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O Beco da Bosta

O Beco da Bosta

 
 
Nasceu e vive Beco da Bosta. Mas como? Por quê? Simples. No fim desse beco, nos séculos outros, só havia mangues. Era ali que os escravos, trazidos da África (se fosse em Portugal eles diriam “trazidos de África, iam despejar os penicos fétidos dos seus senhores e senhoras brancas, que moravam nesses sobradões imensos. Haja escravo pra tanto trabalho.
 
E eram quando eles, os escravos, viam que os restos dos “seus donos” fediam tanto quanto os deles. Ou até mais. Bem mais. Dependendo do dia. E não adiantavam os perfumes de toda a Europa.
Estava lá, naqueles penicos cheios, a confirmação de que ninguém é melhor do que ninguém. Mais: nunca houve sangue azul.
 
Nos penicos, todos eram iguaizinhos. E sempre foram iguaizinhos.
 
Bom, mas essa foto linda, captada por um olho lindo, não combina com penicos. Tá longe deles. Esse belo “quadro” é de Fernanda Bordalo (sem Facebook, só Instagram @_fnda_), que zanza por essa velha ilha eternizando momentos.
Eternizando, sobretudo, histórias escritas à luz. Os lampiões, nada bobos, ficam todos serelepes.
 
Até eu ficaria. Marrapá!
 
Ok. Ok. A dona desta foto é linda e talentosa. Todo mundo sabe. Mas, às vezes, ela é torturadora. Me disse que o almoço na casa da mãe, hoje, neste domingão, foi peixada maranhense (com a inigualável pescada amarela) e pirão.
Eu? Só li, pensei no prato, senti o cheiro e… MUUUUURRRRRRRI.
 
Estatelado.
 
Pode ser uma imagem em preto e branco de ao ar livre
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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