadeira dos ancestrais.

Quando feitas por homens, são conhecidos como dami (desenho qualquer, coisa, etc), que são bonitos e são da cultura, mas não tem a energia espiritual e sagrada dos ancestrais. Vale citar que outros povos indígenas locais tem, de modo geral, a mesma regra.

E o que dizer das pinturas corporais? Lindas e cheias de simbologias.

Tive inúmeras oportunidades de ter meu corpo pintado de desenhos tradicionais por mulheres de diferentes povos, e testifico que este é um processo único que vai nos remetendo, a cada traçado pintado em nossa pele, às origens e logos universais, bem como à nossa união com a força da natureza, com a qual convivemos enquanto viventes e com a qual nos harmonizaremos quando sob esta formos sepultados.

Uma prática que vem sendo recuperada nas aldeias é o da parteira tradicional. Figura importante e que liga a criança à tradição de seu povo logo ao nascer.

Os movimentos de fortalecimento ou recuperação da cultura tradicional seriam incipientes, se não contasse com o engajamento delas. Temos vários exemplos deste engajamento, espalhados pelas aldeias do Juruá. Um que acompanho de perto é o lindo trabalho desenvolvido pela Vari Puyanawa que, em breve, estará publicando suas pesquisas e “estudos” espirituais sobre kene tradicionais inspirados pelas mirações do Uni.

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Jovem Yawanawa. Foto: Sérgio Vale

Outros papéis comunitários vêm sendo ocupados pelas mulheres: professoras, agentes de saúde, presidentes de associações e cooperativas, entre outros.

Anos de convivência com os povos indígenas do Aquiry muito me ensinaram, principalmente a respeitar o papel da mulher e sua importância na dinâmica e no funcionamento de uma aldeia.

É por isso que sempre digo para os que não conhecem a cultura indígena: no fim das contas, acho que quem manda numa aldeia são as mulheres, pode ter certeza.Claro que, por ser homem, sempre fui excluído dos momentos em que as mulheres se dirigem aos roçados para colher macaxeira ou banana. Mas, pelos relatos de minhas companheiras indigenistas que já acompanharam estes momentos, é onde se pode aprender muito sobre a cultura e seus processos de tomada de decisão.

O mundo está sempre em transformação social e cultural, e claro, as comunidades indígenas, à exceção dos povos isolados, não estão imunes a estas transformações. Só que estas transformações, além de novos desafios, também vem trazendo ventos de mudança e expansão do papel da mulher neste universo social e cultural.

Temos muitos exemplos disso.

É cada vez mais comum esta participação nos processos de tomada de decisão e representatividade do movimento indígena, bem como de outros espaços ditos “de poder” que, até bem pouco tempo, tinham a figura masculina como referência.

Palavras como pajé, cacique, liderança, são só algumas que deixaram de se referir exclusivamente a atividades do homem. Pelo menos aqui no Aquiry. Assim, temos figuras queridas e fortes que assumiram papéis de referência em suas comunidades e em instituições, dando, além de um brilho e energias diferentes, um toque especial no trato da questão indígena.

São figuras como a Cacique Enir Shanenawa, que resolveu criar uma aldeia, a Shanekaya, com o objetivo de fortalecer a cultura do seu povo e não permitir a interferência dos maus costumes dos nawa, como o uso de bebidas alcoólicas. Esta comunidade hoje é referência em organização para seu povo, e vem se destacando na região como um local que cada vez mais recebe visitas e onde são realizadas atividades ligadas ao movimento indígena local.

E como não citar a coordenadora da Coordenação Regional Alto Purus, em Rio Branco, Maria Evanízia Puyanawa, que conseguiu recolocar em pleno funcionamento esta unidade da FUNAI, que praticamente estava inoperante e deteriorada.

E como não se encantar com o vídeo “Nixpu Pima – Rito de Passagem Huni Kuin”? Aqui no Juruá acostumamos com a presença e as palavras fortes de lideranças como Lucila Nawa, na luta pela regularização fundiária de sua terra; e da Edna Shanenawa, que vem encampando e lutando pelas políticas de gênero e fortalecimento dos conhecimentos do artesanato indígena, através da Associação de Artesãs e Artesãos do Vale do Juruá.videasta Pãteani Mara Vanessa Huni Kuin, apresentando uma visão única e rica da cerimônia de batismo tradicional de seu povo?

Não poderia deixar de citar a prof Francisca Yaka Shawãdawa, que iniciou sua trajetória no magistério indígena sob meus cuidados, há dezesseis anos atrás, e hoje é a presidente da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), referência na luta pelos direitos dos professores e pelas políticas voltadas à educação escolar indígena.

A presença e trabalhos cada vez mais reconhecidos e procurados das pajés Yawanawá  contribuíram para a quebra de paradigmas nesse nosso mundo em transição, onde o papel da mulher no assim chamado “sagrado indígena” assumiu nova posição. E, ao contrário do que acham, os assim chamados “puristas”, este movimento deu nova vida a este povo e serviu de referência para que outros passassem a considerar cada vez mais esta participação e protagonismo.

A saúde indígena do Juruá recebeu de braços abertos a médica Gilda Maria Yawanawá, primeira médica indígena do Acre, nascida e criada na Terra Indígena Rio Gregório e que, através de parcerias de seu povo foi para Cuba para cursar medicina e que, tendo retornado, atuará no atendimento de saúde aos povos indígenas do estado.

Citei estes exemplos, e poderia citar muitos outros, só aqui no Aquiry, isso sem contar no restante do país onde várias lideranças mulheres se destacam.Um movimento crescente, e que está se consolidando cada vez mais, é o intercambio e participação em diversas atividades no Brasil e no exterior de mestras e aprendizes da tradição, divulgando e apresentando a cultura de seus povos, sempre com alegria e com a energia cativante de sua presença. Entre estas mensageiras, não poderia deixar de citar a filha do saudoso Inkamuru, Ayani Huni Kuin.

Recentemente estive em Rio Branco, em uma série interminável de reuniões e, numa destas, reparei estar “cercado” de mulheres em destaque nos diferentes nichos de sua atuação. Foi um pensamento de relance, mas notei que estas se dividiam, em igual quantidade, entre indígenas e indigenistas. Lindo.

Não posso negar que me senti minoria, juntamente com outros colegas do sexo masculino, mas, ao contrário do sentimento de disputa, senti um algo reconfortante de saber que estas mulheres estavam ali, e que isso, pelo menos para mim, significava que teríamos sucesso no que estávamos discutindo.

Sempre achei a mulher indígena uma criatura linda, imbuída de uma beleza que transcende o material.Ah, sim! Não poderia deixar de citar que muitas destas mulheres são mães, esposas, estudantes, amigas, avós, etc. E sempre observei que, independentemente do que estejam desenvolvendo, jamais se esquecem destes compromissos familiares, sociais e culturais em que estão inseridas.

Sua presença nos ambientes nunca passa despercebida, pois inunda o espaço com a energia suave e colorida de seu yuxin. Carregando sobre si toda a sabedora e força entregues a seu ser pelos seres fantásticos e sagrados dos antepassados.

Não gosto da palavra “guardião” para classificar qualquer conhecedor da tradição indígena, por isso creio ser a mulher indígena, em vez de guardiã, a representação viva da força ancestral do seu povo e sem a qual este não teria razão de existir.

Não poderia terminar minha reflexão sem citar outra “categoria” de mulheres que, por seu engajamento, são consideradas como parte da cultura. Falo das indigenistas que dedicaram ou dedicam suas vidas ao trabalho junto às comunidades.

Pessoas maravilhosas, representadas pela figura guerreira e incansável da querida e eterna professora de indigenismo, Dedê Maia, que mesmo após ultrapassar a idade de aposentadoria, continua envolvida em projetos e lutas em prol dos direitos e chamada “agenda indígena”, e com a qual tenho a felicidade de cruzar, vez ou outra, em diferentes ambientais de trabalho.

Diferentemente de outras crônicas, nesta não citarei frase de algum pensador – ou pensadora – sobre o tema que discorri. Decidi isso simplesmente porque não acredito haver pensador ou filosofo que seja capaz de definir a mulher e, no caso em questão, a mulher indígena com toda a honra e louvores que esta merece.Finalizo atentando que iniciamos o mês chamado “outubro rosa”, dedicado à campanha que nos impele a refletir e contribuir, de alguma maneira, para a conscientização sobre a prevenção e o diagnostico precoce do câncer de mama. Não poderia me furtar de citar isso.

Notas do autorAquiry – Nome original do Estado do Acre. Yura – Não-índio

Jairo Lima  : Indigenista acreano. Escreve e publica crônicas semanais. Para ver mais e conhecer melhor o belo trabalho do Jairo, visite o blog Crônicas Indigenistas.

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis
Mulheres Ashaninka – Foto: Eliane Fernandes
 

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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