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“Nosso rio está morto”

Por Paula Paiva Paulo, G1 — Brumadinho


rompimento da barragem em Brumadinho aconteceu no começo da tarde de sexta-feira (25). A lama de rejeitos seguiu descendo o Rio Paraopeba, e na manhã de sábado (26) chegou a aldeia indígena Nao Xohã, em São Joaquim de Bicas, a 22 km de Brumadinho.

“O nosso rio está morto. Estamos com o coração ferido porque agora não tem como sobreviver.”

– “Estamos sem saber o que fazer de agora em diante”, disse o cacique Hayó, de 28 anos.

"O nosso rio está morto. Não tem como sobreviver", disse o cacique Hayó, da Aldeia Nao Xohã — Foto: Paula Paiva Paulo

“O nosso rio está morto. Não tem como sobreviver”, disse o cacique Hayó, da Aldeia Nao Xohã — Foto: Paula Paiva Paulo

As 18 famílias que vivem na aldeia usam o rio para pesca, banho, e para lavar roupa. O índio Tahhaõa, de 55 anos, está desde sábado recolhendo peixes mortos e cheios de lama. “Este era nosso alimento”, fala ao recolher mais peixes. Os animais estão sendo queimados para que os cachorros da aldeia não os comam, o que pode ser prejudicial.

“Nós estamos aqui para preservar a terra, a natureza, o rio. Aí vem alguns irresponsáveis e fazem isso, acabam com a nossa vida, com a nossa fonte de alimento, com o nosso lazer.”

– É por isso que estamos revoltados mesmo. Nós queríamos que essas pessoas estivessem aqui para verem, mas eles não têm coragem de vir”, disse Tahhaõa.

Dezoito famílias vivem na aldeia e usam o rio para pesca, banho, e para lavar roupa — Foto: Paula Paiva Paulo

Dezoito famílias vivem na aldeia e usam o rio para pesca, banho, e para lavar roupa — Foto: Paula Paiva Paulo

Os indígenas contam que a água do rio era clara e que era possível ver as pedras no fundo. “Ele morreu às 9 horas da manhã do sábado, quando esse regente veio de lá pra cá, levando embora nossos sonhos”, disse Angohó, de 53 anos, esposa do cacique.

A aldeia não tem energia elétrica. A água usada era basicamente do rio. Com isso, estão recebendo apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai). A Prefeitura de Brumadinho foi à aldeia na segunda-feira (28) para ouvir as demandas dos indígenas. Nesta terça (29), integrantes do Ministério da Saúde foram ao local com médicos, enfermeiros e psicólogos para prestar atendimento.

Única fonte de renda dos índios é o artesanato, vendido em feiras de Belo Horizonte — Foto: Paula Paiva Paulo

Única fonte de renda dos índios é o artesanato, vendido em feiras de Belo Horizonte — Foto: Paula Paiva Paulo

Nao Xohã significa “espírito de guerreiro” em Patxohã, língua falada por alguns indígenas do local. A aldeia é do povo Pataxó. “Nossa aldeia mãe fica em Barra Velha (BA)”, disse o cacique.

Os indígenas contaram que estavam tendo confrontos com o entorno da aldeia, na Bahia. Eles conheceram integrantes do Movimento Sem Terra (MST), que os convidaram para se estabelecer em São Joaquim de Bicas, Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde há um acampamento do movimento, chamado Pátria Livre.

A aldeia pataxó está no local há um ano e seis meses — Foto: Paula Paiva Paulo

A aldeia pataxó está no local há um ano e seis meses — Foto: Paula Paiva Paulo

A aldeia pataxó está no local há um ano e seis meses. A única fonte de renda é o artesanato, que os índios levam para vender em feiras em Belo Horizonte.

Sem água, os indígenas ainda não sabem como irão viabilizar sua permanência no local. “Nós não podemos morrer junto com o rio. Nós vamos lutar. É isso que nós vamos fazer”, disse Angohó.

Estamos com o coração ferido porque agora não tem como sobreviver", disse o cacique Hayó, da Aldeia Nao Xohã — Foto: Paula Paiva Paulo

Estamos com o coração ferido porque agora não tem como sobreviver”, disse o cacique Hayó, da Aldeia Nao Xohã — Foto: Paula Paiva Paulo

Ás margens do rio, capacete que desceu com a enxurrada — Foto: Paula Paiva Paulo

Ás margens do rio, capacete que desceu com a enxurrada — Foto: Paula Paiva Paulo

Fonte: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2019/01/29/nosso-rio-esta-morto-lamenta-cacique-de-aldeia-indigena-a-22-km-de-brumadinho-afetada-por-rompimento-de-barragem.ghtml?


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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