Procura
Fechar esta caixa de pesquisa.

NEFERTITI, A SACERDOTISA QUE FOI ADORADA COMO DEUSA

Nefertiti, a sacerdotisa que foi adorada como deusa

A vida e a morte da rainha que liderou o maior império do século 14 a.C.

Por Cláudia de Castro Lima/Aventuras na História

Em 6 de dezembro de 1912, uma equipe arqueológica da Sociedade Oriental Alemã encontrou o famoso busto da rainha Nefertiti, localizado na oficina do escultor Tutmés, na cidade de Amarna, Egito. O busto de 50 centímetros de altura é considerado uma obra inacabada – a prova está no olho esquerdo da escultura, que não tem a córnea incrustada. A peça, uma das mais copiadas do Egito Antigo, faz parte da coleção do Neues Museum de Berlim.

Poucas vezes na história da humanidade a pessoa mais poderosa do mundo foi uma mulher. No Egito, no entanto, uma bela rainha liderou o maior império do século 14 a.C.

Era uma época de prosperidade e riqueza, graças às relações comerciais com os vizinhos da Mesopotâmia e da Ásia Menor. Era também um tempo de paz, quando a diplomacia egípcia evoluiu a ponto de surgirem inacreditáveis alianças com povos que antes só queriam saber de guerra, como o reino Mitani.

Mas por trás de toda essa calmaria uma tempestade estava se formando.

Aos 16 anos de idade, Amenhotep IV assumiu a co-regência ao lado do pai, Amenhotep III, que já estava no 28º ano de reinado. Em 1352 a.C., com a morte do velho, o rapaz herdou o poder sozinho. Quatro anos depois, sem maiores explicações, o novo faraó pirou. Mandou substituir o culto ao deus Amon-Rá, o mais importante da época, pela adoração ao deus sol Aton, representado pelo círculo solar. Trocou seu nome para Akhenaton (que significa “a glória de Aton”) e espalhou que ele era o enviado do novo deus à Terra.

Ordenou a construção da cidade sagrada de Akhetaton (conhecida hoje como Tell El-Amarna). E para lá transferiu a capital do Egito, para desespero dos sacerdotes e desentendimento geral da nação. Ao anunciar todo esse pacote de mudanças, avisou: “Ninguém, nem mesmo minha esposa, me fará mudar de ideia”.

A rainha 

A influente esposa citada nos discursos do faraó – fato raríssimo para a época e que mostra a importância da rainha – era Nefertiti. Não se sabe exatamente quando nem onde Nefertiti nasceu.

Nefertiti (que significa “é chegada a bela”) só passou a existir oficialmente após seu casamento com Amenhotep IV. Ela tinha 14 anos. Foi quando começou a aparecer nas inscrições em estelas e talatats, pequenos blocos de pedra na base das construções egípcias. São comuns estelas nas quais Nefertiti aparece ao lado do marido com suas filhas (eram seis ao todo). Cenas inéditas de carinho e intimidade familiar são mostradas.

Nefertiti, a sacerdotisa que foi adorada como deusa
O faraó Amenhotep IV / Crédito: Wikimedia Commons

Crescimento atípico

O crescimento atípico da rainha é normalmente associado ao seu papel na nova religião criada pelo marido. Pela primeira vez, o deus egípcio era único. Até então, a religião do Egito era baseada no culto a diversos deuses, cujos representantes na Terra eram os próprios faraós. A origem da crença remonta à Pré-História, quando tribos locais adoravam deuses e animais. Vários deuses eram cultuados, mas um de cada vez – o que era conhecido como monolatria.

CONHEÇA NEFERTITI, A SACERDOTISA QUE FOI ADORADA COMO DEUSA
Amenhotep IV e Nefertiti com os filhos / Crédito: Wikimedia Commons

Quando ainda se chamava Amenhontep IV, o faraó já dava indícios de sua nova fé: começou a levantar templos para Aton na cidade de Karnak, lugar de adoração de Amon-Rá. Até que oficializou o culto ao disco solar e ordenou o abandono do antigo deus. No quinto ano de seu reinado, começou a construção da nova capital, Akhetaton, que ficou pronta três anos depois. A relação com os outros deuses, a partir de então, estava rompida. Seria como se alguém hoje proibisse os católicos de adorar seus santos.

“Nefertiti contava com grande empatia e carisma entre a população, dando alguma popularidade ao culto de Aton, combatido pelos poderosos sacerdotes egípcios, que preferiam os deuses tradicionais”, afirma a historiadora Deborah Vess, da Universidade de Geórgia, nos Estados Unidos. “Sua beleza, combinada com o poder que ela adquiriu, tornou-a uma das mulheres mais importantes da história”, diz. As outras rainhas foram simplesmente rainhas. Nefertiti não: ela virou uma deusa encarnada.

Perseguição religiosa

Akhenaton promoveu a si mesmo e sua esposa à posição de deuses vivos. No início, o deus-sol Aton era representado com corpo humano e cabeça de falcão. Com o passar do tempo, essa representação foi substituída por imagens da família real, que estava sempre recebendo sagradas emanações do disco solar. “Houve uma simplificação na hierarquia dos deuses do Egito: só subsistiram as figuras de Aton e do rei, que era o único meio de acesso à esfera divina”, afirma Anna Cristina. “Os cultos passaram a ser direcionados à família real, pois só ela conhecia e podia cultuar o deus.” Nessa nova liturgia, Nefertiti encarnava todas as divindades femininas que os egípcios estavam acostumados a cultuar.

Tudo isso, porém, teve também uma motivação política. O poder do Egito, um reino em que religião e política se misturavam, antes era concentrado nas mãos dos sacerdotes de Amon. Na nova religião, passou a ser exclusivo do casal real. Desde o início, as mudanças atraíram a oposição dos poderosos sacerdotes. “Quem foi esperto e mudou de religião teve seu emprego garantido”, diz o egiptólogo Antônio Brancaglion Júnior, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Quem não o fez acabou perseguido, preso e banido.”

A insatisfação chegou à nobreza, incomodada pela extrema concentração de poder do faraó e de sua família, e finalmente ao povo, afetado pela construção da nova cidade – o que levou ao aumento de impostos e inflacionou os preços.

Além disso, o faraó não tinha a menor vocação para a guerra ou a política. Durante seu reinado, o Egito perdeu seus territórios na Ásia para os hititas, o que diminuiu a coleta de ouro e de impostos. Diante das críticas, Akhenaton reagiu com mais perseguição religiosa e enviou mensageiros a Tebas e Mênfis para destruir qualquer menção a outros deuses.

Viúva e poderosa

Esse era o clima em 1336 a.C., quando Akhenaton morreu, provavelmente de causas naturais, aos 34 anos – a média de vida dos egípcios, mesmo entre a elite, era de apenas 35 anos. Nessa época, as imagens de Nefertiti mostram-na usando paramentos típicos de faraó, como coroa e bastões. Para a maioria dos especialistas, o fato sugere que ela teria assumido o trono do Egito – primeiro ao lado do marido e, depois da morte de Akhenaton, como sua sucessora. “Embora o assunto permaneça controverso, atualmente a opinião de que ela tenha governado como rainha única é cada vez mais aceita”, diz Brancaglion.

Gravações em pedra encontradas em escavações no século 19 em Amarna mostram que, após a morte de Akhenaton, o Egito foi governado por um (ou uma) faraó de nome Nefernefruaton – que seria, na verdade, Nefertiti.

Para Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades Egípcias, não restam dúvidas sobre o poder acumulado por Nefertiti após a morte do marido. “As imagens de Amarna mostram a rainha sozinha, liderando procissões religiosas e até à frente de exércitos, posições reservadas exclusivamente aos faraós”, diz Zahi.

NEFERTITI, A SACERDOTISA QUE FOI ADORADA COMO DEUSA
Busto de Nefertiti. Museu Egípcio de Berlim: Neues Museum.

Críticos dessa tese chamam a atenção para o fato de que o sucessor de Akhenaton revogou quase tudo que o faraó fez durante seu reinado – o culto a Aton foi extinto e os antigos deuses foram retomados menos de cinco anos após sua morte. Por que Nefertiti abandonaria a religião do marido?

Anna Cristina tem algumas hipóteses. “Akhenaton deixou o Egito em crise. Após sua morte, vários setores da sociedade se revoltaram contra o trono. O retorno ao culto a Amon-Rá deve ter sido uma forma que a nova faraó encontrou para contar com o apoio do maior número possível de pessoas e pacificar o país”, diz. Isso justificaria o fato de Nefertiti ter trocado seu nome e tentado romper os vínculos com o antigo regime. “Foi uma decisão importante, tomada por uma mulher que tinha exata noção de seu papel na política do Estado.” Brancaglion concorda que a motivação de Nefertiti deve ter sido política. “Ela provavelmente percebeu que a nova religião estava levando o Egito ao colapso”, afirma.

Apesar disso, Nefertiti não conseguiu deter a crise religiosa e social que levou o Egito a um período de instabilidade política. Depois de apenas três anos de poder, ela teria morrido em situação nunca esclarecida. O Egito passou a ser governado pelo jovem Tutancâmon, que assumiu com cerca de 9 anos e morreu aos 19 anos.

Fonte: Aventuras na História Capa: New Yorker

Nenhuma tag para este post.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

CONTATO

logo xapuri

posts relacionados

REVISTA