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Nísia Floresta: Pioneira do feminismo no Brasil

Nísia Floresta: Pioneira do feminismo no Brasil

Nasceu Dionísia Gonçalves Pinto, em Papari – hoje cidade Nísia Floresta – Rio Grande do Norte, em 12 de outubro de 1810. Viveu como Nísia Floresta Brasileira Augusta. Em seu pseudônimo, Nísia demonstrava o sentimento ufanista ao país, ao sítio onde viveu e ao grande amor de sua vida.

Faleceu em Rouen, França, em 24 de abril de 1885, de pneumonia. Quase setenta anos depois, em agosto de 1954, seus despojos foram levados para sua cidade natal, que já passara a se chamar Nísia Floresta. Inicialmente ficaram na igreja matriz, posteriormente foram depositados na morada perpétua no sítio Floresta.

Considerada uma grande feminista do Brasil, Nísia pertencia a uma família burguesa de origem portuguesa, com tendências políticas progressistas e liberais, o que não impediu que fosse dada em casamento aos 13 anos de idade para um grande proprietário de terras chamado Manuel Alexandre Seabra de Melo.

O casamento precoce deixou a menina muito infeliz. Após alguns meses abandona o marido e, em atitude corajosa, retorna à casa dos pais que, por conta da onda antilusitana que invadia o país no período pré-independência, eram obrigados a deslocar-se pelo país.

Nísia, em idade dos primeiros estudos, se encontrava na cidade de Goiana em Pernambuco, onde muito aprendeu com as irmãs do convento Carmelita.

Aos 22 anos, em 1828, já casada com seu segundo marido Manuel Augusto de Faria Rocha, pai de sua filha Lívia Augusta, publicou seu primeiro livro: “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”. Por pressão do ex-marido abandonado, que ameaçava processá-la por abandono de lar e adultério, Nísia muda-se para Porto Alegre.

Exceção às mulheres de seu tempo, Nísia não fazia o tipo sinhazinha, sabia ler e escrevia muito bem, cumpria atividades extra-domésticas e já se embrenhava pelos caminhos políticos. Queria o país livre e com oportunidades iguais para todos, em gênero e em classe social.

Inspirado no livro da feminista inglesa Mary Wollstonecraft: Vindications of the Rights of Woman, “Direitos das mulheres e injustiça dos homens” foi o primeiro livro escrito por Nísia, e o primeiro no Brasil a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho.

Seu livro, de reflexões nacionalistas, surge como o texto fundante do feminismo brasileiro e dá a Nísia o título de precursora do feminismo no Brasil e na América Latina

Em 1833 perde o amado Manuel Augusto. Essa dolorida perda vai refletir na escrita de Nísia em suas cartas autobiográficas. Em 1835 inicia-se a Guerra dos Farrapos. Às mulheres cabia o papel de ficar em casa e defender suas propriedades dos perigos emanados pelos farroupilhas. O discurso de Nísia embasava-se pela defesa do patrimônio.

Em Porto Alegre, onde fica até 1837, manteve profícua amizade com os revolucionários Anita e Giusepe Garibaldi. Mas era só, com filha pequena, e com os malogros da guerra segue mudança para a corte do Rio de Janeiro.

Preocupada em ampliar horizontes, inaugura, funda e dirige os colégios Brasil e Augusto, conhecidos pelo alto nível de ensino, e dedica-se diuturnamente à profissão de educadora. Naquele espaço educacional, Nísia defendia seu pensamento e sua posição revolucionária.

Sua obra escrita, os ensinamentos passados aos alunos, seus ensaios traziam e enfatizavam a temática feminina. Nísia sabia lidar com as barreiras entre o público e o privado e seus textos serviam de referência, quando a imprensa nacional ainda ensaiava os primeiros passos.

Sua obra também pode ser considerada como referencial de pesquisa, pois se valia de dados oficiais das escolas no Brasil para questionar o que era ensinado e destinado à mulher naquele momento. Em seus escritos, tomou lado em defesa dos direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.

Posicionou-se veementemente contra o sistema de Ensino das Escolas da Corte que, até onde permitiam, às meninas-mulheres resumiam o aprendizado de etiquetas, boas maneiras, o gosto pelas futilidades e o alheamento ao mundo exterior.

À época, as escolas preparavam as moçoilas para serem e reproduzirem o papel e as máscaras destinadas à Mulher. A educação para moças era conduzida por estrangeiros e por professoras sem as devidas habilitações. Nísia questionava também o ínfimo número da participação feminina nas escolas e o precário grau de instrução que lhes sobrava.

Muito à frente de seu tempo, Nísia, que viveu 30 anos na Europa e já detinha em si ideais revolucionários, recebia influência do amigo positivista Augusto Comte que considerava as mulheres como importantes figuras sociais, inclusive, fundamentais para o crescimento e desenvolvimento das sociedades.

Em 1849 segue para Paris para tratar de sua filha ferida gravemente em acidente e só retorna ao nosso país entre os anos de 1872/75, em plena campanha abolicionista liderada por Joaquim Nabuco.

Retorna para a Europa em 1875 e publica sua última obra ainda inédita em tradução e lançamento no Brasil: Fragments d’un ouvrage inédit: Notes biographiques (Fragmentos de um material inédito: Notas Biográficas). O pensamento nisiano norteou escritores, entre eles o romântico Joaquim Manuel de Macêdo, autor de A Moreninha.

A feminista, educadora, escritora e poeta Nísia Floresta deixou importante contribuição para os estudos feministas de outrora e de além, na medida em que sua obra serve como material a ser usado pela Literatura Comparada como: Conselhos a minha filha, de 1842; Opúsculo humanitário, de 1853; A Mulher, de 1859.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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