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O arremesso da menina

O arremesso da menina

A cena ocorreu por volta do meio dia de uma terça-feira, quando transportava a filha menina de 11 anos de idade do colégio para casa. E eis que de repente, contrariando o alerta do pai para a hora do almoço, a menina tira de sua mochila o iogurte de baunilha, sorve-o protegida por sua alegria de criança e, ao fim do delicioso deguste, desce o vidro da janela do carro e…

Por Antenor pinheiro

Pronto! Arremessa a caixinha sintética vazia no viário, assim automaticamente, já providenciando o rápido fechamento do vidro e o esfregar das mãozinhas como que satisfeita com o bem executado descarte.

Do retrovisor do meu carro, pude observar que o veículo à retaguarda promovera breve, brusco e, por estas razões, perigoso desvio de trajetória para fugir daquele potinho melado saltitante no asfalto.

Para aplacar a doce vergonha, num reflexo fulminante, silenciei-me rubro de pudor, ao mesmo tempo em que converti o veículo à direita na próxima rua de modo a completar o giro de quadra até o ponto em que repousara o vasilhame lambido. Voltei ao local, incontinente!

Discreto e sob o olhar incrédulo da menina que não entendeu aquele retorno, estacionei o veículo, desci e apanhei o infame potinho adormecido junto ao meio fio, pronto para ser tragado pela próxima “boca-de-lobo”.

Com o objeto sujo recuperado às mãos, sem proferir qualquer palavra, levei-o para o interior do automóvel inserindo-o no “lixinho” instalado junto ao console, que é onde deveria ter sido destinado há poucos instantes dali.

Assustada com o inesperado gesto, a menina abaixou a cabecinha e pôs-se a chorar baixinho sussurrando o justo pedido de desculpas ao pai militante. O silêncio e a placidez facial executadas pelo pai atento, no entanto, foram a medida rigorosa que corrigiu o desvio comportamental, agora lembrado como exemplo pela menina hoje senhora.

É certo! O reportado gesto da menina estudante traz acumuladas tristezas para qualquer pai que eventualmente exerça o papel de motorista escolar e se sinta derrotado por tão indigno arremesso. Carência de cidadania, egoísmo, falta de decoro, ausência de bom senso, sei lá!

O certo é que ele terá testemunhado uma atitude que denota falta de educação geral, ambiental, familiar, escolar e também para o trânsito, sim, para o trânsito, abrangente fracasso social!

Como explicar o vergonhoso arremesso? Penso que as mazelas sociais encontram consenso em todos os campos. Elas interagem entre si, são articuladas umas às outras, creio.

Parece irreal ou exagerado imaginar que um potinho de iogurte atirado à via terrestre seja tão grave conduta, capaz mesmo de se transformar em obstáculo que justifique um grave acidente automobilístico, ou contribua para comprometer a drenagem de águas pluviais, que por sua vez pode culminar em outros acidentes automobilísticos.

Ou seja, mais que ato deseducado, o arremesso de um potinho de iogurte pode se transformar em ato letal. Assim sugere o próprio Código de Trânsito Brasileiro/CTB em seu artigo 26, inciso II, que diz: “Os usuários das vias terrestres devem abster-se de obstruir o trânsito ou torná-lo perigoso, atirando, depositando ou abandonando na via objetos ou substâncias, ou nela criando qualquer outro obstáculo”. Daí a irregular conduta constar do mesmo CTB como infração média de trânsito em seu artigo 172.

Nesse contexto, o arremesso da menina pode ser entendido como ato pueril, produto de ingenuidade ou ignorância social mesmo, tão sentida na rotina das cidades. Permite recuperação no curto prazo se houver pais diligentes que socorram no plano imediato, mas pode traduzir perigo em tempo real capaz de justificar tragédias e tormentos.

É comum se deparar com tais arremessos em vias públicas, inclusive em rodovias. São motoristas e passageiros de carros, caminhões, ônibus, motocicletas e até pedestres os praticantes dessas condutas, levados que são pelo sentimento de que o espaço público a ninguém pertence.

É o valor do convívio coletivo diário corrompido pela plena ausência de bom senso. Deformidade que encontra terreno fértil nas cidades sujas infestadas de mosquitos letais e lixos não coletados e tratados com eficiência – tudo articulado.

É a falta de uma pátria educadora verdadeira que permita construir consciências de meninas e meninos para que não arremessem potinhos de iogurte nas vias das cidades do mundo, e assim não entristecer seus pais militantes.

https://xapuri.info/elizabeth-teixeira-resistente-da-luta-camponesa/

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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