NIÈDE GUIDON: UMA VIDA EM DEFESA DA SERRA DA CAPIVARA

NIÈDE GUIDON: UMA VIDA EM DEFESA DA SERRA DA CAPIVARA

NIÈDE GUIDON: UMA VIDA EM DEFESA DA SERRA DA CAPIVARA

Depois de muitas décadas fazendo suas longas caminhadas pelo Parque Nacional da Serra da Capivara, aos 92 anos, completados no dia 12 de março, a paulista de Jaú, a arqueóloga, professora e historiadora que revolucionou a teoria do povoamento do continente americano, Niède Guidon, foi embora do espaço físico deste mundo. 

Por Zezé Weiss

NIEDE GUIDON 2018 23.jpg
Foto: Paulo Vitale/Veja

Formada em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado na Universidade de Paris, a mulher que morava com seus cachorros em uma casa aos fundos da Fumdham, em São Raimundo Nonato (PI), deixou sua longa vida dedicada aos estudos e à proteção da Serra da Capivara, no sertão do Piauí. 

Foi com base em seus estudos na Serra da Capivara que a arqueóloga passou a contestar a teoria arqueológica estadunidense de que a única via pela qual humanos teriam chegado às Américas foi pelo estreito de Bering. A teoria aponta que a passagem, então congelada, conectou a Sibéria e o Alasca há aproximadamente 13 mil anos. 

Esta tese, bastante sólida no mundo arqueológico, explica uma das formas pelas quais o continente foi ocupado. Mas, para Niède, ela não é a única. Em suas pesquisas na Serra da Capivara, a arqueóloga encontrou vestígios de presença humana que, segundo ela, datam de 60 mil a 100 mil anos. 

Em 2023, o jornalista Matheus Lopes Quirino escreveu para a Mongabay, onde explica a chegada de Guidon ao Piauí:

“Niède Guidon ouviu falar em São Raimundo Nonato pela primeira vez há 60 anos, enquanto trabalhava no Museu Paulista da USP, onde fez graduação em História.

À época, montava uma exposição com fotografias de pinturas pré-históricas achadas em Lagoa Santa, Minas Gerais, consideradas as únicas do tipo no Brasil. Foi ao receber no museu o então prefeito de Petrolina que Guidon teve contato com a existência de ‘uns desenhos de caboclos’, nas palavras do homem, parecidos com os que estavam na mostra – as fotografias retratavam um abrigo sobre rochas na Serra da Capivara, no Piauí.

Guidon se animou com o que viu e, nos preparativos para conhecer o lugar, foi pega por vários contratempos. Entre eles, o fatídico ano de 1964, primeiro da Ditadura Militar que assombrou o país, levando a pesquisadora para o exílio na França – país onde, anos antes, tinha feito uma especialização em Arqueologia Pré-histórica pela Sorbonne. 

A arqueóloga só chegaria a São Raimundo Nonato em 1973, depois de oito anos em Paris. A partir daquele ano, pelo resto de sua vida, Niède Guidon seria conhecida por todos na cidade como “doutora”. Ela mudaria o destino não só de muitos habitantes da região, mas os rumos da arqueologia brasileira com muita persistência – e brigas enérgicas.”

DESAFIANDO O CONSENSO NA ARQUEOLOGIA 

niede 2 53357582 scaled
Fonte: FUMDHAM/360Meridianos/ Reprodução

Em uma palestra feita durante a exposição científica Revolução Genômica no Parque do Ibirapuera em 2008, Guidon explicou acreditar que o Homo sapiens atravessou o oceano Atlântico vindo da África, uma origem diferente, portanto, da dos povos asiáticos, que teriam atravessado o estreito de Bering.

Segundo Niède, por conta de uma grande seca, os povos africanos teriam ido para o mar em busca de comida, e acabaram sendo empurrados oceano adentro por tempestades. “O mar estava então 140 metros abaixo do nível de hoje, a distância entre a África e a América era muito menor e havia muito mais ilhas”, argumentou Niède na época, segundo registro da Revista Fapesp. 

Em seu entendimento, os vestígios das pinturas e dos esqueletos encontrados no Piauí, bem como os que na década de 1970 foram descobertos em Minas Gerais, têm características morfológicas de povos africanos e aborígenes. Segundo ela, o Homo sapiens teria chegado ao continente há pelo menos 100 mil anos, vindo da África.

No Piauí, Niède encontrou vestígios de fogueiras no sítio arqueológico do Boqueirão da Pedra Furada, que acredita datar de 32 mil anos AP (antes do presente), tendo publicado na revista Nature um artigo sobre o tema, em 1986. Com esse artigo, a arqueóloga colocou em xeque a chamada Teoria de Clóvis – que data o povoamento da América há cerca de 12 mil anos A.P., por meio da travessia do Estreito de Bering. 

Até hoje suas teorias são contestadas, principalmente pela arqueologia norte-americana, mas seguem ganhando consistência, sobretudo a partir das descobertas nos campos da genética, da bioquímica e dos processos de datação propostos por ela. 

UM PARQUE NACIONAL NO MEIO DO SERTÃO

b
Foto: Parque Nacional Serra da Capivara

“Nos primeiros anos aqui [na Serra da Capivara], percebemos que a pobreza que reinava na região nunca ia permitir proteger o legado pré-histórico do parque. Uma pessoa com fome só pensa como vai resolver o problema imediato”, conta Guidon na matéria publicada pela Mongabay.

Segundo Matheus Lopes Quirino, ela relembra o principal entrave de quando chegou ao município de Coronel José Dias, vizinho a São Raimundo Nonato:

“A pesquisadora tinha à sua frente a dura realidade da vida dos sertanejos que, sobrevivendo à base de uma tímida agricultura, não tinham acesso a energia elétrica, educação e saúde. Debaixo de suas terras, não imaginavam o tesouro pré-histórico ali escondido: mais de 800 sítios arqueológicos com pinturas e gravuras rupestres datadas com até 12 mil anos de idade.

No decorrer do tempo, enquanto desenvolvia a pesquisa nos sítios da região junto a uma equipe de várias partes do Brasil e do mundo, Guidon começou a mobilizar autoridades, instituições públicas e privadas e políticos para olhar para a Serra da Capivara. 

Seis anos depois de chegar ao interior do Piauí, em 1979, ela conseguiu que o Governo Federal criasse o Parque Nacional da Serra da Capivara, área com 100 mil hectares que abrange os municípios de São Raimundo Nonato, João Costa, Brejo do Piauí e Coronel José Dias. O início de um sonho.

Mas não bastava delimitar a área. Era preciso também fazer um trabalho social no cotidiano dos moradores da região. Um dos passos mais importantes foi a criação, em 1986, da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), entidade administrativa do parque que, desde o início, teve como meta importante o desenvolvimento socioeconômico-cultural ao incluir, no Plano de Manejo, a integração da população ao entorno às ações de preservação do lugar.

Com a criação do parque, muitas famílias que habitavam a Serra da Capivara precisaram deixar a área. Niède Guidon, à época, fez o possível para realocar esses moradores em outras casas. Encarou como uma batalha pessoal o direito à moradia, mas encontrou entraves nas políticas locais, e as consequências foram diversas – dos que melhoraram de vida e aproveitaram as novas políticas, aos que perderam sua terra e foram embora. O processo é contado em detalhes no livro  Niéde Guidon: Uma Arqueóloga no Sertão, da jornalista Adriana Abujamra, lançado em abril de 2023.”

“Falar de Niède é falar do passado, da Caatinga, do meio ambiente. Niède traz tantas histórias dentro de sua história, como o seu trabalho para empoderar as mulheres que estavam ao seu lado”, explica Abujamra à Mongabay. 

Para a jornalista, a imagem da “doutora” chegando no sertão guiando uma camionete Rural, de calças jeans e sendo dona de si é algo muito simbólico. “Até hoje em dia, o Nordeste é um lugar de altos índices de feminicídio. Agora imagina, na década de 1970, uma mulher chegar ao parque em uma posição de poder. Dirigindo, contratando peões, incentivando as mulheres a se libertarem da submissão”, completa a escritora.

A PROTEÇÃO DO SÍTIO ARQUEOLÓGICO

Foto: Parque Nacional Serra da Capivara 
Inscrito na lista do Patrimônio Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1991, e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1993, o Parque Nacional da Serra da Capivara, além da riqueza ambiental, é um santuário histórico e cultural que abriga 400 sítios arqueológicos com pinturas e gravuras rupestres que datam de cerca de 43 mil anos. É um dos 63 parques nacionais do Brasil, com aproximadamente 129 mil hectares de proteção integral à natureza. Abrange os municípios piauienses de São Raimundo Nonato, Canto do Buriti, Coronel José Dias e São João do Piauí. Fica no semiárido nordestino, fronteira entre duas formações geológicas, com serras, vales e planície. Abriga fauna e flora específicas da caatinga.

Em matéria publicada pelo Jornal Brasil de Fato, a jornalista Gabriela Moncau (com edição de Nathállia Fonseca) explica o profundo trabalho de Niède em defesa da Serra da Capivara: 

Graças, sobretudo, à atuação de Niède Guidon, em 1991 o Parque Nacional Serra da Capivara foi incluído na lista de Patrimônio da Humanidade da Unesco. Hoje a área é mantida em parceria com o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), e o apoio de diversos órgãos, como o Ibama.

Em 2024 Guidon recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Piauí (UFPI) pelos seus feitos após mais de 50 anos de estudos arqueológicos no estado, dentre eles, a criação da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), responsável pela pesquisa do acervo natural e cultural da região da Serra da Capivara. “Um legado inestimável para a ciência e a arqueologia”, segundo nota do governo do Piauí no dia de sua morte.

Em nota, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) declarou que “com coragem, rigor científico e compromisso com a educação, Niède construiu um legado que transcende a ciência”. De acordo com a pasta, Guidon “foi também uma das vozes mais firmes na defesa da valorização do conhecimento e da presença feminina na ciência”. Ela deixa, diz a nota, “uma marca indelével na história do Brasil”. 

Também no ano passado, Niède Guidon foi homenageada com o nome de uma nova espécie de ave que ainda não tinha sido catalogada. Com um canto de ritmo lento e persistente, a Sakesphoroides niedeguidonae vive no entorno do parque que a arqueóloga dedicou a vida para proteger.

Matheus Lopes Quirino registra o sentimento de Niède, em sua entrevista de 2023: 

“Sempre digo que só fiz meu trabalho e agora vejo a região mudando rapidamente, crescendo com uma importante participação da população local (…) Os jovens cada vez migram menos porque aqui acham trabalho, as iniciativas privadas aumentam a cada dia, as pessoas já não esperam que tudo venha do governo. As duas atividades que iniciamos na expectativa de um dia a região atingir o desenvolvimento, ou seja, o turismo e a apicultura, hoje caminham praticamente sozinhas e com sucesso. Ainda falta, mas me parece que agora é sem retorno. A Serra da Capivara está no mapa do mundo.”

ZEZE WEISSZezé Weiss – Jornalista. Antropóloga. Editora da Revista Xapuri

 

 

 

 

Capa: Agência Gov via MCTI

Deixe seu comentário

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

PARCERIAS

CONTATO

logo xapuri

REVISTA