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Lula entendeu-se com o país e consigo mesmo  

Lula entendeu-se com o país e consigo mesmo

Quem passou a noite de quinta-feira no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e conversou com aliados e interlocutores próximos de Lula sabe duas coisas: a)  a decisão de prender Lula provocou uma indignação profunda; b) a exigência de que ele se apresentasse por conta própria em Curitiba, as 17 horas desta sexta-feira, era vista como inaceitável.

Por Paulo Moreira Leite no Brasil 247 

Conversei dirigentes sindicais veteranos e lideranças do MST, parlamentares do PC do B e dirigentes PSOL, deputados do PT e sindicalistas da CUT. Com mudanças de vocabulário e tonalidade na voz,  todos estavam convencidos de que seria uma forma de humilhação, uma maneira de obrigar Lula a se curvar perante a autoridade de Sérgio Moro — a qual todo cidadão comum pode ter obrigado de  acatar, mas não é obrigado a reconhecer.

Qualquer que fosse a opinião inicial de Lula sobre o caso, a decisão desta manhã confirma um dos traços principais de seu método de liderança, que tanto tem a ver com sua história no sindicato. Ele passou a noite de ontem na mesma entidade no qual teve início, há 40 anos, o principal projeto  de combate a desigualdade da história do país, poucas horas depois de ter sido convocado por Sérgio Moro para se apresentar à sede da Polícia Federal de Curitiba.

Numa pequena sala na ala reservada ao presidente da entidade, a qual se têm acesso após atravessar um pequeno labirinto de divisórias de madeira laminada, ali compareceram Dilma Rousseff e o presidente da CUT, Vagner Freitas, Fernando Haddad e Luiz Marinho, ministros do governo Lula, e também os candidatos a presidente Guilherme Boulos, do PSOL, e Manuela Dávila, do PC do B.

Se naquele ambiente as conversas eram mantidas com voz baixa, no quarto andar formavam-se rodas em torno das mesas do restaurante da Branca, que substituiu o antigo Bar da Tia,  uma cantina que já funcionava ali na década de 70, quando recebia operários cansados da labuta pesada das fábricas — muitos deles, aos poucos, se transformaram nas lideranças que se tornavam referência em todo o país.

Demonstrando que havia acompanhado com atenção redobrada os debates da tenebrosa sessão do STF que terminou com a derrota do artigo 5 LVII da Constituição, uma liderança ligada a área de segurança pública fez um comentário amargo sobre Luiz Roberto Barroso, o ministro que sugeriu que a prisão em segunda instância em nada iria afetar o cotidiano da população pobre das grandes cidades, vítima preferencial da violência policial.

“Eu sei por experiência própria que isso não é verdade. E acho que ele também deveria saber. A pressão para reprimir mais, prender mais, sem ligar para os direitos das pessoas pobres, sem defesa alguma, já está aumentando e vai aumentar ainda mais”.

Encostado no balcão a espera de um salgadinho, um sindicalista era capaz de repetir de memória os principais debates do julgamento, com frases literais, dizendo a um interlocutor: “temos de achar uma esperança. É preciso encontrar uma saída”. Após uma pausa: “sempre existe uma saída”.

Entre trabalhadores, militantes e lideranças sociais, em ar compenetrado, num carro de som instalado na rua em frente a entrada principal da entidade, o ambiente era outro. O líder do MST João Paulo Rodrigues arrancou aplausos de uma massa com ânimo para bater palmas e gritos a plenos pulmões depois da meia noite, quando revelou que nesta sexta-feira os movimentos sociais planejavam fechar 100 estradas com pneus queimados.

A platéia ficou ainda mais animada quando João Paulo disse que, em 17 de abril, o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária, o MST também vai combater “o latifúndio da TV Globo”.

Saindo de uma conversa com Lula, a deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ), fez um belo discurso para denunciar a perseguição a ao ex-presidente mas fez questão de registar que “o brilho nos olhos” do Lula.

Preso e torturado durante a ditadura militar, o ex-deputado Adriano Diogo falava de suas impressões após um encontro com Lula:

— Toda pessoa que sabe que vai ser presa fica calculando o que pode lhe acontecer, minuto a minuto. Não pode ser diferente, é claro. Mas Lula não demonstra a menor preocupação. Fala de tudo e quer saber de tudo. Está mais preocupado com o país do que com ele. Nunca vi isso.

A permanente serenidade que Lula exibe nestes tempos tão difíceis para todos — inclusive para ele — costuma ser explicada pela certeza de que nada poderá mudar seu lugar na História. Têm certeza das vitórias que obteve e do papel que desempenhou. Sem perder a capacidade de ouvir, entendeu-se com o país e consigo mesmo.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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